cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A comilança: o banquete indigesto da sociedade de consumo

Este artigo analisa os efeitos negativos do consumismo desenfreado por meio do polêmico filme "A comilança" de Marco Ferreri.


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Muitos fatores podem tornar um filme ou um diretor imortal. Alguns cineastas ficam para a História por remarem a favor da maré , realizando películas que caminham ao encontro das expectativas dos espectadores ; outros se perpetuam pelo motivo contrário: a ruptura com os valores e normas cinematográficas e/ou sociais.

A comilança , de Marco Ferreri, é um bom exemplo de filme que marcou mais pela polêmica causada que pelo complexo conteúdo e estética apresentada. Ferreri dissecou a sociedade de consumo, com suas mazelas; ironizou importantes arquétipos sociais e revelou o enfado e o fastio de uma sociedade controlada pelo vazio dos excessos. Até hoje , pouco se sabe e se produz sobre esta obra.

Analisando cuidadosamente o filme de Ferreri , perceberemos variadas conexões com o mais comezinho cotidiano e com as mais universais angústias que assolam a existência humana : paradoxal, complexa , imprevisível.

O enredo é simples: quatro bem-sucedidos amigos de meia-idade se reúnem em uma mansão abandonada. Por meio de uma orgia sexual e principalmente gastronômica pretendem atingir a morte. Representam importantes arquétipos da sociedade: o juiz , que simboliza a lei ; o chefe de cozinha , que representa o gosto pelo prazer ; o produtor de TV , o quarto poder ; o piloto de avião , a virilidade e sedução. O quarteto não está sozinho na literal missão suicida : todos são amparados e orientados pela doce Andrea , uma professora primária. A docente também ocupa um lugar de destaque em nossa sociedade , o que nos induz a pensar que somos preparados desde a infância para os excessos do consumo.

A personagem da professora me faz lembrar de Foucault e sua trágica visão sobre a escola. Para o filósofo, a instituição educacional não legitimava a ideologia dominante; criava-a.

Qual é a relação entre os amigos e a sociedade de consumo? Se pensarmos na infinidade de informações e produtos que adquirimos sem necessidade , perceberemos que a ingestão incessante de alimentos mostrada no filme não está tão distante da nossa realidade.

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O excesso e a massificação marcam as sociedades capitalistas

Jean Baudrillard dissertou sobre as principais características das sociedades de consumo. Salientou a questão do desperdício e da fragilidade dos objetos e serviços que se tornam descartáveis para manter a engrenagem que as sustenta. Enfim, o transitório é o que torna a sociedade de consumo perene.

Não podemos nos esquecer de que Ferreri estava inserido num contexto muito complexo: o do cinema político italiano dos anos 1960 e 1970. As únicas personagens que questionam a ingestão autômata de alimentos são as prostitutas contratadas pelo piloto de avião para compor o quadro dionisíaco. Uma das jovens, chorando, questiona o porquê de todos comerem tanto. Se partirmos do pressuposto de que as prostitutas são as únicas no banquete que não fazem parte das estruturas de poder da sociedade , fica mais simples entender o seu questionamento: apenas o que está fora do poder é capaz de confrontá-lo.

Onírico, perturbador e lúcido, A comilança é quase uma poesia em estado cinematográfico , embora tenha sido visto por muitos como um filme de mau-gosto simplesmente. Se partirmos de uma perspectiva deleuziana , compreenderemos que o cinema faz pensar , que por meio das imagens e signos , os cineastas fazem filosofia.

O estranhamento, o medo, o nojo , a piedade despertados pela A comilança faz o espectador mergulhar no mais misterioso da realidade humana. Como afirmou o cineasta Luis Buñuel, o mistério é ingrediente essencial a qualquer obra de arte.

O surrealismo ressaltou no cinema sua vocação onírica ; sua capacidade para romper com a lógica racional do mundo para compreender melhor o mesmo mundo. Para Deleuze o cinema não era representação e sim era a vida, reiterando a ideia de Buñuel sobre realidade e fantasia. A vida imaginada , sonhada , lembrada é tão real quanto a vida material do dia a dia.

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O surrealismo nos propõe novos olhares sobre a realidade

Por meio de uma situação bizarra e grotesca , é revelado o enfado de uma sociedade pautada no consumo , em que os excessos , tanto alimentar como sexual , indicam a precariedade das relações sociais e afetivas.

Em A comilança, a mansão escolhida para o suicídio coletivo funciona como simbologia da decadência dos quatro amigos . Além disso pode indicar o desperdício. Uma casa enorme é mantida fechada. Na sociedade de consumo produtos dispensáveis são adquiridos. O excesso de alimentos serve de indicativo de como o consumo desenfreado está relacionado ao vazio de objetivos e valores. O quadro onírico de Ferreri simboliza nossa cultura do excesso e do desperdício , com saturação de imagens e informações visuais , sonoras e verbais; em que a exposição do erotismo conduz a um enfastiamento.

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A necessidade de consumir compulsivamente se tornou algo normal em nossa sociedade. Os grandes centros de compras são os atuais templos.

No início do filme , em uma das primeiras sequências , ouvimos o personagem de Michel Piccoli dizer que não podemos viver somente para trabalhar. A frase parece banal. Se pararmos para pensar , veremos que a vida da maioria esmagadora das pessoas se resume a trabalhar . E , muitas vezes , em funções e contextos que não lhe agradam. A grande compensação da sociedade de consumo não é realizar-se profissionalmente ; não é desenvolver plenamente as potencialidades.

A sociedade de consumo é movida e mantida por uma engrenagem invisível que estimula a produção cada vez maior de lucros em detrimento a qualidade de vida como realização e relacionamento. Para compensar o trabalho pouco significativo, consome-se além do necessário, com objetos que denotam status e que muitas vezes são tão pouco significativos quanto o trabalho executado, que permite a sua compra.

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O tédio pode ser nosso mais íntimo colega de trabalho

O quadro onírico de Ferreri pode ser visto como uma simples aberração ou como a amarga constatação de uma realidade horrível e imutável. Um terceiro olhar é enxergar os filmes que questionam os mecanismos de poder da sociedade como uma alternativa para reelaborarmos a nossa vida.

O excesso de comidas e a materialização extrema do sexo, apresentada pelo personagem de Marcello Mastroianni , que despe o ato de qualquer afetividade e espiritualidade, transformando-o em algo puramente físico e mecânico, talvez , seja uma das mais poderosas metáforas do filme sobre o desligamento que temos com aquilo que compramos. O adquirir e o consumar sexual no contexto do filme tem um peso simbólico semelhante.

Quase toda a trama se desenvolve dentro de casa. Há poucas externas e a iluminação é escura. Mesmo as externas apresentam dias cinzentos e frios. Os personagens fechados em uma casa escura pode ser o indício de um dos elementos principais do filme : a intimidade. No mundo lá fora , cinzento, frio, automatizado, hostil , os amigos são bem-sucedidos. Na intimidade da casa escura , seus medos , limites e fragilidades são as guarnições dos pratos servidos por Ugo. O viril piloto revela-se um impotente. O juiz desnuda sua ingenuidade. O cozinheiro utiliza como arma as iguarias que prepara. O produtor de TV afunda-se nos próprios excrementos.

Apesar da aparente doçura da professora , esta também mostra-se em sua faceta mais dramática: uma mulher incapaz de quebrar o automatismo ; de propor algo novo e realmente libertário. Por isso, entrega-se à bacanal alimentar e sexual, pois é tudo o que consegue fazer , reforçando mais uma vez a ideia de que a escola é apresentada no filme como árvore infrutífera ou geradora de maus frutos. Entre afagos e um sensualismo obsceno se coloca ao lado dos amigos , comendo , porém, não se envenena. No final do filme, entra altiva na mansão , pronta para “orientar” as futuras gerações.

Da mesma forma que a sociedade de consumo nos promete um mundo de felicidade e prazeres por meio de produtos , Andrea seduz os amigos com o seu corpo rechonchudo, sua aparência de pintura renascentista , seu rosto bondoso e sua disponibilidade para dar a cada um o que desejam ou pensam desejar. Provavelmente , Andrea , seja o arquétipo de como a escola pode compactuar com a sociedade de consumo; como a escola que deveria preparar as pessoas para uma liberdade consciente ; para a autonomia de pensamento, pode conduzir a um adestramento que facilita a perpetuação da sociedade de consumo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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