cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

"...E o vento levou" continua atual depois de 76 anos

Este artigo pretende comentar a atualidade do filme "...E o vento levou", mesmo depois de 76 anos.


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O fogo nos remete à paixão, à autoridade e ao renascimento de uma sociedade.

É complexo escrever qualquer coisa sobre "...E o vento levou", pois tenho a impressão de que tudo ou quase tudo foi dito sobre esta obra que se mantém atual e apaixonante depois de 76 anos. "...E o vento levou" está muito longe de ser um filme de arte, porém, tal fato não diminui em nada sua grandiosidade. "...E o vento levou" é um excelente exemplo de que filmes comerciais podem ser muito bons e bem feitos. Filmes comerciais não precisam necessariamente se basearem em clichês ou finais felizes e convencionais.

Pode-se dizer que o filme foi ousado para os padrões da época, ao apostar numa "mocinha" corajosa e obstinada, porém, cheia de defeitos como qualquer pessoa real, e num co-protagonista irônico e anticonvencional. Scarlett bebe, se insinua para um homem casado, come demais em público, negocia com os inimigos, cobra as dívidas dos amigos, aceita dançar mesmo estando de luto, enfim, desafia toda uma moral severamente respeitada pela sociedade a que pertence. Porém, ela não chega a se comprazer com a transgressão. Muito pelo contrário. Lá no fundo, ela é uma moralista que admira intensamente os valores retos vivenciados e ensinados pela mãe. Ela transgride para sobreviver e para fazer valer as suas vontades. Ela transgride para manter as terras deixadas pelos pais que, para ela simbolicamente, eram os próprios pais. Para Scarlett, transgredir ou não transgredir não é a questão. A questão é sobreviver.

Scarlett é uma sobrevivente da guerra, da fome, da miséria, da perda trágica dos pais, de um amor nunca concretizado. Embora, seja vista como uma grande heroína por sua incansável capacidade de luta, Scarlett de certa forma, é uma perdedora. Como o próprio personagem de Clark Gable afirmou, ela joga a felicidade fora com as duas mãos.

"...E o vento levou" é muito mais do que um épico; é muito mais do que um filme sobre a guerra e suas consequências; é um filme sobre a determinação e a sobrevivência, figuras encarnadas na imagem da terra. O desfecho do filme é um show à parte. A última frase pronunciada por Reth Butler é desconcertante e extremamente provocativa para um filme realizado no final dos anos 1930.

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Reth Butler e Scarlett O'Hara: erotismo inteligente e sarcástico.Nenhum personagem se submete ao outro, nos remetendo às relações atuais.

Se “...E o vento levou” pode soar um pouco antiquado hoje, pelo puritanismo do filme, alguns gestos um pouco teatralizados como o do personagem de Clark Gable levando a de Vivien Leight nos braços, “contra à força”, por outro, é uma obra atual porque fala de temas atemporais como a determinação e a sobrevivência. Fala sobre a difícil escolha entre manter os próprios princípios e adaptar-se às adversidades. É atual porque apesar da ausência de cenas explicitamente eróticas, “...E o vento levou” tem como protagonistas dois personagens anticonvencionais para os padrões da época, imorais, irreverentes e extremamente atraentes. Scarlett , mais do que Reth Butler, é uma personagem atual, que se encaixaria perfeitamente nos padrões de uma mulher comum dos dias de hoje. Talvez, em pleno século XXI, Scarlett não seria tão fascinante; talvez fosse mais uma mulher que coloca o conforto material , o prazer e os interesses pessoais acima da dignidade, do coletivo e do senso de dever.

Outro elemento que merece atenção especial é a personagem interpretada por Olivia de Havilland: Melanie. Não sabemos ao certo, até que ponto ela conhece os reais sentimentos e personalidade de Scarlett, o que representa uma questão em aberto muito interessante. Uma trilha sonora memorável! Um clássico com C maiúsculo!


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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