cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O otimismo afetivo de Almodóvar: todos os caminhos levam ao amor

Este artigo objetiva comentar dois importantes filmes de Pedro Almodóvar: Atame e A pele que habito.


a-pele-que-habito.jpg

No filme A pele que habito, o diretor espanhol mergulha fundo em um universo obsessivo e extrapola a questão dos gêneros.

Não importa o que aconteça. Não importa o peso da tragédia. Em Almodóvar é sempre tempo para recomeçar, para ressurgir das cinzas como uma Fênix. Ele extrapola a questão dos gêneros e mostra que amar é sempre bom. Longe de julgamentos morais, seus personagens possuem segundas chances. Ele mergulha fundo no mundo dos marginalizados, dos viciados, das prostitutas, dos travestis e deste universo menosprezado, extrai o que há de mais suave e bonito. Mostra acima de tudo o poder da amizade e da solidariedade. Mostra que a felicidade e o amor estão aí, para serem vividos por todos.

Porém, o otimismo de Almodóvar não é ingênuo. Ele sabe revelar o quanto a vida pode ser dura, injusta e cruel e o ser humano, perverso. Neste post, falarei sobre a questão do amour fou e analisarei dois filmes que considero bastante similares, embora possuam linguagens diferentes. O primeiro é colorido. O segundo é sombrio. O primeiro é tragicômico, mais para cômico. O segundo é tragédia na veia. Porém, ambos mostram Antonio Banderas interpretando tipos desajustados e capazes de tudo para alcançar o amour fou. Nos dois, uma luz inusitada surge no final do túnel quando tudo parece perdido. Falarei sobre Atame e A pele que habito.

attache-moi.jpg

Victoria Abril na pele de Marina em Atame.

Atame é um sexy e bem-humorado filme de Almodóvar sobre o amour-fou, que fala sobre temas semelhantes ao mórbido Matador e ao assustador A pele que habito, com leveza e comicidade, sem perder de vista seu caráter passional e apaixonante. Almodóvar é um mestre em trabalhar com situações limite, com personagens hiperbólicos que amam demais, que erram demais, que desejam demais, que são ingênuos e transgressores na mesma proporção. Seu universo explode em cores, em gestos amplos e em amores desmedidos e exagerados, em uma sexualidade cinematográfica. É um verdadeiro banquete de emoções à flor da pele, onde tudo pode acontecer quando o tema é viver intensamente.

Quando Rick e Marina finalmente se relacionam sexualmente, podemos ver seus corpos por meio de um grande espelho no teto, que nos remete ao mundo voyeur do cinema, onde cada espectador passa a espreitar a intimidade alheia; onde o amor vira espetáculo, porém não no sentido hollywoodiano da palavra. Em Almodóvar o amor não é cor-de-rosa e perfeito , porém é o essencial da vida; é o que a justifica; o que a faz valer a pena, mesmo com todas as loucuras e fragilidades que os seres humanos apresentam.

O gosto pelo desvio, pelo imperfeito, o olhar sensível que lança sobre os marginalizados torna seus filmes extremamente humanos. Como em outras obras de Almodóvar as cores são vivazes e há uma interessante mescla de elementos sagrados e profanos. A mesma mulher que brinca com um vibrador usa um crucifixo, representando desta forma a Espanha barroca e mestiça, carregada de sensualidade e religiosidade ao mesmo tempo.

O filme é todo marcado por uma aura de transgressão e instabilidade, começando pelos pequenos furtos que Rick comete e nos remete à marginalidade. Para delinear seu caráter instável, nos faz mergulhar no mundo dos traficantes, dos loucos , cita romances interrompidos abruptamente, reencontros repentinos e inesperados. Duas cenas em Atame merecem destaque: a frase do cineasta veterano que considera amor e terror a mesma coisa, faces da mesma moeda. Este tema será levado às últimas consequências em A pele que habito. Outra cena célebre é quando a personagem de Victoria Abril diz Atame para o personagem de Antonio Banderas. O verbo atar não se conjuga no imperativo. Porém, no universo de Almodóvar seu pedido/ordem soará muito natural. Vibrante, afetivo, sensual, tragicômico e profundamente espanhol.

Depois de alguns filmes bem comportados, A pele que habito traz de volta o bom e velho Almodóvar de Matador, de Atame , de De salto alto, entre tantas outras obras polêmicas, catárticas e viscerais do cineasta. Por meio de um filme que mescla suspense e terror, o diretor espanhol leva às últimas consequências uma premissa já trabalhada em outras obras: o amor tem um lado aterrorizante.

a-pele-que-habito2.jpg

Amor e terror se mesclam magistralmente em A pele que habito.

Arrisco-me a dizer que A pele que habito é uma releitura apavorante de Atame, que também conta com Antonio Banderas no papel de um homem obsessivo, que não mede esforços para ficar ao lado da mulher que deseja. Porém, Atame é um filme bem mais leve, com senso de humor, um final feliz e razoavelmente convencional, sem consequências trágicas para ninguém, cheio de um erotismo bem agradável e sexy.

A pele que habito é muito mais que um thriller sobre o amor desmedido; é um questionamento sobre a própria sexualidade; sobre o ser homem e o ser mulher; sobre o que realmente somos debaixo da pele que habitamos. A pele que nos define, em muitos casos, é uma estranha para quem a possui. Esta reflexão é bem subliminar, mas possível. Outra ideia defendida pelo filme é a magnitude do desejo, do amor. Desejo é sempre desejo e amor é sempre bom independente da orientação sexual e da pele que habitamos. A vida de uma forma ou de outra sempre nos conduz ao amor e ao desejo. Tal ideia fica bem evidente no desfecho deste filme assustadoramente belo. Quando tudo parece perdido para o jovem co-protagonista, de forma subliminar, podemos deduzir um mundo de novas possibilidades se abrindo para ele , mesmo depois de uma experiência tão trágica e monstruosa.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Sílvia Marques