Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes

O mal estar na casa grande

Casa Grande (Fellipe Barbosa, 2014) é um longa-metragem cuja narrativa se ambienta no Brasil recente. O texto apresenta brevemente o filme, viajando de Homero a Freud, passando por figuras como Richard Linklater e Gilberto Freyre.


Casa Grande (2014) narra sobre Jean (Thales Cavalcanti), jovem de ascendência economicamente privilegiada, residente na Barra da Tijuca. A história não é muito diferente da de Fellipe Gamarano Barbosa, diretor do filme, que enquanto estudava cinema em Nova York entre os anos 2000 e 2008 (não) viu a família ser atingida por uma crise financeira que desmantelou seu estilo de vida usual. No filme, o jovem de 17 anos estuda no colégio São Bento, escola onde só entram rapazes (ricos). Diferente da história do diretor, entretanto, o filme se passa por 2012. Essa transposição no tempo cria uma interessante relação entre a decadência econômica de alguns ricos, tema central da obra, e a ascendência de alguns setores marginalizados na sociedade que acontecia naquela época -ou, pelo menos, da ascendência do nível de consumo dessas pessoas.

O roteiro à primeira vista transita por momentos banais da vida de Jean, nesse sentido como um Boyhood (2014, Richard Linklater) à brasileira, nas devidas proporções do recorte temporal e orçamento. Ao mesmo tempo, se desenrola como um O Som ao Redor (2012, Kléber Mendonça) um pouco mais recheado e didático e alguns quilômetros ao sul. Tal como o longa de Kléber Mendonça e Que horas ela volta? (2015) de Anna Muylaert, Casa Grande chega apontando que alguma coisa anda fora da ordem habitual.

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Pesa um pano de fundo trágico sobre Jean, com ares de mal-estar na civilização e potencializado pela adolescência vivida pelo personagem. O final, catártico e conciliador, se desenrola a partir de um ato de coragem do protagonista, valor central nas tragédias gregas. Através desta coragem rebelde o alterego de Fellipe rompe momentaneamente com seus compromissos e prisões sociais, e desvenda ao espectador e a si mesmo uma fração ainda inexplorada do seu próprio mundo: a “senzala”, da qual a “casa grande” não poderia prescindir. A alguns olhares fica a ideia de “final aberto”, que talvez seja assim pela própria fuga da tragicidade no desfecho: como uma Tróia que se encerrou antes da decadência total de Aquiles, e que assim foi pela relação de proximidade demasiada entre diretor e protagonista.

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O texto acima, de minha autoria, foi originalmente publicado em janeiro de 2016 na Calvero, uma zine online de Pelotas, Rio Grande do Sul. Este é o trailer oficial do filme. Ao integrar este texto na Obvious e aproveitei para recheá-lo com alguns links, evicendiando as referências a Freud e Gilberto Freyre, bem como incorporando um link para uma versão resumida do meu TCC, que escrevi sobre as mudanças sociais e econômicas do Brasil recente como retratadas em O Som ao Redor de Kléber Mendonça.


Duda Ribeiro

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