cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Ménage à trois social? Tô fora!

Este artigo analisa , por meio dos filmes de Woody Allen, o perigo dos encontros sociais a três.


Ivanov_apollo.jpg

Gosto muito do cinema de Woody Allen. Me parece que ele é o diretor do cotidiano; das situações mais banais e ridículas do dia e a dia. Filmes verborrágicos, mas ninguém se entende. Excesso de palavras , excesso de mas , de porém, de entretanto e o caos está sempre generalizado. Ele faz sucesso ironizando o próprio sistema em que está inserido. Um cinema aparentemente simples e deliciosamente feroz.

Vemos por meio de seus personagens os nossos clichês; fórmulas gastas e que não funcionam direito , mas que insistimos em usar por delicadeza , etiqueta , civilidade.

Em nome da boa convivência nos expomos ao pior. Gente culta , educada , que lê livros importantes precisa engolir o próprio instinto mesmo que um quadro terrível esteja se pintando a sua frente. As pessoas bem informadas , modernas e livres de qualquer tipo de superstição superaram o ciúme e o medo da perda , como comenta jocosamente o filósofo Luiz Felipe Pondé.

Ciúme é coisa de gente primitiva e ignorante. Nada tem a ver com a Era do WhatsApp , onde eu sou mais eu.

Na trilogia europeia de Woody Allen , o cineasta trabalhou muito bem os estereótipos das três culturas retratadas. Em “Vicky , Cristina e Barcelona” , os espanhóis são mostrados como quentes e loucos ; com um sex appeal elevado à enésima potência e neurose para nenhuma junta psiquiátrica botar defeito.

Penélope_Cruz.jpg

Em “Vicky Cristina e Barcelona” , Penelope Cruz vive quase uma personificação do espírito espanhol ; um ícone de passionalidade e desejo à flor da pele.

Em “Meia-noite em Paris” , vemos a Cidade Luz com olhos nostálgicos , poéticos e o filme tem uma aura bem cult , a não ser quando aparece a noiva insuportavelmente fútil do protagonista , com aquele jeitão de líder de torcida veterana.

Em "Para Roma com amor” , os italianos são mostrados como confusos e engraçados , comicamente sensuais , ingenuamente safados. Suas traições não têm tanto peso. Lá no fundo, parecem brincadeiras porque são crianças travessas.

Porém, o que mais me chamou a atenção nos três filmes foi a questão do ménage à trois social. Como assim? Não estou falando de sacanagem. Quer dizer , pelo menos não totalmente.

Entre muitas outras teorias , Woody Allen mostrou que trios não funcionam bem. Neste tipo de ménage à trois , alguém sempre cai da cama. E o pior de tudo: os outros dois nem percebem.

Em “Para Roma com amor” , uma professora bem intelectual entrega seu namorado de bandeja para a amiga atriz confusa. Quem em sã consciência pede ao parceiro para fazer turismo com uma amiga sexy e emocionalmente instável? Quase todas nós, infelizmente.

Como toda boa sedutora sem grande profundidade intelectual , a mocinha em questão , acumula uma cultura de almanaque , decora alguns versos de poesias famosas e frases de efeito para impressionar. Nunca duvidem do poder de uma mulher superficialmente intelectual. A olhos incautos, ela parecerá muito mais sabida que uma intelectual de verdade. A que se aprimora realmente sempre tem dúvidas e se expressa com prudência. A superficial dirá tudo com uma segurança completamente erótica. Muitas bijuterias brilham mais do que joias.

Ellen_Page.jpg

Ellen Page como a amiga atriz que transpira uma sensualidade instável em “Para Roma com amor”.

No filme de Woody Allen o relacionamento da professora não foi por água abaixo porque a amiga atriz foi convidada para fazer um filme e de um minuto para o outro seus sonhos se transformaram totalmente. Nunca duvidem do poder de uma pessoa volúvel. Ela muda de sonho como quem troca de lingerie , mas se for habilidosa , tem tempo suficiente para arrasar uma vida durante uma simples semana.

“Em Meia-noite em Paris” , a noiva do personagem vivido por Owen Wilson ( possivelmente alter ego de Woody Allen) tem um casinho relâmpago e tão superficial quanto ela com um pedante amigo que faz questão de demonstrar superioridade em relação ao protagonista. Neste caso, os encontros são a quatro. Uma amiga se reúne com o trio , mas a presença do quarto vértice é tão inexpressiva que nos sentimos realmente assistindo à performance desastrosa de um triângulo desamoroso. Ela não se empolga com as realizações do noivo; tudo o que ele faz é pouco enquanto que baba diante de qualquer asneira que o amigo diz.

Owen_Wilson_Cannes_2011.jpg

Owen Wilson como o protagonista de “Meia-Noite em Paris , roteirista próspero depreciado pela noiva.

Em “Vicky, Cristina e Barcelona” , os personagens tentam compensar seus desequilíbrios formando um trio , o que funciona em princípio. Mas depois a fórmula se desgasta e vemos nitidamente um dos vértices se perdendo.

Enfim, pode parecer paranoia , mas sinto que trios realmente não funcionam, a não ser em situações muito específicas. Um homem com sua esposa e sua irmã. Ok. Irmã do homem, vale ressaltar. Duas amigas , duas primas , duas irmãs compartilhando de um mesmo homem em um encontro social ou passeio ou vice-versa costuma gerar estresse e desiquilíbrio. A não ser que os três sejam apenas amigos . Mesmo que o casal não chegue às vias de fato, muitas pequenas situações desagradáveis podem acontecer , gerando conflitos , promovendo discussões e fomentando antipatias desnecessárias.

Girls_Ahead_&_The_Boy_Instead_(Tandinho-san)_with_red_glasses.jpg

O número 3 gera tensão e disputas por atenção , muito mais complexas e sutis que uma traição sexual.

É da natureza humana prestar atenção e dar valor ao desconhecido. O parceiro é um filme batido, o qual já assistimos muitas vezes. Por mais que o adoremos , ele não nos surpreende mais ; nem provoca arrepios na espinha. Diante de um filme novo , tudo pode acontecer. Ficamos atentos à espera da revelação contida na próxima cena. E mesmo sem perceber , de forma inconsciente , muitas vezes , voltamos o nosso olhar para o terceiro elemento; o outro da relação; o objeto da nossa curiosidade infantil.

Muitas vezes , sem perceber , damos mais valor à companhia do terceiro que a do nosso parceiro pois o marido/esposa já é um “objeto” adquirido ; uma batalha ganha. Pensamento tremendamente ingênuo , mas comum. Muitas vezes , lá no fundo, o problema não é nem o amigo ou a amiga “invasora”. Muitas vezes o problema é com a gente mesmo; com nosso ego faminto; com a nossa necessidade constante de provar para os outros e principalmente para nós mesmos que somos capazes de desbravar novos horizontes.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp, eros //Sílvia Marques