Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes

50 anos de Caravana Farkas

A Caravana Farkas foi um conjunto de documentários feitos sobre as classes populares brasileiras, em tempos de Golpe Militar. Com um discurso de esquerda e entrando em lugares então inexplorados pelo cinema nacional, muitas dessas pérolas estão hoje no Youtube.


4863148161_ef131f2bec_b.jpg Thomaz Farkas

A Caravana Farkas faz parte de um dos quadros mais emblemáticos do cinema brasileiro. Em momento de efervescência política concomitantemente com o Golpe Militar, um grupo de jovens universitários começou a realizar curtos documentários sobre o povo brasileiro. A desigualdade social nunca antes havia sido um tema tão central na nossa cinematografia. Inspirados por Aruanda (1950, Linduarte Noronha) e Rio, 40 graus (Nelson Pereira dos Santos, 1955), e financiados por Thomaz Farkas - um húngaro naturalizado brasileiro - estudantes cariocas como Arnaldo Jabor, Geraldo Sarno e Leon Hirszman realizaram seus primeiros filmes, em muitos sentidos pioneiros no Brasil.

Recentemente haviam sido inventadas câmeras portáteis que não faziam barulho e os “práticos” captadores de áudio Nagra. Essas inovações trouxeram um novo panorama para a produção documental pelo mundo, favorecendo figuras como o antropólogo e documentarista francês Jean Rouch, que captou na África obras como o memorável Os mestres loucos (1955). No Brasil, a nova tecnologia, ligada à própria origem da Caravana Farkas, permitiu aos cineastas adentrarem locais nunca antes registrados, gerando obras chocantes como Maioria Absoluta (1964, Leon Hirzsman): filmado no interior de Pernambuco, o documentário entrevista cortadores de cana que nunca haviam visto uma câmera, sequer tocado em dinheiro.

A Caravana Farkas esteve relacionada ao movimento do Cinema Novo. Ligado a uma proposta de cinema “genuinamente” brasileiro, reuniu uma série de realizadores que esteticamente se opunham à Vera Cruz, indústria cinematográfica paulista que vivia decadência. Os cinemanovistas eram influenciados por alguns movimentos e pensamentos que aconteciam em escala internacional e, em grande medida, defendiam um projeto de esquerda para o Brasil. Glauber Rocha, uma das figuras mais emblemáticas, projetou à época a “estética da fome”: a miséria do povo brasileiro seria a marca de autenticidade do nosso cinema, um karma a ser dissecado pelo audiovisual.

As safras atuais de filmes que têm sido feitos no Brasil não se baseiam nos mesmos princípios da Caravana Farkas, evidentemente. Nota-se, nos documentários que têm se destacado em festivais, a exemplo de Ventos de Agosto (Gabriel Mascaro, 2015) ou Branco sai, Preto fica (Adirley Queirós, 2015), uma hibridização de gênero que se liga à ficção. Essa mudança representa, no mínimo, um novo posicionamento do documentarista frente à realidade. Também, o documentário atual é, via de regra, mais contemplativo e menos verbal e militante. As possibilidades de interpretação a partir do que o filme oferece são mais livres, ou seja, o discurso é menos unívoco. Essa contextualização é importante para ver filmes do passado: os realizadores da Caravana Farkas faziam parte de um projeto político específico e viviam outro momento social. Apresentavam às classes médias urbanas ambientes nunca antes vistos sequer em tela, que, hoje, são comuns no cinema e TV desde a infância.

Embora esses documentários tenham 50 anos de idade, não são monótonos ou sisudos: se comparados com muito do que se produz hoje, são filmes muito interessantes. Carregam imagens belas e emblemáticas do povo, natureza e arquitetura nacionais, irresgatáveis "a olho nu". Depoimentos tocantes e profícuos, guiados por bons entrevistadores. Edições ágeis e atentas - ao contrário do que poderia apontar o senso comum sobre um cinema mais antigo -, boa escolha de planos e trilha sonora. Até os créditos são dispostos caprichosamente. Os conjunto de documentários relacionado à Caravana Farkas são trabalhos cuidadosos, que demonstram o quanto é possível realizar cinema elegantemente em um contexto de maiores limitações tecnológicas e a partir de certa precariedade material. A tecnologia atual, por sua vez, nos unge com um benefício: muito desse material está disponível no Youtube.

Thumbnail image for 03.png Gravação de cena em Viramundo

Ao longo dos anos os diretores envolvidos assumiram outras tendências ideológicas e formas de fazer cinema. Arnaldo Jabor, por exemplo, diretor de A opinião pública (1967), à época uma visão arejada da classe média carioca, passou nos últimos anos a fazer crítica social para grandes conglomerados de mídia, expressando posicionamentos conservadores (foi demitido do grupo Estado de S. Paulo segundo notícia publicada numa terça-feira, 14/4/2015, posterior a este post. Não sei onde se encontra atualmente).

Uma interessante revisão crítica da Caravana Farkas é feita por Jean Claude-Bernardet, no livro Cineastas e imagens do povo, onde expõe estratégias estéticas e ideológicas imbricadas nestes filmes, que acabam por delimitar o ponto de vista dos realizadores. Crentes de um projeto de sociedade diferente e impetuosos por despertar consciência de classe na vasta massa trabalhadora brasileira, os cineastas deram às suas próprias ideias uma posição central nos documentários. Com uma visão cientificista da sociedade, por vezes esses jovens atropelaram a verdade dos próprios trabalhadores. Viramundo (Geraldo Sarno, 1964) é um exemplo denunciado por Bernardet: ao questionar a afeição dos nordestinos migrantes em São Paulo pela religião Pentecostal e por rituais de candomblé, acabou-se retratando esses migrantes como alienados. Por conseqüência, o filme não contou com a simpatia dos sujeitos retratados.

A ditadura militar recém instaurada também não se afeiçoou dos retratos: não era de interesse a difusão de filmes como Subterrâneos do futebol (Maurice Copovila, 1965), que se debruçava sobre os meninos que queriam mas não conseguiram ser Pelé. Ou menos ainda de Maioria Absoluta, denunciando a tradicional exploração do coronelismo nordestino sobre os homens e mulheres do campo. Dessa maneira, não foram exibidos em televisão, como foi o objetivo inicial do projeto. Salvo essa recepção malograda, os documentários são um ótimo passatempo para a atual geração de internautas: são envolventes, informativos e, ainda (especialmente) hoje, muito dizem sobre a sociedade e formas de viver brasileiras. As esperanças e verdades de uma realidade que deu lugar à nossa estão lá representadas. Não apenas útil para refletir o passado, a Caravana Farkas também esclarece o presente. Sabemos que embora o Brasil seja uma potência econômica no cenário atual, sua desigualdade social é ainda uma das maiores do globo. A narração de Maioria Absoluta firma: dois terços da população nacional são classe popular. Em 2009, no livro Os batalhadores brasileiros, o sociólogo mineiro Jessé de Souza, após anos de pesquisa no Brasil recente, aponta (sem fazer referência ao filme) um quadro semelhante.

Como conclusão, retifico: todos os filmes aqui citados são encontráveis pelo Youtube, com exceção dos dois que mencionei para ilustrar os atuais filmes de festival. Bom proveito.


Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes.
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