cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A ideologia de um cinema falsamente ingênuo

Este artigo deseja mostrar que filmes inteligentes podem estimular novas atitudes, pensamentos e sentimentos enquanto filmes aparentemente bobinhos podem manipular as pessoas no sentido do consumismo , dos preconceitos e dos tabus.


Gaetano_Previati_-_Il_bacio.jpg

O cinema comercial americano nos induz a modelos idealizados.

Sou suspeita para falar sobre cinema americano pois fiz uma opção sentimental e intelectual pelo europeu há anos luz. Isso não quer dizer que os Estados Unidos não possuam grandes diretores e filmes memoráveis. Muitos destes grandes diretores afirmam se inspirar em cineastas europeus. E grande parte dos filmes mais irreverentes e subjetivos criticam ferozmente o American way of life. Basta pensarmos em exemplos não tão antigos como Pequena Miss Sunshine ( 2006) e Beleza americana ( 1999). O primeiro questiona o sentido de ser fracassado em uma sociedade que divide as pessoas entre vencedoras e perdedoras. Tal linha de pensamento é conduzida por um personagem especialista em Marcel Proust , complexo escritor francês que teve uma vida de fracassos para os padrões vigentes das sociedades capitalistas.

Abigail_Breslin.jpg

Abigail Breslin, protagonista de "Pequena Miss Sunshine".

Em Beleza americana o personagem vivido por Kevin Spacey afirma que o melhor momento do seu dia é quando ele se masturba. Neste filme , mais um retrato feroz do American way of life, todos usam máscaras. Ninguém é realmente o que aparenta ser. A loira sexy na verdade é virgem. A personagem vivida por Annette Bening , esposa de Kevin Spacey , esconde atrás da sua motivação histérica a categoria mais deprimente de fracassada. O vizinho machão e homofóbico na verdade é um gay reprimido. Poderia citar muitos outros exemplos de filmes estadunidenses que quebraram protocolos ; que questionaram o sistema e encantam com o senso de realidade e trazem à tona a necessidade de entender o cinema como algo que extrapola o mero entretenimento. A maioria assiste a filmes para sonhar. Alguns poucos assistem para acordar. Porém, a maioria das produções são para ganhar dinheiro mesmo.

Hlediště_kina_Světozor_při_zakončení_festivalu_Mezipatra_2007.jpg

No entanto, falar que muitos filmes servem apenas para entreter , não significa dizer que tais obras são ingênuas ideologicamente falando. Alguns filmes extremamente comerciais e aparentemente “bobinhos” ; feitos apenas para rir , chorar ou dar medo, carregam uma ideologia pesadíssima e perigosa, pois diferentemente do cinema independente e de arte que nos convida a refletir , o extremamente comercial apresenta todas as suas verdades como inquestionáveis. Vamos a um exemplo? A mentira ( 2010) . Nome bem sugestivo. O filme fala sobre uma garota recatada que quer se passar por uma devoradora de homens. Mais uma vez a questão das máscaras para parecer bem sucedido em uma sociedade com valores materialistas. Mas o grande problema deste filme se concentra na personagem vivida por Lisa Kudrow , a atriz que interpretou por dez anos a insólita e carismática Phoebe no seriado Friends. Lisa Kudrow interpreta em A mentira uma diretora de escola que se envolve sexualmente e afetivamente com um aluno. Mas o filme mostra apenas o lado sexual da relação, ignorando a complexidade de um caso entre professor/aluno.

Situação semelhante foi apresentada no filme The English teacher , traduzido para o Brasil como Adorável professora , estrelado pela talentosíssima Julianne Moore. Na visão destes filmes, professoras e diretoras que se envolvem com estudantes agem como loucas surtando ou transmitem doenças venéreas porque são promíscuas e asquerosas. A diretora vivida por Lisa Kudrow contaminou o aluno. A professora de Julianne Moore tem relações sexuais com o estudante em plena sala de aula e depois adota um comportamento transloucado. Se formos comparar estas duas obras com o filme inglês Notas sobre um escândalo ( 2006) veremos que a personagem da professora que comete a transgressão é um ser humano completo, denso, que sofre e se sente sozinha. O seu erro não a transforma em uma louca ou em uma mulher promíscua.

Até os filmes de terror não fogem à ideologia. Em obras como Sexta-feira 13 , a mocinha boazinha , que gosta de crianças, boa filha e recatada nunca morre. São brutalmente perseguidas , mas no final, sempre acontece alguma coisa; sempre chega alguém que as salva. Em filmes como os do diretor italiano Mario Bava qualquer um poderia morrer: bonzinhos e mauzinhos; recatadas e taradas.

La_Maschera_del_Demonio.png

Barbara Steele em "A máscara de Satã" , do italiano Mario Bava.

O cinema comercial estadunidense aparenta ser o que menos ensina. Mas provavelmente é o que mais ensina; é o que mais fornece lições de moral fechadas. Lições adequadas aos interesses de um sistema que prioriza o sucesso e não a felicidade.

Grande parte da produção comercial americana se dedica a fazer historinhas aparentemente bobinhas , mas que na realidade colocam os Estados Unidos como os mocinhos do mundo e seus inimigos como os vilões. Durante a Guerra Fria , que se estendeu do fim da Segunda Grande Guerra até a queda do Muro de Berlim ( 9 de novembro de 1989) muitos filmes mostraram os países da extinta União Soviética como os vilões do mundo. Por exemplo: O Franco atirador ( 1978). Confesso que me deixei levar por este filme esteticamente comovente. Mas na cena final, quando os personagens cantam o hino dos Estados Unidos , senti uma cortina ser aberta e pude ver os atores demaquilados. Percebi que na realidade o filme era uma propaganda americana. Os Estados Unidos nunca engoliram perder para o Vietnã e atribuíram aos soldados rivais uma crueldade exclusiva, que na verdade existe em todo povo que vence.

Táxi Driver de Scorsese foge à regra. Neste filme , um veterano da guerra do Vietnã salva uma garota da prostituição, deixando um enorme rastro de sangue. A família da garota e a sociedade agradecem. Por outro lado o personagem nos parece o tempo todo desajustado. Enfim, o filme não fornece uma resposta fechada , o que o torna no mínimo muito interessante.

Travis_Bickle.png

Robert De Niro em "Taxi Driver" , de Martin Scorsese.

Esta relação maniqueísta ainda vigora no cinemão americano. Eles continuam como os mocinhos. Agora os vilões são outros. Durante toda a sua trajetória, o cinema comercial americano funcionou e funciona como um instrumento de persuasão ; uma máquina de fazer ideologia disfarçada de indústria do entretenimento. Consideramos quase todas as culturas não ocidentais estranhas e brutais porque as conhecemos por meio de jornais e filmes comerciais , veículos nem sempre preocupados em se aprofundar no sentido antropológico da palavra. Sabemos fatos , costumes. Mas não entendemos os porquês. Julgamos o outro por meio de nossos critérios.

Somos estimulados a repetir padrões comportamentais que nos fazem sofrer e nos roubam a espontaneidade para nos encaixarmos em um pseudo modelo de sucesso, que nada tem a ver com felicidade no sentido mais genuíno da palavra. As comédias românticas induzem às mulheres a esperarem por um tipo de relacionamento idealizado , o que faz muita gente sofrer demais. O dinheiro, o poder e a beleza são supervalorizadas ; a sexualidade é tratada como um tabu; o consumismo é estimulado. Por tal razão é muito enriquecedor assistir a todo tipo de filme e entrar em contato com fontes de conhecimento variadas. Desta forma, poderemos construir nossas próprias opiniões com um olhar mais abrangente.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Sílvia Marques