cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

"O exorcista" : um clássico sensorial

Este artigo comenta o filme "O exorcista" sob o viés narrativo e temático.


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O que dizer sobre um dos mais temidos filmes de terror de toda a História do Cinema? Que é aterrorizante? Que suas imagens ficam impregnadas em nossos olhos e memória por muitos dias, semanas ou talvez um pouco mais de tempo? Com mais de 40 anos de vida e a imagem envelhecida, "O exorcista" é mais do que um marco na História da filmografia de terror; é uma obra que permanece atual e extremamente assustadora depois de tantos anos e de tantos outros filmes que pretenderam aterrorizar por meio de sofisticados efeitos especiais e cenas que poderiam fazer qualquer glutão ficar 24 horas sem apetite.

Para iniciar a conversa, "O exorcista" apresenta uma boa história, que foi adaptada de um livro consistente e dramático. Por sua vez, o livro baseou-se em fatos reais. Inclusive, o autor do romance o escreveu a pedido de padres jesuítas para alertar as pessoas. Embora o filme tenha se centrado nos aspectos assustadores do livro, deixando em segundo plano o lado mais dramático e profundo da obra literária, podemos perceber nitidamente alguns conflitos bem interessantes na versão cinematográfica, como a perda da fé do padre Karras; seus dramas de consciência em relação à mãe falecida ( drama este muito bem usado pela legião demoníaca que possui Regan, uma doce menina de 12 anos).

"O exorcista" fala sobre a culpa e a expiação dos pecados do mundo, por meio dos inocentes. Fala também sobre a descoberta da fé por meio de uma provação terrível: a mãe de Regan passa a acreditar e a confiar em Deus, o que indica que o Bem sempre ganha do Mal. A fé do padre Karras se reanima e ele executa um ato de extremo amor para defender a menina possuída.

"O exorcista" também faz uma lúdica homenagem aos cinéfilos, por meio do personagem do policial que investiga a morte do cineasta, ocorrido na casa de Regan. Esta referência deve passar despercebida no meio de cenas horripilantes como o asqueroso vômito verde e a célebre virada de cabeça.

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Para os padrões da época, o filme caprichou nos efeitos visuais e contou com um elenco de peso. Apesar do tema poderoso de "O exorcista", grande parte do medo que ele ainda desperta vem mais das imagens. "O exorcista" é um filme direto, sem grandes metáforas e extremamente visual. Se em "O bebê de Rosemary" , por exemplo, tememos mais o que não vemos nem ouvimos e sim o que imaginamos e deduzimos, em "O exorcista" o que nos assusta é o que vemos mesmo. É um filme muito mais sensorial do que intelectual, diferentemente da obra-prima de Polanski. Independente da crença ou descrença de quem o assiste, é difícil ficar impassível diante desta obra que já se tornou um clássico do gênero.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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