Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes

Adirley Queirós: cinema brasileiro contemporâneo

Cineasta da Ceilândia/DF, tem chamado atenção dos festivais nacionais e internacionais fazendo filmes sobre a própria comunidade. Não é raro ver periferias nos filmes brasileiros: o que o destaca da tradição é narrar da margem pra fora (ou seja, para o centro), em sentido inverso ao usual.


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Se não fosse muito arriscado, eu começaria o artigo dizendo: Adirley Queirós é um cineasta tipicamente brasileiro. Não que ele represente o cineasta brasileiro típico, ou então que seu cinema seja o que tipicamente se faz ou tem feito no Brasil. Seus filmes, ora documentais, ora fabulares, são diretamente interessados em espaços e problemas da comunidade onde vive: essa comunidade não é o Rio rico ou a (pradoxalmente) pacata praia da Boa Viagem no Recife, abordada pelo cineasta/morador Kléber Mendonça no bem recebido O Som ao Redor (2012). É a Ceilândia, primeira e maior cidade-satélite de Brasília. A origem periférica distancia Adirley das produções recentes que se arriscaram a falar "da própria aldeia" (como diria Tolstói), ao passo que a aproxima de espaços tipicamente populares. É diferente da Globo Filmes fabulando sobre as castas bem-nascidas do Rio e, ao mesmo tempo, de Kléber Mendonça evocando o neto-de-dono-de-enganho João como protagonista em O Som ao Redor. É também diferente dos universitários cariocas da Caravana Farkas indo até o interior de Pernambuco buscar imagens de pobreza. É também diferente (e mais autêntico) do que muitos dos "filmes sobre periferia" que brilharam na década passada, por exemplo: Hector Babenco e o multimilionário Carandiru (2003), ou José Padilha na sequência Tropa de Elite (2007; 2010), ou, antes, Fernando Meirelles com Cidade de Deus (2001), rompendo com o padrão desses três filmes recentes recentes que é o interesse pelos efeitos e imagens da exclusão social articulados à representação de uma periferia pop.

brancosai3.jpg Dimas Cravalanças (Dilmar Durães) em sua máquina do tempo, personagem de Branco sai, Preto Fica (2014). Ele vem de 2073 para sanar as injustiças cometidas pelo governo e pela polícia contra as comunidades periféricas. Nesse sentido, um anti-Capitão Nascimento.

A partir dos estudos do sociólogo Jessé de Souza, a maior parte da população brasileira viveu, no ápice do governo petista, em condições "populares", como eu já abordei em um outro artigo. Se isso é verdade, o ponto de partida e o tipo de narrativa que constituem a obra deste diretor o fazem muito diferente da maioria do que se tem produzido no Brasil atualmente. Se somos majoritariamente classe popular então a Ceilândia, uma das cidades mais populosas do Distrito Federal, evoca esses rostos e sonoridades. E está no cinema sob a ótica de um morador. Essa diferença que diz respeito à experiência social do diretor e equipe realizadora soma ao poder de incômodo de Branco sai, Preto Fica e transparece não apenas na estética do filme, que conjuga baixo orçamento com modos inventivos de fazer. A Ceilândia de Queirós não aposta em movimentos de câmera mirabolantes, nem atores globais, nem soma bilheterias milionárias, ou tampouco foi desenhada para agradar o gosto da parcela da sociedade brasileira que sustenta os cinemas de shopping.

brancosai3-2.jpg Branco sai, Preto fica. Para uma análise mais atenta desse filme, o mais importante do diretor atualmente, recomendo esse texto da Camila Albrecht.

Quanto à relação entre o documentário/ficção-científica de Queirós e os documentários o Cinema Novo - como Viramundo (Geraldo Sarno, 1965) e os demais filmes financiados por Thomaz Farkas - há a afinidade do interesse social voltado para as populações nordestinas em situação de maior precariedade. Contudo, os documentários da década de 1960, além de ancorarem-se em um olhar muito mais científicos, referenciavam à certa cultura muito provavelmente alheia ao universo dos sujeitos representados, como os cânticos de Gilberto Gil e telas de Cândido Portinari (chique, não?). Nos filmes de Adirley, ao revés, grande parte dos temas musicais são produzidos pelas próprias personagens, ou então por músicas que ouvem em seu cotidiano. As falas dos atores/moradores não se dão através de entrevistas interpeladas por um narrador invisível ou maquinadas por uma edição ágil, como habitual em Viramundo e em outros títulos a Caravana Farkas na década de 1960. Queirós cede aos personagens a narração, as pausas, lhes deixa cantar e falar. Sem pressa em cortar, descobre ao espectador o universo do filme. Esse retrato em primeira mão da periferia, além de ser um efeito bem vindo da popularização das tecnologias digitais e das políticas de incentivo financeiro ao cinema, é parte de um contexto relativamente novo na cinematografia nacional.

maxresdefault.jpg Dildu (mais uma vez Dilmar Durães), personagem ficcional do semi-documentário A cidade é uma só? (2011), procura arduamente se eleger para vereador distrital pelo Partido da Correria Nacional.

Com Branco sai, Preto Fica, Queirós já ganhou alguns prêmios de melhor filme em festivais e o período de maior visibilidade da sua carreira. Entretanto, sua popularidade e aceitação nem se comparam a Tropa de Elite 2 (José Padilha, 2010), outro “filmes de favela”, que por sua vez cumpriu uma das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro. O que diferencia os dois em estilo é, em grande parte, uma pegada pop por parte de José Padilha. Em entrevista à TvCarta, Adirley diz que sonha poder fazer filmes populares. Seu cinema, ao negar a conciliação – ato esse tipicamente pop – com os gostos e anseios das salas de cinema, não se consolida como “de” massas, mesmo que gerado “nas” massas. Também gera olhares de receio por parte das certos grupos(embora seja de se questionar por que algumas idéias perigosas imbricadas nos Tropa de Elite não choquem tanto todo o público). Fica então evidenciado, no que toca à ideologia e às crenças, um embate de uma minoria numérica que é socialmente dominante contra uma maioria numérica que representa uma minoria social (esses os negros marginalizados, em Branco sai, Preto fica).

Nesses termos, é interessante também que a menor visibilidade de Queirós diz respeito também ao seu orçamento. Na cena final de A cidade é uma só?, Dildu vê sua busca por uma realidade mais digna aos seus conterrâneos minada pelo poderio técnico/econômico dos partidos dominantes que lutam em sentido oposto ao seu no mesmo campo. Esta cena poderia ser um paradigma para o próprio cinema de Queirós, que embora diga respeito a todo brasileiro, não é uma "correria" abraçada em âmbito nacional. Talvez um problema político/ideológico, talvez de valorização/visibilidade do cinema brasileiro, talvez um orçamento recuado que lhe impeça a consagração plena com o público e povo, mas provavelmente uma mistura de todas as possibilidades.


Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes.
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