Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes

É possível influenciar politicamente via web?

Até onde se pode mudar o outro ou, de forma geral, a sociedade, via web? O debate virtual aproxima ou afasta? Minimiza as diferenças ou potencializa-as?


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Antes de tudo, este texto não acaba com uma resposta tendente ao "sim" ou "não". É claro que sim, é possível influenciar politicamente em alguma medida. Uma pergunta mediada por "ou" não daria muito espaço para que explorássemos aqui as contradições do processo de comunicação. Assim, a questão que pretendo abordar, mais precisamente, é: "Até onde é possível influenciar politicamente via web?". Sabemos que a internet é locus de "livre" expressão e que, mais do que nunca, via Facebook e outros meios, pessoas têm se dedicado a fazer política. Pretendo então expor algumas reflexões acerca dessa ágora do século XXI.

Certamente a rede facilita a comunicação e a transmissão de ideias, e pode se dizer que, à primeira vista, parece aproximar as pessoas. Dessa perspectiva é uma forte ferramenta de transformação social, festejada por teóricos como Henry Jenkins. Manifestações podem ser mobilizadas através da web. Debates podem ser travados nela. Diferenças e semelhanças com o outro podem ser identificadas e trabalhadas. A informação circula mais desimpedida e robusta do que nunca. O poder centralizador da mídia corporativa pode ser questionado nesta ferramenta. Repúdios podem ser direcionados a figuras e situações que não se encaixam em determinados projetos de sociedade.

Assim, a internet é um campo de disputas simbólicas e políticas prêt-à-porter, por onde usuários (nem falo aqui de empresas e instituições) acabam por reafirmar ou buscar desestabilizar "hegemonias" e ideias dominantes. Campo profícuo para, por exemplo, o combate ao racismo, às injustiças e dominações sociais. A interpretação do início do parágrafo, entretanto, me parece aplicável em todo o espectro político, por exemplo: a Al`Qaeda e o Estado Islâmico, agora também virtuais; certas pessoas nascidas antes da revolução digital que diversas vezes ao dia compartilham Jesus Cristos e semelhantes; grupos à esquerda nos moldes "1968", que não aceitam como as "massas" ainda não compraram as suas verdades; dentre outros.

ABr200613_MCA2268.jpg Nenhuma das imagens usadas para ilustrar o texto se passam na internet (!), como o leitor deve ter notado, mas nas ruas. Em todo caso, é evidente a relação dos protestos acontecidos entre 2014 e 2016 com certa movimentação que se dá, em parte, em ambiente virtual. A fotos ilustram, numa interpretação generalizante, manifestações "à esquerda" e "à direita" do espectro político.

Ferdinand de Saussure, na semiótica, demonstra que os significados não são fixos e portanto são passíveis de diversas e mutáveis interpretações. A possibilidade de relativização de um signo tende ao infinito. A corrente pós-estruturalista nas ciências contribui para fazer entender que as verdades são, antes de tudo, discursos que têm sido bem aceitos. Eu poderia ainda ligar este tipo de pensamento a Nietzsche: o cara que explanou os valores e a moral estabelecida como regras não-lógicas, mas construídas socialmente. Já que "Deus está morto", não se pode dizer que existe uma verdade. O conhecimento, portanto, não é neutro e é passível de desconstrução. De uma perspectiva otimista, pode parecer que somos capazes de desestabilizar as construções sociais a partir de discursos opostos. Mas aí resta um paradoxo, principalmente quando se tratando de internet: tudo é discurso, nada é neutro, e, portanto, tudo é desconstrutível. Claro que isto não faz significar que em política não vale a pena discutir, nem que tudo o que se diga é igualmente verdade e mentira e equivalente a qualquer outra coisa que se possa dizer.

A verdade se cria socialmente através da opinião da maioria das pessoas e/ou do poder e, então, é inegável a importância do debate. Certo. Temos uma ferramenta de debate "grátis" e "democrática" e mais acessível do que nunca. Entretanto, até que ponto será possível através de atos simbólicos neste contexto, mesmo que a longo prazo, reconstruir as ideologias dominantes ou algumas características que a sociedade tem conservado? Como ao menos afirmar convincentemente uma minoria se nem todos estão na web (representariam estes uma minoria esquecida?) e apenas poucos dos online se interessam por algum debate (menos ainda por todos os possíveis debates)? A engajada juventude tem conseguido dar conta de fazer prevalecer seus pontos, ou, ao contrário, só abre espaço à desconfiança mútua através da afirmação de si frente ao(s diversos) outro(s)? Quantos shares anti-racistas são necessários para persuadir um racista convicto? A sensação de democracia, ao dar espaço para todos e tudo, não acabaria por acomodar cada grupo no seu próprio universo de convicções? É possível que o fascínio generalizado pela nova ferramenta faça com que a troca de ódio seja mais expressiva que a troca lúcida de informação (como neste gif)?

13352180645_a5ec0ff6fd_b.jpg As ações de Julian Assange, Edward Snowden e outros demonstram a possibilidade subversiva inerente à web, ao mesmo passo em que a perseguição imposta a eles desvela o limite de ação previstos na ferramenta.

Muitos outros temas se fazem relevantes para as reflexões que iniciei aqui, como: a "globalização" (que aproxima e afasta as pessoas ao mesmo tempo); a importância do mercado e do poder econômico nas transformações sociais (existe uma relação direta entre a conquista de direitos pela mulher e a sua inserção no mercado de trabalho, por eexemplo); a sujeição da web a uma lógica capitalista (que, imagino, só se adensará); a (transitória) identidade cultural na alta modernidade; a crise de representatividade que marca nosso tempo (o que é legítimo? Quem é legítimo para legitimar o resto das coisas?); a propaganda (mais velha que eu e você, mais sedutora que as opiniões racionais, mais abrangente que o sujeito); o soft power característico do tempo que vivemos; o abismo cultural e financeiro que ainda divide as pessoas; etc.

Enfim, a intenção aqui não foi estabelecer perspectivas definitivas aos problemas apresentados, mas ajudar a mim mesmo a desenredar certas linhas mentais na busca de interpretar mais propriamente os rumos sociais. Espero que tenha de alguma maneira ajudado também aos leitores.

Edit: Por acaso, 2 dias após eu enviar esse artigo para avaliação aqui na Obvious, a Revista Forum postou isso.


Duda Ribeiro

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