cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Deus da carnificina: a compaixão me parece realmente a única saída

Este artigo analisa o filme "Deus da carnificina" sob o viés da compaixão como única saída para um mundo caótico.


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Polanski tem um senso de crueldade raro, encontrado em um grupo seleto de cineastas. Ele sabe colocar o dedo bem fundo nas mazelas humanas, fazendo jorrar o pus de nossas hipocrisias, perversões, loucuras e dicotomias de todas as naturezas. "Deus da carnificina" como qualquer comédia inteligente tem um subtexto muito triste e cáustico: faz parte do DNA humano massacrar uns aos outros. Somos maus e por isso precisamos de tantas regras de boa convivência; para não pularmos na jugular de ninguém em nome das nossas ideias de paz.

Sobre o estilo do filme, Polanski já provou em outras obras que domina muito bem a linguagem cinematográfica e se em "Deus da carnificina" optou por um estilo teatral é porque talvez este fosse o único jeito ou o mais eficiente para contar a história que ele se propôs a contar.

Os personagens encerrados no apartamento proporcionam o clima claustrofóbico necessário ao desenrolar da discussão infrutífera, regada a insultos tão ácidos quanto o vômito da personagem de Kate Winslet. E por falar em teatro, o filme conta com quatro atores no mínimo excelentes que fazem o texto fluir em um crescente delicioso, entre a ironia sutil até a histeria patética.

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O filme começa intencionalmente e tensamente tranquilo ( me parece a parte mais angustiante de todo o filme), com uma raiva contida que nos remete a Buñuel e ao "Anjo exterminador". Os personagens não conseguem se retirar do apartamento nem se livrar das máscaras sociais.

A mãe do agressor finge se importar com a atitude do filho e o pai nem finge pois ser cínico já é o seu papel social. O casal do agredido também se contém, mas desde a primeira cena é possível perceber a tensão que domina a personagem de Jodie Foster.

A casa é cheia de detalhes que nos remetem ao mundo encantado da classe média. Os livros de arte de Penelope e o celular de Alan fazem uma espécie de contraponto icônico de duas realidades que convivem diariamente: de um lado, o apreço por uma cultura formalista e bem superficial. Do outro, o gosto descarado pelo ganhar dinheiro a qualquer custo. A primeira tem um véu de dignidade. A segunda é niilista mesmo. Porém, no final das contas, tudo se mostra sem saída, pelo menos num plano humano.

Não nego aqui o valor e a importância da arte e do refinamento intelectual. Porém, acredito que o interesse pelas artes não deve ser algo pró-forma. Deve ser um interesse real, não com o mero intuito de ostentar status, com o mero intuito de diferenciação social. Além disso, o refinamento intelectual deve ser combinado com uma série de valores humanísticos como a compaixão, caso contrário será uma formação estéril. Sem empatia estamos perdidos, condenados à barbárie, entregues ao mais reles maus instintos.

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O hamster abandonado pelo personagem de John C Reilly também me remeteu a Buñuel e às agressões que o ser humano inflige aos animais e a todos que são mais frágeis. Merecem destaque as tulipas amarelas que a personagem de Jodie Foster compra para receber as "visitas", um belo índice da artificialização das relações sociais e humanas que tenta nos redimir e nos definir por meio de pequenos rituais e ostentações. Os diálogos são um show à parte, ao lado dos atores são o ponto alto do filme, que nos surra com um jogo de palavras igualmente divertido e irritante.

O que mais nos irrita no filme e na vida real é o mais divertido, como por exemplo, o celular de Alan que não para de tocar ; a conversa que vai de ponto algum a nenhum lugar; a raiva contida de Penelope; o cinismo de Alan; a falsa delicadeza de Nancy e a falta de fibra de Michael que só consegue agredir a sua esposa. Ninguém é santo, ninguém merece aplausos. Até mesmo a culpabilidade integral do menino agressor é questionável. Embora nada justifique um ato de brutalidade, não se sabe ao certo o que gerou o seu gesto. É realmente uma barbárie em que ninguém está totalmente inocente , nem mesmo Penelope, que acredita sinceramente estar bem intencionada, outro elemento que merece destaque. Penelope se deixa levar por valores superficiais, mas acredita neles, não os simula, e está aí, talvez, o grande drama do filme: como podemos enganar a nós mesmos. Realista, cruel e extremamente inteligente!


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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