Duda Ribeiro

Opinador virtual, radicado no sul do Brasil, se debatendo contra as coisas pra não ser enraizado. Intrigado com as representações da realidade social nos filmes

Outono Celeste: sci-fi no sul do Brasil

No curta-metragem apenas uma meia dúzia de palavras são ditas: seu locutor é rapidamente desintegrado por forças alienígenas. A partir disso, uma silenciosa comunicação é construída entre uma menina, um cachorro e um alienígena. O filme foi gravado em 2015 e passa a estar disponível no Vimeo, tendo rodado importantes festivais nacionais e internacionais.


Noite de outono. Um jovem casal à beira de uma fogueira em um acampamento. Ela vai até a barraca buscar alguma coisa enquanto ele é subitamente desintegrado por luzes misteriosas. Outono Celeste é um curta-metragem com o núcleo de produção de Pelotas/RS, rodado na cidade de Santana da Boa Vista, 2015. Foi selecionado para mais de 25 festivais em 8 países, dentre os quais alguns dos mais importantes do Brasil, como Tiradentes, Festival Internacional de São Paulo, Janela Internacional de Cinema do Recife e Gramado. É uma circulação expressiva, especialmente se notando que foi produzido no terceiro semestre de um curso de graduação, sem orçamento. Em dezembro de 2016 foi liberado no Vimeo, neste link.

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Iuri Minfroy também assina De dentro das paredes tão pequenas (2016), ainda em lançamento. Sua obra se constrói em torno de um senso estético beat e esporádicas alusões ao realismo mágico. A despeito da possibilidade de categorização – totalmente minha -, o diretor afirma buscar desviar dos clichês maneiristas de gênero, rumo a novas possibilidades na linguagem. Nesse contexto, Outono Celeste constitui um pano de fundo sci-fi, com uma narrativa que remete, sobretudo, à construção de um processo de comunicação entre os personagens. A palavra está abolida nas interações que se estabelecem entre uma menina, um extraterrestre e um cão.

Clara (Ana Paula Schneider) é com quem nos identificamos mais fortemente. Compartilha nossos sentidos fisiológicos, nossos sistemas simbólicos. Provavelmente falaria português (se tivesse falado), o que não é tão comum entre seres humanos. Já o visitante celeste (interpretado pelo roteirista Arthur Feltraco) é a mais extrema definição de um forasteiro (em inglês, alien também é uma tradução para forasteiro). Vivencia instintos, sentidos e desejos em misterioso silêncio. Sua maneira de se relacionar com o mundo físico transcende nossa compreensão (como na cena em que faz flutuar folhas do chão) e nos questionamos se dispomos das ferramentas para desvendar suas motivações.

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Posto isto, o que se estabelece é uma espécie de dança, um encontro insólito cozido em pleno Brasil, fora do eixo Rio-São Paulo (os mais exaustivamente representados na cinematografia, tidos muitas vezes como representantes de alguma coisa). Mais especificamente em uma mata nativa que parte do Rio Camaquã. Os personagens loiros apontam para a expressiva colonização germânica no interior Rio Grande do Sul, poderia-se indagar. Esteticamente o filme foge do louvor aos clichês do tradicionalismo gaúcho: o extraterrestre como posto gera uma crônica sobre o próprio processo colonizador. Muitas vezes amistoso, traz também a possível faceta de um Cristóvão Colombo interestelar que brinca com os poderes instituídos – o rapaz, na primeira cena, é rapidamente transformado em um montinho de cinzas - e faz indagar sobre quais forças representaria. Neste cenário sci-fi, descendentes das civilizações legadas pelo imperialismo e colonização europeus experimentam condição semelhante à dos indígenas quando primeiro chegaram aqui, potencializada pelo futurismo transcendental deste novo visitante.

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A comunicação não é uma exclusividade humana, bem se sabe, mas também se dá entre espécies distintas, ainda que através de outras linguagens que não a verbal. Como com o cão que surge na última cena. Paira no filme um rompimento com o ordenamento palavresco do mundo e das interações. Ainda que o cachorro constitua um estranho, é muito mais familiar que o alienígena até então apresentado. Paralelamente, tal como os humanos, o animal acaba submetido aos poderes deste forasteiro. De pronto o cão é simpático à Clara, como uma versão mais animada de Wilson, no filme Náufrago (Cast Away, Robert Zemeckis, 2000). Costumamos não reconhecer os quadrupedes como semelhantes, logo que neles diagnosticarmos a ausência de consciência racional e as possibilidade de comunicação verbal. Contudo, após o flerte com o extraterrestre, após estabelecida a dinâmica soturna e misteriosa do filme, nossas diferenças parecem pequenas frente às semelhanças: nos descobrimos sujeitos da condição e limitações terráqueas.

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Duda Ribeiro

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