cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O amor não tem regras : um mergulho no universo erótico do cinema

Este artigo pretende analisar como o cinema trabalha com o tema do erotismo.


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Adèle e Emma em “Azul é a cor mais quente”: uma paixão intensa que despencou nos abismos das incompatibilidades

Alguns assistem a filmes para sonhar. Outros para acordar. Digo acordar no sentido de entender e sentir melhor, com mais profundidade tudo o que diz respeito à raça humana, cheia de conflitos e paradoxos, temores e ousadia. Alguns temas me parecem particularmente essenciais à nossa reflexão permanente: a liberdade, a justiça social, a compaixão e o amor sob todas as suas formas. Uma vez, durante uma aula do ensino fundamental, uma professora nos disse que toda forma de amor valia a pena. Não entendi exatamente o que ela quis dizer, mas intuitivamente fiquei fascinada e nunca me esqueci deste pensamento. Sim, concordo com minha professora. Todo amor vale a pena. Todo amor nos ensina sobre a vida e principalmente sobre nós mesmos. Todo amor é um insight, um encontro profundo com nós mesmos. Todo amor nos humaniza.

Comentarei alguns filmes que mostraram amores anticonvencionais. Minha análise não pretende realizar nenhum tipo de julgamento moral. Quero apenas mostrar variadas formas de amor. Também não pretendo diferenciar amor de paixão. Enfim, proponho apenas um mergulho no universo erótico do cinema.

“Ensina-me a viver”, de Hal Ashby, de 1971 mostra o amor entre um garoto com uma mulher de 79 anos. Misturando drama com humor negro, o filme apresenta a ideia de que uma mulher com quase 80 anos pode entender mais sobre a alegria e a jovialidade do que um garoto. O filme , na época em que foi produzido, se tratava de uma obra de contracultura. Alcançou o patamar de cult e hoje é visto como uma boa comédia. Porém, o que me parece mais consistente no filme é a ideia de que não existem regras para amar e ser feliz. O filme conta com uma boa dose de irreverência , o que lhe concede uma deliciosa aura de liberdade.

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Ruth Gordon interpreta uma mulher extremamente intensa e irreverente no filme "Ensina-me a viver"

“Azul é a cor mais quente”, de Abdellatif Kechiche, de 2013 mergulha sem pudores e com muita sensibilidade no delicado universo de duas jovens, que descobrem a si mesmas e ao mundo por meio do amor . Embora Emma e Adèle sintam uma imediata atração, vemos gradativamente a relação se diluir. Vemos o amor de ambas despencar em câmera lenta nos abismos das incompatibilidades.

Emma é uma pintora, uma artista, uma mulher que se conhece, que mergulha dentro dela mesma. Pertencente a uma família liberal e intelectualizada, coloca a realização em primeiro lugar. Ela não tem medo de sorver a vida em goles fartos. Adèle é uma garota cheia de pontos de interrogação e lacunas. Apesar de apreciadora de livros, tende bem menos à reflexão. Ela simplesmente vive. Talvez, a sua falta de autoconhecimento a tenha conduzido a uma estranha atitude que reconfigurará sua trajetória de vida. "Azul é a cor mais quente" é um filme sobre o amor, a felicidade, as nossas escolhas e como atitudes impensadas podem mudar o nosso destino. É também uma visão realista sobre os relacionamentos afetivos: amar não é o bastante no mundo adulto.

“Secretária”, de Steven Shainberg, de 2002 é um filme bizarro sobre pessoas com gostos afetivos bem peculiares. Em um primeiro momento pode parecer apenas uma obra sobre sadomasoquismo. Embora as práticas apresentadas não sejam admiráveis ou agradáveis por natureza, é inegável que é sempre muito interessante ver tipos psicológicos que não se encaixam totalmente à sociedade; tipos transgressores, desajustados em algum sentido ou medida. Há algo de muito criativo e genuíno nos personagens que desviam; os queridinhos de um cinema mais preocupado com o mundo interior das pessoas; um cinema que foge aos clichês e entende que o Homem é um ser misterioso, complexo e paradoxal.

A trama inusitada, além de prender a atenção, coloca "Secretária" em um patamar cinematográfico mais elevado do que muitas produções previsíveis; obras que somos capazes de deduzir o final com 10 minutos de exibição. O mais interessante do filme é perceber que até mesmo as pessoas menos inseridas socialmente, com sentimentos e gostos mais exóticos, podem encontrar o amor e a cumplicidade em um mundo cada vez mais pasteurizado. Criativo, cruel, perversamente ingênuo!

"Meu amor de verão", de Pavel Pawlikowski, de 2004 mostra que amor é sempre amor. Decepção também. O filme narra o tórrido romance entre duas garotas que levam vidas bem diferentes, porém, compartilham de uma grande afinidade: são duas transgressoras. Com um clima altamente erótico e poético, às vezes, ingênuo e lúdico, "Meu amor de verão" nos faz reviver as delícias da descoberta do amor; é uma viagem vertiginosa à juventude e a um tipo de encantamento mais comum de acontecer quando estamos iniciando a vida e a sexualidade.

O filme extrapola as barreiras entre a hetero e a homossexualidade. Mais importante do que a orientação sexual das protagonistas é o amor em si, em toda a sua magnitude e estranhamento. Como disse, amor é sempre amor; é sempre bom; é sempre revelador; é sempre luminoso como dias de verão; é como sair nu na chuva sem medo de pegar uma gripe, pois os riscos parecem pequenos ou talvez, o barato esteja em correr riscos mesmo... é sempre dolorido quando uma das partes se descobre menos amada. Um delicado e provocante poema cinematográfico sobre o amor, sobre a ilusão e sobre como podemos enganar aos outros e a nós mesmos.

"Os sonhadores", de Bernardo Bertolucci, de 2004. Assistir a Bertolucci é quase sempre o mesmo que levar uma bofetada no meio da cara. O sórdido se transforma em poesia e por mais que nos sintamos bem integrados a uma série de valores, nos deixamos seduzir por seu erotismo profundo e quase ingênuo. O sexo e o incesto em Bertolucci parecem soluções paliativas contra um mundo externo perigoso e terrível.

O amor passional entre os irmãos não é uma apologia ao incesto ou a qualquer outra coisa que contraria a moral. Me parece mais um sintoma do medo da vida; do medo do mundo. Como em "Último tango em Paris", quase toda a trama decorre em um apartamento, onde os personagens se entregam a jogos e fantasias alimentadas por referências cinematográficas. Os sonhadores são cinéfilos; são dois transgressores ingênuos que pensam poder se refugiar da vida real por meio da imaginação; que pensam poder recriar o mundo por meio do cinema. Muito mais que um filme sobre o amor, o desejo e a sexualidade, "Os sonhadores" é um lembrete de como são tênues os limites entre o sonho e a realidade; uma homenagem sensível e perturbadora aos amantes da sétima arte.

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O casal de irmãos gêmeos tenta sem sucesso sublimar o amor erótico por meio do cinema e de um amigo americano.

"Matador", de 1986 é Almodóvar na veia. O bom e velho Almodóvar: Belo, brutal, cruel, direto, sem concessões ao público, sem resquício algum de um cinema hollywoodiano bem comportado. Enfim, é para quem gosta de Almodóvar em seu estilo mais tradicional...ou melhor dizendo, mais anticonvencional. "Matador" provavelmente é o mais mórbido filme do cineasta espanhol que lida magistralmente com o tema da paixão.

Nesta obra entrelaça as ideias de amor e morte, narrando o romance entre dois assassinos. Diego é um ex-toureiro que transforma a alcova em arena, assassinando mulheres. Maria é uma advogada que só consegue chegar ao orgasmo depois de matar seus parceiros. O ato de tourear é relacionado ao sexual, o que dividiu a crítica da época porque algumas pessoas consideraram um desrespeito comparar um assassino de mulheres a um toureiro (lembremos que as touradas são um grande ícone cultural da Espanha).

Com imagens duras e cores vivazes, traço típico de Almodóvar, "Matador" é uma experiência cinematográfica visceral, em que a cor vermelha nos enche os olhos. Como em outros filmes do cineasta podemos ver claramente o ser e o amar espanhol por meio dos personagens passionais, tragicômicos, obstinados e obsessivos. Almodóvar coloca uma lupa na realidade e por meio da hipérbole nos faz enxergar o mais trivial e profundo da vida. Como Buñuel e Saura, só que utilizando um estilo mais catártico e colorido nos sentidos literal e figurado, Almodóvar critica ferozmente as instituições sociais e traz à tona uma Espanha barroca e mestiça. Merece destaque a cena em que Maria e Diego finalmente marcam um encontro amoroso e todo o ato sexual é sonorizado pela música "Espérame en el cielo".

Enfim, a lista de filmes que mostram amores anticonvencionais é extensa e valeria a pena citar muitos outros como “Menina bonita”, de Louis Malle; "Atame", de Pedro Almodóvar; "Veludo azul" e "Coração selvagem", de David Lynch; "O homem do sótão", de Graeme Campbell etc.

Talvez uma das principais funções do cinema seja explorar possibilidades múltiplas que vão muito além de nosso julgamento moral. Talvez o cinema não seja moral nem imoral. Apenas amoral. Por isso mesmo, tão rico e importante para o autoconhecimento e o melhor entendimento de tudo de mais essencial que existe na realidade e na natureza humana.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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