cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A importância do autoconhecimento e da autoaceitação

Este artigo pretende ressaltar a importância de se conhecer e de se aceitar com limitações.


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Creio que ninguém pode ser feliz ou falar sobre felicidade antes de encontrar seu lugar no mundo. Como assim? Não me refiro à casa dos pais ou ao apê que compramos com sacrifício. Também não me refiro à faculdade que queríamos cursar ou à empresa em que tanto sonhamos em trabalhar. Falo de um lugar muito mais simbólico e íntimo. Um lugar que independe do nosso CEP, do nosso emprego ou de qualquer outro endereço físico. Me refiro a uma profunda conexão com a gente mesmo, com os nossos sonhos, ideais, valores, escolhas; com a aceitação sincera e pacífica daquilo que somos, pensamos, sentimos, queremos ou rejeitamos em nossa vida.

Obviamente, a empresa onde trabalhamos, a faculdade onde estudamos, o bairro onde vivemos interferem drasticamente em nosso dia a dia e no nosso humor. Se trabalho em uma empresa que contraria os meus valores, me sentirei estressada, cansada, desmotivada. Se faço um curso que detesto, ficarei irritada, com menos energia, sem estímulo.

Por outro lado, algumas coisas independem da nossa situação objetiva de vida. A nossa sociedade tem muita dificuldade em aceitar as pessoas que não se encaixam em determinados padrões. Não lidamos bem com o ruído. Considero uma modalidade de preconceito associada à falta de imaginação. Por exemplo: quem não quer dirigir carro. Para a nossa sociedade, todo mundo precisa ter uma carta de motorista e usá-la. Quando alguém diz que não quer dirigir , é olhado como um ser patológico que precisa de intervenção médica urgente.

Ninguém em nossa sociedade é obrigado a saber cozinhar, costurar, passar roupas, consertar chuveiros, cortar e tingir o próprio cabelo, confeitar bolos, fazer revisão gramatical dos próprios textos, fazer contas de cabeça, entre outras atividades mais artísticas e intelectuais como compor músicas, dançar, cantar, tocar instrumentos musicais, pintar quadros e porcelanas, escrever livros e defender teses. Mas precisamos saber dirigir.

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Não saber passar roupas não vira um drama social. Paga-se uma lavanderia e pronto!

Se canto mal ou confeito um bolo de forma desajeitada, ninguém morrerá por isso. Se minha tese não é a mais revolucionária de todas, ninguém ficará numa cadeira de rodas por isso. Agora, se provoco um acidente porque não sei dirigir bem, eu posso sim machucar gravemente a mim mesma e outras pessoas. Tudo bem que saber dirigir facilita o dia a dia. Mas quantas outras atividades também não facilitam e nem por isso são socialmente cobradas? Saber cozinhar e passar roupas, também não facilita o dia a dia e nos faz economizar dinheiro? O mesmo não se aplica a quem consegue com uma caixa de ferramentas consertar chuveiros e torneiras em casa?

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Quem cozinha bem, economiza dinheiro e pode se alimentar de forma mais saudável.

A nossa sociedade pensa que fazer um doutorado e escrever um livro são coisas do outro mundo. Não. Não são. São tarefas como muitas outras. São tarefas como dirigir um carro. Alguns nascem para fazer algumas tarefas. Outros nascem para coisas completamente diferentes. A beleza do mundo está aí: na diferença.

Está comprovado cientificamente que existem muitos tipos de inteligência e o autoconhecimento é um deles. É um tipo pouco conhecido e pouco valorizado. Mas ela nos ajuda e muito a nos entender melhor e a fazer escolhas consistentes. Se alguém tentou dirigir ou até mesmo fez terapia para perder o medo, tentou novamente e percebeu depois de algum tempo que não nasceu para dirigir, o melhor que a pessoa faz é parar de dirigir. Esta atitude não é covardia ou comodismo. É lucidez. É autoconhecimento. É a percepção e a aceitação das próprias limitações.

Para alguém dirigir bem, além de treinamento eficaz e prática, a pessoa precisa apresentar uma série de habilidades como alta concentração, coordenação motora boa, senso de direção apurado ou capacidade para ler bem mapas, ótimos reflexos e facilidade para tomar decisões rapidamente sem perder o sangue frio. Em resumo: muitos dirigem , mas poucos dirigem bem . A inteligência espacial é fundamental para bem dirigir ( senso de direção/leitura de mapas). Para alguém deficiente nesta categoria de inteligência, dirigir pode ser algo realmente complicado. Quando aprendemos a nos entender e principalmente a nos aceitar, ninguém mais terá força suficiente para nos encurralar nos tirânicos jogos sociais. Infelizmente, o autoconhecimento faz parte do tipo de inteligência intrapessoal, o mais raro de todos. A sociedade inibe a expressão deste tipo de inteligência, pois precisamos nos aprofundar em tarefas que façam a manutenção do sistema. O autoconhecimento é perigoso porque nos faz questionar o status quo.

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Precisamos aprender a lidar com a diferença. Precisamos entender que as pessoas são diferentes e não tentar o tempo todo criar padrões, rótulos e encaixar todo mundo em pacotinhos do mesmo tamanho e cor. Os conceitos de difícil e fácil são relativos. Depende da percepção de cada um. Depende das habilidades, dos tipos predominantes de inteligência de cada um. Convencionou-se que dirigir um carro é mais fácil do que escrever um livro porque um número maior de pessoas considera mais fácil conduzir a escrever. Em nossa sociedade a minoria é sempre massacrada. Não sou psicóloga nem psicanalista ou psiquiatra. Posso estar falando um monte de bobagens. Corro este risco. Mas me sinto no dever de tentar diminuir o preconceito que existe em torno daqueles que admitem não ter as habilidades necessárias para bem conduzir um carro, de forma segura. Vemos todos os dias nas ruas pessoas dirigindo de forma imprudente, não por vontade de transgredir, por falta de habilidade mesmo.

Encontrar o nosso lugar no mundo é se sentir próspero mesmo não tendo dinheiro; é se sentir atraente mesmo fora dos padrões da moda; é se sentir feliz mesmo se reconhecendo limitado. É falar das próprias dificuldades e defeitos com humor. É reconhecer que nem sempre nós sabemos tudo. É admitir que às vezes a vida é perda mesmo, que a gente não consegue conquistar tudo o que a gente deseja, mas tudo bem. É se relacionar com pessoas que não nos julgam o tempo todo, que nos aceitam e nos querem bem do jeito que somos.

Encontrar o seu lugar no mundo é viver de acordo com aquilo que acreditamos e escolhemos para nós. O conceito de sucesso é muito relativo. Para muitos, sucesso é ter muito dinheiro e fama. Para outros, é trabalhar no que gosta, fazer amor com quem toca o nosso coração, fazer a diferença na vida das pessoas, inspirando-as e motivando-as. Não importa o que seja sucesso para você e qual é o seu lugar no mundo: vá até ele e seja você mesmo. Antes de tudo: faça do seu coração seu porto-seguro, seu lugar mais querido e confiável.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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