Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes

Morreu Umberto Eco

Na noite entre 19 e 20 de fevereiro de 2016 morreu o intelectual Umberto Eco, desencadeando certa comoção no Facebook, semelhante a do falecimento de Bowie. Claro, não nas mesmas proporções.


umberto eco.jpg

Geralmente, quando morre uma celebridade eu me abstenho de comentar qualquer coisa nas redes sociais, a menos que seja pra desqualificar com quem se comove. Como é justamente este o caso agora, lá vai: dessa vez morreu o italiano Umberto Eco, que é mesmo um intelectual sub-celebridade. Escreveu aquele livro que virou aquele filme, mas não canta nem joga futebol e é menos famoso que David Bowie. De fato, o impacto do seu falecimento nas redes sociais é muito menor que o do Bowie, também falecido recentemente. E é justamente este tipo de impacto que me motiva a escrever.

Apesar das publicações diversas que ninguém vai começar a ler na euforia do luto, o Eco tem uma frase que virou meme nesses dias: as redes sociais deram o direito de fala a uma legião de idiotas. Ora, não sou eu, jovem pretensioso, que o digo. Foi este velhinho camarada, especialista do campo da Lingüística, Semiologia e Filosofia. Muitas pessoas têm resgatado esta citação nos comentários, como o deputado Jean Willys ou o Leonardo Sakamoto. Eco pensa que num ambiente em que todos têm o mesmo espaço (como a web) o idiota acaba sendo elevado a "portador da verdade" por ser um fiel representante da maioria. E este idiota terá o mesmo direito à palavra que um nobel. Não é uma perspectiva muito democrática, mas faz algum sentido.

Um dos pontos que me motiva a traçar esta reflexão é ficar sempre um pouco impressionado em notar como o impacto da morte de um artista pop é muito maior nas redes sociais que a de qualquer intelectual. Isso se relaciona de maneira um pouco irônica com a tal citação do Eco, já que faz parecer que os profissionais do entretenimento têm alguma relevância fundamental na manutenção da sociedade. Não me entendam mal, sei que a vida humana não tem preço. But first things first.

montagem1.jpg David Bowie, Júpiter Maçã, Umberto Eco e Lemmy, respectivamente. O que eles têm em comum além de fotos p&b fumando?

De qualquer modo, há ainda um segundo ponto altamente irônico nessa história: Eco, um cara que levou o estudo da semiótica à minúcia, que escreveu e pesquisou vastamente, que só conseguiu um reconhecimento meio insider, justamente no dia da sua morte viraria meme (este o reconhecimento virtual mor) baseado em uma citação descontextualizada que critica o comportamento de geral na web. A tal citação, que vai justamente contra um comportamento de rebanho virtual abobalhado, viraria simultaneamente uma frase de efeito e um símbolo pra comoção-de-luto-de-celebridade. Como um resumo feito às pressas da obra deste autor, pra quem não chegou a ler. Feito justamente nos moldes de simplificação que ele se propôs a alfinetar.

Seria necessário, pra fechar as ideias aqui, eu me queixar mais extensamente de como essa coisa de lamentar a morte de uma celebridade nas redes sociais é furada. Mas daí seria demais pra este post.


Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes.
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