cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

A ideologia de um cinema falsamente ingênuo

Este artigo deseja mostrar que filmes inteligentes podem estimular novas atitudes, pensamentos e sentimentos enquanto filmes aparentemente bobinhos podem manipular as pessoas no sentido do consumismo , dos preconceitos e dos tabus.


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O cinema comercial americano nos induz a modelos idealizados.

Sou suspeita para falar sobre cinema americano pois fiz uma opção sentimental e intelectual pelo europeu há anos luz. Isso não quer dizer que os Estados Unidos não possuam grandes diretores e filmes memoráveis. Muitos destes grandes diretores afirmam se inspirar em cineastas europeus. E grande parte dos filmes mais irreverentes e subjetivos criticam ferozmente o American way of life. Basta pensarmos em exemplos não tão antigos como Pequena Miss Sunshine ( 2006) e Beleza americana ( 1999). O primeiro questiona o sentido de ser fracassado em uma sociedade que divide as pessoas entre vencedoras e perdedoras. Tal linha de pensamento é conduzida por um personagem especialista em Marcel Proust , complexo escritor francês que teve uma vida de fracassos para os padrões vigentes das sociedades capitalistas.

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Abigail Breslin, protagonista de "Pequena Miss Sunshine".

Em Beleza americana o personagem vivido por Kevin Spacey afirma que o melhor momento do seu dia é quando ele se masturba. Neste filme , mais um retrato feroz do American way of life, todos usam máscaras. Ninguém é realmente o que aparenta ser. A loira sexy na verdade é virgem. A personagem vivida por Annette Bening , esposa de Kevin Spacey , esconde atrás da sua motivação histérica a categoria mais deprimente de fracassada. O vizinho machão e homofóbico na verdade é um gay reprimido. Poderia citar muitos outros exemplos de filmes estadunidenses que quebraram protocolos ; que questionaram o sistema e encantam com o senso de realidade e trazem à tona a necessidade de entender o cinema como algo que extrapola o mero entretenimento. A maioria assiste a filmes para sonhar. Alguns poucos assistem para acordar. Porém, a maioria das produções são para ganhar dinheiro mesmo.

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No entanto, falar que muitos filmes servem apenas para entreter , não significa dizer que tais obras são ingênuas ideologicamente falando. Alguns filmes extremamente comerciais e aparentemente “bobinhos” ; feitos apenas para rir , chorar ou dar medo, carregam uma ideologia pesadíssima e perigosa, pois diferentemente do cinema independente e de arte que nos convida a refletir , o extremamente comercial apresenta todas as suas verdades como inquestionáveis. Vamos a um exemplo? A mentira ( 2010) . Nome bem sugestivo. O filme fala sobre uma garota recatada que quer se passar por uma devoradora de homens. Mais uma vez a questão das máscaras para parecer bem sucedido em uma sociedade com valores materialistas. Mas o grande problema deste filme se concentra na personagem vivida por Lisa Kudrow , a atriz que interpretou por dez anos a insólita e carismática Phoebe no seriado Friends. Lisa Kudrow interpreta em A mentira uma diretora de escola que se envolve sexualmente e afetivamente com um aluno. Mas o filme mostra apenas o lado sexual da relação, ignorando a complexidade de um caso entre professor/aluno.

Situação semelhante foi apresentada no filme The English teacher , traduzido para o Brasil como Adorável professora , estrelado pela talentosíssima Julianne Moore. Na visão destes filmes, professoras e diretoras que se envolvem com estudantes agem como loucas surtando ou transmitem doenças venéreas porque são promíscuas e asquerosas. A diretora vivida por Lisa Kudrow contaminou o aluno. A professora de Julianne Moore tem relações sexuais com o estudante em plena sala de aula e depois adota um comportamento transloucado. Se formos comparar estas duas obras com o filme inglês Notas sobre um escândalo ( 2006) veremos que a personagem da professora que comete a transgressão é um ser humano completo, denso, que sofre e se sente sozinha. O seu erro não a transforma em uma louca ou em uma mulher promíscua.

Até os filmes de terror não fogem à ideologia. Em obras como Sexta-feira 13 , a mocinha boazinha , que gosta de crianças, boa filha e recatada nunca morre. São brutalmente perseguidas , mas no final, sempre acontece alguma coisa; sempre chega alguém que as salva. Em filmes como os do diretor italiano Mario Bava qualquer um poderia morrer: bonzinhos e mauzinhos; recatadas e taradas.

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Barbara Steele em "A máscara de Satã" , do italiano Mario Bava.

O cinema comercial estadunidense aparenta ser o que menos ensina. Mas provavelmente é o que mais ensina; é o que mais fornece lições de moral fechadas. Lições adequadas aos interesses de um sistema que prioriza o sucesso e não a felicidade.

Grande parte da produção comercial americana se dedica a fazer historinhas aparentemente bobinhas , mas que na realidade colocam os Estados Unidos como os mocinhos do mundo e seus inimigos como os vilões. Durante a Guerra Fria , que se estendeu do fim da Segunda Grande Guerra até a queda do Muro de Berlim ( 9 de novembro de 1989) muitos filmes mostraram os países da extinta União Soviética como os vilões do mundo. Por exemplo: O Franco atirador ( 1978). Confesso que me deixei levar por este filme esteticamente comovente. Mas na cena final, quando os personagens cantam o hino dos Estados Unidos , senti uma cortina ser aberta e pude ver os atores demaquilados. Percebi que na realidade o filme era uma propaganda americana. Os Estados Unidos nunca engoliram perder para o Vietnã e atribuíram aos soldados rivais uma crueldade exclusiva, que na verdade existe em todo povo que vence.

Táxi Driver de Scorsese foge à regra. Neste filme , um veterano da guerra do Vietnã salva uma garota da prostituição, deixando um enorme rastro de sangue. A família da garota e a sociedade agradecem. Por outro lado o personagem nos parece o tempo todo desajustado. Enfim, o filme não fornece uma resposta fechada , o que o torna no mínimo muito interessante.

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Robert De Niro em "Taxi Driver" , de Martin Scorsese.

Esta relação maniqueísta ainda vigora no cinemão americano. Eles continuam como os mocinhos. Agora os vilões são outros. Durante toda a sua trajetória, o cinema comercial americano funcionou e funciona como um instrumento de persuasão ; uma máquina de fazer ideologia disfarçada de indústria do entretenimento. Consideramos quase todas as culturas não ocidentais estranhas e brutais porque as conhecemos por meio de jornais e filmes comerciais , veículos nem sempre preocupados em se aprofundar no sentido antropológico da palavra. Sabemos fatos , costumes. Mas não entendemos os porquês. Julgamos o outro por meio de nossos critérios.

Somos estimulados a repetir padrões comportamentais que nos fazem sofrer e nos roubam a espontaneidade para nos encaixarmos em um pseudo modelo de sucesso, que nada tem a ver com felicidade no sentido mais genuíno da palavra. As comédias românticas induzem às mulheres a esperarem por um tipo de relacionamento idealizado , o que faz muita gente sofrer demais. O dinheiro, o poder e a beleza são supervalorizadas ; a sexualidade é tratada como um tabu; o consumismo é estimulado. Por tal razão é muito enriquecedor assistir a todo tipo de filme e entrar em contato com fontes de conhecimento variadas. Desta forma, poderemos construir nossas próprias opiniões com um olhar mais abrangente.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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