cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Me dê um motivo para admirar o Brasil!

Este artigo objetiva estimular uma postura mais consciente e inconformista diante da dura e caótica realidade brasileira.


Man_sitting_under_beach_umbrella.jpg

Usamos como desculpa para todas as mazelas da nossa sociedade o clima tropical , as praias bonitas e a "simpatia" do povo.

Quando estamos acostumados desde sempre a sermos desrespeitados em nossos direitos básicos e somos tratados como palhaços constantemente , fazer papel de idiota parece normal.

Estou cansada de ouvir as pessoas criticarem os partidos políticos e falarem cobras e lagartos a respeito dos nossos governantes , embora concorde com a maioria das críticas feitas. Digo que estou cansada porque a corrupção e o cinismo de nosso país vão muito além dos políticos. Somos uma sociedade corrupta. Se tivermos oportunidade , trapaceamos no troco da padaria sem o menor remorso. Pior ainda: contaremos o fato como vantagem durante uma pizza entre amigos.

Peço desculpas aos brasileiros que fogem à regra. Sim, existe gente honesta no Brasil sim. Brasileiro honesto não é folclore não. Não é lenda urbana. Eles existem e sofrem muito. Mas infelizmente , me parece , que eles não são a maioria. Alguns não chegam a ser desonestos , mas aceitam passivamente a corrupção alheia , de certa forma , se tornando coniventes. Vou mais longe. Tem gente que se cala diante de determinados esquemas porque sobreviver em um país onde ter boa formação não te garante nada, pode ser muito complicado. Enfim, alguns aceitam se corromper para sobreviver. E isso é profundamente triste. Vou mais longe ainda. Algumas vezes pessoas honestas cometem pequenas corrupções e não se sentem culpadas porque o nosso padrão moral coletivo é tão baixo , que começamos a ficar anestesiados em relação a faltas menores.

Não erramos apenas cometendo maus atos , roubando, trapaceando, mentindo, abusando do poder. Erramos também quando ficamos quietos diante de injustiças e violação de direitos. Pega mal colocar a boca no trombone em nossa cultura. Somos considerados barraqueiros e paranoicos quando denunciamos uma fraude ou irregularidade.

Muitos nos consideram cordatos. Acho que somos lenientes. Estamos tão habituados aos caos que não conseguimos acreditar que exista realmente outra forma de viver a vida em sociedade. Para nós é normal que as coisas não funcionem direito. Até fazemos piadas sobre isso.

Primeiramente , não valorizamos o mérito. Muito mais importante do que um currículo consistente é a nossa rede de contatos. Muitas empresas olham primeiro o Q.I , depois o CV. A experiência de vida e profissional não são devidamente respeitadas em nossa sociedade , que descarta profissionais com mais idade.

Priorizamos o inato; aquilo que brilha sem esforço, sem dedicação, sem trabalho sistemático. Não valorizamos pessoas e profissionais que se constroem dia a dia , ano a ano até se tornarem quem são.

Queremos tudo para ontem e ter um corpo perfeito é muito mais valioso do que um cérebro pensante. Quando falamos bem de nosso país , citamos o sol, as praias , o povo sorridente. Mas não falamos de educação, saúde, segurança pública , artes , esportes que não sejam o futebol. Falamos de alegria. Mas não falamos de credibilidade e respeito , valores menos coloridos do que a alegria , mas essenciais para vínculos duradouros.

Nos baseamos apenas em belezas naturais e aspectos superficiais da cultura. Atualmente , o nosso único mérito, uma natureza abençoada, está começando a virar as costas para nós porque também foi altamente desrespeitada. Porém, diferentemente do povo, não aguentou os abusos calada nem passiva.

A corrupção e desorganização tomam conta de todos os setores da sociedade , incluindo o meio acadêmico, o que me enche de tristeza , revolta e vergonha. Universidades públicas que deveriam ser portos-seguros de uma cultura tão maltratada como a nossa , constantemente estuprada e silenciada , se colocam como agentes de mais corrupção , incompetência e descaso. Não estou defendendo as instituições privadas até mesmo porque elas são gananciosas e só visam o lucro , transformando a educação, uma série cultural que diz respeito ao simbólico, ao imaterial em um mero produto barato.

Sim, gostaria de admirar o Brasil; ter um forte sentimento patriótico. Quem não quer amar de paixão a terra onde nasceu? Mas me orgulhar com o que? Com professores vivendo de forma miserável? Os profissionais responsáveis pela socialização das crianças e adolescentes ; os profissionais responsáveis pela profissionalização e aprofundamento intelectual de nossos jovens fazem parte do grupo dos que recebem um salário mais baixo no nosso país. Um professor primário na Alemanha ganha valor similar a um professor universitário, concursado em uma universidade pública brasileira.

Devo me orgulhar com a banalização da criminalidade? Temos medo de andar até a esquina porque em 100 metros tudo pode acontecer por aqui e o tamanho do short da vítima ainda conta como atenuante para o agressor. Com médicos que precisam acumular diversos empregos para pagar as contas enquanto cultuamos subcelebridades? Com o crescimento desordenado das grandes cidades ? Com o tráfico caótico dos grandes centros urbanos enquanto governantes recorrem a paliativos em vez de buscar soluções consistentes?

Com o nosso preconceito velado? Com a nossa xenofobia por pessoas do mesmo país? Com os impostos que viram pó? Com a precariedade dos serviços prestados? Com o nosso consumismo desenfreado? Somos turistas queridos porque compramos desesperadamente. Consumimos sem consciência, quase compulsivamente. Com a impunidade? Com um povo que se contenta em ser simpático e ter um bumbum durinho e uma barriga tanquinho? Mais uma vez , ressalto que muitos brasileiros fogem à regra , mas infelizmente não são a maioria e não têm força para estabelecer mudanças substanciais. São vozes isoladas que pregam num deserto falsamente paradisíaco.

Devo sentir orgulho pelo fato de lermos pouco ; de não nos interessarmos por assuntos mais complexos no sentido intelectual? Por não termos nossos poetas , cientistas e filósofos conhecidos no exterior? Por supervalorizarmos a juventude e a beleza? Por reforçarmos a fama que brasileiras são mulheres fáceis , dificultando a vida de boas profissionais de nosso país que querem fazer uma carreira internacional?

Ter uma boa formação cultural e intelectual no Brasil não nos garante nada. Fazer uma boa faculdade , com seriedade ; realizar um mestrado , um doutorado ; ter publicações e prêmios; nada disso garante uma boa vaga ; uma boa oportunidade no mercado de trabalho. Sem as conexões corretas nada acontece. Sem o nosso jeitinho nada flui. Mais uma vez , reitero que existem exceções à regra, mas o esquemão geral é este. Sim, temos praias bonitas e sol brilhando o ano inteiro. Não me serve de consolo. Parece-me mais uma das nossas piadas para sobreviver a uma nublada realidade.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @obvious //Sílvia Marques
Site Meter