Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes

A desigualdade brasileira e a nova classe média

Nos últimos anos o poder de consumo de muitos brasileiros cresceu, despertando o debate sobre uma “nova classe média”. Muitos desses trabalhadores, autônomos, não têm nem os mesmos privilégios das classes médias tradicionais e nem os das classes trabalhadoras do fordismo clássico. O que significa então ser “classe média” no Brasil contemporâneo?


souza.jpg Jessé de Souza

Sabemos que embora o Brasil seja uma potência econômica, sua desigualdade social é uma das maiores do globo. Mesmo com uma série de medidas tendo sido aplicadas pelo Governo Federal recentemente no sentido de melhorar as condições mínimas de vida pelas áreas mais carentes do país, tendo a pobreza extrema sido praticamente erradicada, fica claro que o problema da profunda disparidade social é histórico e não-tão-simplesmente erradicável. Nessa nação de famintos e milionários, foi atualmente popularizado por alguns veículos de mídia e até alguns porta-vozes do Governo Federal o termo “nova classe média”: uma fatia mediana da população que hoje goza de um maior poder de compra. Diferente dos milionários e dos famintos, essas pessoas serão o foco desse texto.

De acordo com a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos) em 2009, a “nova classe média” compreende famílias com uma renda per capita entre R$291 e R$1019. Tal expressão traz uma sensação de “evolução” ou “melhoria” significativa nas formas de vida dessas pessoas. O sociólogo mineiro Jessé de Souza, nomeado em abril de 2015 ao cargo de presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), contudo, questiona essa ideia de uma “nova classe média”: afirma que dois terços da sociedade brasileira são na verdade classes populares, enquanto apenas um terço poderia ser considerado “classe média” segundo uma abordagem não-puramente-economicista (ou seja, diferente da utilizada pela SAE em 2009).

dilma.jpg Na última campanha eleitoral Dilma dedicou o seu 8° programa na TV para o tema "nova classe média"

Explico: tal como o sociólogo francês Pierre Bourdieu, Souza leva em conta uma gama vasta de fatores para definir o que seria “classe social”: o acesso a serviços públicos de qualidade, o gosto, os hábitos, a socialização familiar, o poder social, as verdades e os saberes dos indivíduos. Dessa maneira, o que Souza descobre em livros como Os batalhadores brasileiros: Nova classe média ou nova classe trabalhadora? (2012) é que, embora muitas famílias brasileiras tenham ganho em poder de compra, a formação pessoal da maioria dos cidadãos, sua forma de sobreviver e ver a realidade, é típica das classes populares ou trabalhadoras e não teve um avanço tão relevante nos anos de crescimento econômico petista. Tal condição lhes distancia da “classe média” estabelecida.

Mais do que isso, a inclusão de muitos brasileiros em uma faixa de consumo à qual não pertenciam, aliada ao maior acesso a alguns bens materiais na sociedade (como Iphones e televisões de 40”) não caracterizam necessariamente um aumento na qualidade de vida da população, e nem representam uma reparação no processo de marginalização ao qual muitos brasileiros são historicamente sujeitos. Quando se pensa em formação profissional, moral e familiar, a “nova classe média” parece uma versão contemporânea da tradicional “classe trabalhadora”, mas que tem o privilégio de viver uma época de maior acesso aos bens de consumo e crescimento econômico. Não é segredo que esse grupo emergente ainda tem oportunidades minguadas em relação aos bem nascidos. Assim, o Brasil ainda é, para muitos efeitos, o mesmo.

em transito.jpg O diretor pernambucano Marcelo Pedroso constantemente aborda o aumento do consumo e o comportamento de certa classe média. Alguns de seus filmes que passam por esses temas são Pacific (2009), Em trânsito (2013, na foto) e Brasil S/A (2014)

Dessa maneira, a “nova classe média” brasileira vive distante da “velha classe média” ou das classes médias como compreendidas na França ou EUA de 50 anos atrás (ou de hoje). O que também comprova que, quando se falando em "nova classe média", a palavra "média" não é global, mas local, o que mina a credibilidade do termo. Também é de se considerar que nos tempos áureos do fordismo nos EUA até as classes trabalhadoras (grupo socialmente dominado) dispunham de uma série de benefícios hoje não-tão-comuns na nossa realidade social: bons hospitais, boas escolas, férias, 13º, plano de saúde, etc. As cargas horárias, que não podiam superar as 8h, hoje e aqui comumente estendem-se além disso, especialmente entre os autônomos. Estes ainda têm o dever de administrar e assumir os riscos do próprio negócio. Percebe-se nos atuais rumos do capitalismo financeiro internacional uma pressão sobre as classes trabalhadoras que cresce desde os tempos áureos do capitalismo, quando uma maior gama de benefícios foram acessíveis às massas. O conceito de “nova classe média”, que aumenta a auto-estima de uma fatia da população e homologa o crescimento econômico que encontrou o país, admite, para esses emergentes, uma ausência de direitos que deveriam, nos atuais rumos da história, ser pressupostos. Essa “nova” classe, como um braço bem sucedido (de descendentes) da tradicional classe trabalhadora, está sendo promovida a custo de muito trabalho duro (deles mesmos). Não é mistério que, ainda assim, é em diversos sentidos diferente da tradicional classe média e desprovida dos mesmos direitos que as classes trabalhadoras já tiveram em outros contextos.

Mc_Guimê_show.jpg A ideologia do recente funk ostentação não reverberaria tão alto não fosse a maior facilidade de acesso a bens de consumo (foto: Toni Protto), aliada a certa estagnação nas formas de ver o mundo.

Não é a intenção com essa reflexão invisibilizar os progressos sociais alcançados recentemente. Entretanto, é interesse chamar atenção para uma abordagem não-puramente-economicista do progresso, da sociedade e das classes sociais. Nossos jornais e, conforme demonstrado, também a SAE (órgão estatal) em 2009 usam irrefletidamente desse viés estritamente econômico, abrindo mão portanto de uma abordagem mais humanizada.


Duda Ribeiro

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