cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Jane Austen muito além das comédias românticas

Este artigo pretende analisar a obra da escritora inglesa Jane Austen como atemporal e extremamente crítica.


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Embora muitas comédias românticas tenham se baseado em romances da inglesa Jane Austen, sua obra vai muito além do sentimentalismo juvenil e ingênuo. Para começar a conversa, a célebre escritora não alcançou o patamar de um dos principais nomes da literatura inglesa, escrevendo de forma ingênua para mulheres igualmente ingênuas.

Jane Austen era uma mulher inteligente, crítica, com um olhar feroz sobre a sociedade em que estava inserida. Apesar de pouco viajada e se ater ao seu meio social , Jane Austen destrinchou tão bem os valores de sua época, que muito do que lemos em seus romances pode ser encontrado na nossa vida cotidiana, como por exemplo, o jogo de poder entre as classes da sociedade, o desejo e luta incessante pela ascensão social, as hipocrisias e os relacionamentos de conveniência em troca de privilégios e melhor status. Vamos a exemplos práticos?

1. Pessoas de classe C ou D que tentam fazer amizade com pessoas da classe B. Ou pessoas da classe B que tentam fazer amizade com a classe A, não por afinidade, mas como forma de distinção social. Quem nunca citou com orgulho uma amizade que faz parte do mundo da mídia ou apresenta uma fortuna razoável?

2. Pessoas que deixam de namorar alguém por possuir um nível econômico e intelectual mais elevado.

3. Pessoas que pensam no retorno financeiro na hora de escolher a profissão.

4. Pessoas que vestem máscaras sociais para impressionar positivamente uma visita ou fazer papel bonito ao visitar alguém.

5. Pessoas que se sentem honradas por serem convidadas para passar o final de semana na casa de amigos milionários.

6. Pessoas que consideram que esta história de amor e uma cabana não enche barriga de ninguém.

Enfim, as situações citadas acima são as mesmas que encontramos nos romances de Jane Austen. Os personagens se movem e se articulam na busca de uma vida social mais próspera, com um maior grau de distinção. A nossa fome por status, por poder e dinheiro é a mesma que encontramos nos livros de Jane Austen. Abrir mão de uma vocação profissional para ter mais dinheiro pode ser comparado à deixar o amor em segundo plano para fazer um casamento conveniente. Os arranjos sociais que articularmos para conquistarmos bons contatos são muito semelhantes aos jogos de interesse desenvolvidos nas tramas da escritora inglesa.

Jane Austen falou sim sobre o amor, sobre seu lado doce e ingênuo. Mas acima de tudo, ela falou sobre o peso das convenções, sobre o poder das conveniências, sobre os jogos sociais e as diversas articulações que visam comumente uma vida material mais confortável e prestigiada. Falou tudo isso com um olhar dolorido.

Jane Austen escreveu sobre estes temas atemporais, usando como cenário o seu tempo e o seu país. Escolha justa e prudente. Não devemos escrever sobre aquilo que não conhecemos na prática.

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As irmãs Bennet querem conciliar o amor com uma vida próspera.

Falando em prudência, este traço merece destaque na vida literária da autora. Ela exaltou tal virtude como um meio de autopreservação e também como uma forma de evitar conflitos sociais. Acima de tudo, como um meio de manter a virtude e encontrar o amor verdadeiro.

Jane Austen foi acusada de escrever sobre dois temas que ela desconhecia: o amor e a paixão. A acusação foi feita pela também célebre escritora inglesa Charlotte Brontë. Embora o estilo de Brontë me agrade mais pelo caráter passional, discordo de seu pensamento, embora o entenda. Em um primeiro momento, a escrita de Jane Austen nos parece meio fria mesmo e muito racional, como a de alguém que conhece o amor e a paixão apenas na teoria. Ela nos propõe em “Orgulho e preconceito” um tipo de racionalização que pode soar como impossível para quem já padeceu das dores de uma paixão visceral.

Por outro lado, talvez Jane Austen, estivesse colocando em primeiro plano um tipo de amor muito bem visto atualmente: o amor próprio. Para a escritora, amar alguém emocionalmente, intelectualmente e principalmente moralmente inferior era um ultraje ao amor próprio, à dignidade, à razão.

Por meio de um personagem meio desajeitado socialmente falando, sem grande carisma, encontramos um dos ideais masculinos das mulheres contemporâneas intelectualizadas e sensíveis no sentido afetivo: Mister Darcy de “Orgulho e preconceito”. Ele não é galante nem sabe fazer uma boa piada socialmente. Mas ele é confiável, com caráter sólido e completamente irresistível num segundo olhar.

Por outro lado, Lizzy Bennet, foge ao estereótipo da mocinha bonita e ingênua. Lizzy é bonita sim, mas a aparência não é o seu grande mérito. Lizzy é inteligente , consciente , lúcida e mesmo sendo muito racional, declina de um casamento de conveniência. Ela ousa para os padrões da época, porém, sem perder a classe e a compostura.

Em resumo, os romances de Jane Austen se mostram atuais e talvez a atemporalidade de uma obra ou autor seja um dos principais critérios para entendê-lo como alguém relevante para a História cultural.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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