cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Desejo e reparação: um retrato delicadamente cruel do abismo entre classes

Este artigo pretende analisar o filme "Desejo e reparação" sob o viés narrativo e temático.


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Robbie apresenta uma frágil inserção no mundo aristocrático de Cecília.

Com uma estrutura narrativa não linear, "Desejo e reparação" mergulha no mundo de privilégios de uma classe social que não paga pelos erros que comete. Ambientado na Inglaterra dos anos 30, quatro anos antes de eclodir a II Grande Guerra, vemos um amor improvável ser abortado pelo julgamento precipitado de uma garota prodígio.

Briony, uma inteligente e imaginativa escritora de 13 anos, dá um falso testemunho convencida da culpa de Robbie, jovem jardineiro da sua família e amante de sua irmã Cecília. O mais interessante na trama é perceber o quanto são frágeis os vínculos de amizade e consideração existentes entre o jovem criado e a família que sempre o amparou. Diante do testemunho da garota, conhecida por uma imaginação fértil e portanto pouco confiável, os pais de Briony e Cecília aceitam a culpa de Robbie, lançando-o à prisão por um crime cometido por um amigo da família, aristocrata e acima das consequências de seus atos. Porém, não podemos dizer que os pais de Cecília são vilãos porque eles realmente acreditaram no testemunho de Briony e na culpa de Robbie.

O grande diferencial da trama é a ambiguidade das personagens e das próprias relações por elas estabelecidas. Robbie é vítima da sua condição social e Paul se exime da culpa por ser um aristocrata. Ninguém o cogita como possível agressor. Sua condição social o coloca acima de suspeitas e possíveis punições. Por outro lado, sem o testemunho de Briony, Robbie também não seria acusado ou punido.

Outra ambiguidade que vale a pena ressaltar é a postura de Lola diante do casamento com o seu agressor. Seu rosto parece triste e calmo no dia da cerimônia religiosa, quando deixa a igreja de braço dado com o noivo. Por um lado, podemos entender que a aristocracia acaba sublimando seus confrontos e deixando a fatura de suas faltas para os mais pobres. Por outro lado, podemos pensar que Lola é a maior vítima da mentira de Briony. Ao acusar Robbie, ela eximiu Paul de qualquer responsabilidade e o deixou livre para continuar abusando de Lola, que não pôde se defender dele. Talvez , o falso julgamento de Briony não tenha sido nefasto apenas para Robbie e Cecília. Talvez tenha sido nefasto para Lola também.

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Robbie e Cecília são separados antes mesmo de ficarem juntos.

Grandes filmes e obras literárias deixam brechas, lacunas, pontos de interrogação. E a cada vez que a apreciamos, menos respostas surgem. Ao contrário. Nos deparamos com mais e novas perguntas. As inquietações que uma obra nos desperta são um dos critérios para entendê-la como arte ou não.

De qualquer forma, provavelmente, a maior afetada da trama foi a própria Briony. O título original do filme é "Atonement" , em português , expiação. Foi assim que viveu a jovem escritora, forte candidata a uma carreira intelectual brilhante. Briony obrigou-se a uma vida dura e triste como enfermeira por alguns anos, a fim de expiar a sua culpa. E o que não pôde resolver na vida real, tentou consertar por meio do seu último livro.

Mais uma vez, a imaginação e o sonho vencem em Briony, atitude que estabelece uma relação com a própria literatura e com o cinema. O cinema mostra um mundo onírico, mas ao mesmo tempo possível. Mostra o mundo do se; um mundo que poderia existir ou ter existido. Briony repara a sua culpa por meio da sua arte pois as consequências dos seus atos na vida real permaneceram impunes.

Talvez, a maior culpa de Briony não tenha sido o seu julgamento precipitado em si, mas o porquê da sua precipitação. Mais que acreditar na culpa de Robbie, Briony quis ardentemente acreditar em sua culpa, pois ela o amava em segredo e para ela era preferível acreditar que Robbie era agressor da irmã e da prima , que simplesmente aceitar que o jovem e Cecília se amavam.

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Briony transforma seus familiares e amigos nos personagens de sua peça.

Briony além de imaginativa e intelectual, é dominadora. Podemos perceber tal aspecto da sua personalidade em algumas cenas expostas no início do filme. Briony é uma dramaturga que pretende dirigir sua peça, utilizando seus primos como atores , mesmo contra a vontade deles. Briony teme que os atores não correspondam aos seus personagens e tal medo a deixa desconfortável. Em seu quarto, quando está só, a atenção de Briony é chamada por um inseto no vidro da janela. Quando aproxima-se do mesmo, com postura de quem vai matá-lo, Briony vê sua irmã desnudando-se no jardim, diante de Robbie; imagem que a menina interpretará de forma equivocada; primeira peça falsa em seu quebra-cabeças.

Em "Desejo e reparação", muitas cenas são mostradas de forma fragmentada para apenas depois serem exibidas desde o começo, em um contexto que as explica adequadamente. A questão da fragmentação e do flashback nos remetem à própria natureza do cinema: subjetivo e parcial. E nos induzem também a entender o olhar equivocado de Briony.

Com imagens belíssimas, um elenco de peso e temas poderosos, "Desejo e reparação" é um sensível, cruel e dilacerante retrato sobre o amor, os abismos sociais e principalmente sobre a culpa, os limites da verdade e as consequências de nossos atos.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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