cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Carrie , a estranha. Será ela realmente a estranha?

Este artigo pretende analisar o filme Carrie, a estranha, produzido em 1976 e dirigido por Brian De Palma sob o viés do drama e não do terror.


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Sissy Spacek protagoniza brilhantemente este perturbador filme sobre os limites das nossas emoções

Muito mais do que um filme de terror, Carrie, a estranha é uma obra extremamente melancólica e dramática, sobre uma menina que vive um verdadeiro tormento. De um lado, encontra-se sua mãe, uma mulher enlouquecida , com uma fé religiosa deturpada. Do outro, estão seus colegas de escola que a humilham, pois sempre esteve em alta entre os adolescentes desprezar quem difere da maioria, mesmo que o diferente seja melhor.

O aposto "a estranha" acrescentado no Brasil ilustra bem a barreira que as pessoas colocam entre elas e os menos convencionais. Porém, Carrie não deseja destoar. Ela quer fazer parte do grupo; ela quer ser aceita e querida como qualquer outra garota da sua idade. Mas Carrie é bem diferente; não apenas pelas imposições da mãe, mas também por seus poderes telecinéticos. Com a força do pensamento Carrie pode incendiar literalmente o que ela desejar.

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O baile que se inicia como um sonho para Carrie transforma-se em um pesadelo para todos. Depois de tantas humilhações, Carrie já não consegue perceber que a maioria das pessoas no baile não riu de seu sofrimento. Tomada por emoções desenfreadas, começa a espalhar uma onda de terror que atinge os poucos culpados e os muitos inocentes

Uma cena que merece destaque é quando Carrie dança com Tommy no baile de formatura e o rapaz se sente realmente e sem querer fazer nenhum trocadilho, estranhamente feliz. Se Carrie está descobrindo um novo e vibrante mundo, Tommy também se surpreende ao perceber o quanto a garota estranha da escola poderia ser fascinante. Muitos filmes de amor não conseguiram fazer uma cena tão profundamente romântica, que ilustra de forma tão sensível o estado de espírito de um personagem. As luzes ofuscantes do baile, o tom rosado da imagem, a câmera que acompanha o movimento dos dois adolescentes, a trilha sonora nostálgica nos transportam para o mundo interior de Carrie : delicado, poético, ingênuo. Mais do que isso: nos transportam para a nossa própria adolescência e para as lembranças de um tempo ingenuamente erótico.

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Entre outros temas, Carrie , a estranha devassa o universo juvenil , cheio de descobertas e transformações.

Carrie, a estranha é muito mais do que um filme de terror; é muito mais do que um filme sobre bullying, loucura, fanatismo religioso ou poderes telecinéticos. É um filme sobre nossos limites, sobre até onde podemos suportar a dor e as humilhações, sobre a força e a violência das nossas emoções que podem explodir a qualquer momento, ferindo terrivelmente quem estiver ao redor. Assustadoramente belo, poético e trágico. Uma experiência cinematográfica bastante peculiar.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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