cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O amor como religião

Este artigo objetiva estimular uma postura mais generosa em relação aos homossexuais, no que diz respeito ao direito de formar uma família , por parte dos católicos.


pingente-crucifixo-com-brilhantes.jpg

Antes de começar a minha explanação, deixo claro que sou católica praticante. Vou à igreja regularmente, comungo, dou o dízimo, faço trabalho catequético. Não me envergonho da minha fé. Falo para quem quiser ouvir a minha opção religiosa; a minha firme adesão à Jesus e minha fascinação por Nossa Senhora sob todas as formas.

Porém, me entristece profundamente, ver que a minha tão amada Igreja ainda padece de preconceitos milenares. É fato que o nosso querido Papa Francisco é uma lufada de ar fresco para o Catolicismo. Mas, ainda, precisamos caminhar muito, nos reciclar demais, aprender sobre a generosidade. Digo nós porque a Igreja não é formada unicamente por padres, bispos e cardeais. A Igreja Católica somos nós: todos aqueles que acreditam que Jesus é o filho de Deus e que morreu na cruz por amor a nós; todos aqueles que respeitam o Papa, amam Nossa Senhora e enxergam os santos como exemplos de vida. Santos não são pessoas perfeitas, que nunca erraram. Santos são pessoas que aderiram ao projeto de Jesus Cristo de forma apaixonada. Mas qual seria o projeto de Jesus?

Acredito sinceramente que nenhum ser humano, por mais crente e sábio que seja, chegue perto dos desígnios de Deus e possa entender realmente a Sua vontade. Quando o assunto é Deus, somos todos crianças tateando no escuro.

Darei aqui a minha opinião, o meu ponto de vista. Como qualquer opinião, é parcial, subjetiva e passível de equívocos. Acredito que o amor seja o ponto central da fé católica. Amor como caridade, como compaixão. Amor com a maiúsculo. Em minha opinião, de nada adianta jejuar, frequentar a comunidade, se dizer apaixonado por Cristo, se não somos capazes de aceitar, respeitar e amar as outras pessoas. Como amar a Deus, a Jesus, se sentir inundado pelo Espírito Santo e ao mesmo tempo crucificar aqueles que pensam diferente de nós, que aderiram a outras crenças, que possuem outras orientações sexuais?

Não devemos entender e aceitar tudo. Não devemos aceitar governos corruptos, empresários gananciosos, pessoas que em nome do lucro e do poder retiram a esperança e a alegria das pessoas. Não devemos aceitar que indivíduos causem danos a terceiros, usando da posição social para dominar, explorar, humilhar. Não devemos aceitar a criminalidade e qualquer tipo de atitude que desrespeite o ser humano; que o prejudique, que o oprima. Por outro lado, por que devemos julgar e condenar aqueles que acreditam em outros preceitos religiosos? Por que julgar e condenar aqueles que querem formar uma família com alguém do mesmo sexo? Não gosto muito do termo homossexual, embora o use. Prefiro o termo homoafetivo.

Dois homens ou duas mulheres que se amam e decidem compartilhar uma vida possuem uma relação que ultrapassa o sexo. Como um casal heterossexual ou heteroafetivo, existe cumplicidade, carinho, respeito entre dois homens ou mulheres que se amam. Não defendo aqui posturas promíscuas. Não defendo promiscuidade de nenhum lado. Não podemos nos esquecer de que muitas pessoas hetero também são promíscuas. Defendo aqui o direito ao amor. Acima de tudo, o direito de cada um ser o que é.

Um homem não escolhe para si desejar e se sentir emocionalmente atraído por homens. Uma mulher não opta por se apaixonar por mulheres. Ninguém opta por ser heterossexual ou homossexual. Somos ou não somos. Se um homem nasce desejando estabelecer vínculos amorosos com outro homem, que culpa ele tem? O que ele deveria fazer diante desta realidade? Suicidar-se? Casar-se com uma mulher e fazê-la profundamente infeliz? Ou simplesmente virar um celibatário, abrindo mão do direito ao amor e à sexualidade? Quem somos nós para dizer a alguém que ele ou ela não tem direito ao amor?

De que forma um casal homoafetivo prejudica, oprime, humilha um heterossexual? Por que um casal homoafetivo não pode cuidar e amar de uma criança, protegendo-a, amparando-a, oferecendo um lugar aconchegante no mundo? Um orfanato é um lar melhor, mais apropriado e afetivo para uma criança crescer?

Muitas pessoas heterossexuais, solteiras e casadas, não aceitam adotar. Mas muitos homossexuais querem. Para eles é mais simples superar o preconceito da adoção pois já estão acostumados com o preconceito; já estão acostumados a viver sob o julgamento feroz da sociedade e às vezes da própria família. Muitas vezes aceitam adotar crianças mais velhas ou com algum tipo de deficiência física ou psicológica. Crianças que a maioria dos hetero não querem adotar. Não julgo aqui a postura de quem não quer adotar. Cada um tem o direito de escolher o que deseja para a própria vida. O que questiono é o seguinte: por que impedir que crianças abandonadas e sem esperança usufruam de uma vida melhor, usufruam de uma família? Sim, família. Para mim, família é um núcleo formado por dois seres humanos que se amam e que decidiram cuidar um do outro, com carinho e respeito.

Por que depois de 2 mil anos, continuamos jogando pedras e crucificando Cristo? Quem não consegue respeitar e amar o seu semelhante, quem se prende mais às regras do que à compaixão, continua crucificando Cristo, mesmo enquanto louva o Seu Nome. Cristo está naquele que sente fome, frio, medo. Cristo está naquele que sofre, que é perseguido e humilhado. Cristo está em todo aquele que precisa de ajuda e compreensão. Quem ama as pessoas, ama a Cristo. Independente da fé de cada um ou da orientação sexual, creio que o Amor maior seja o elo que une todos nós. Quem nunca amou, atire a primeira pedra.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/sociedade// @destaque, @obvious //Sílvia Marques
Site Meter