cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O visceral universo de Jane Campion: O piano e Em carne viva

Este artigo pretende analisar dois filmes da diretora e roteirista neozelandesa Jane Campion sob o viés de um erotismo brutal e realista.


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Alguns filmes encantam pela história em si; pelos fatos vividos pelos personagens. Outros nos fascinam pela forma como os fatos são contados. "O piano" poderia ser mais uma história de amor e adultério como tantas outras. Porém, o excelente roteiro de Jane Campion vai além, nos enredando em um mundo de erotismo e mistério; submissão e revolta; insensatez e lucidez.

Como tantas outras mulheres, Ada, vivida por Holly Hunter, atravessa o oceano para fazer um casamento arranjado. Ada é muda desde os 6 anos de idade; perdeu a fala sem motivo aparente: um aspecto muito interessante do filme. Como tantas outras mulheres, ela aparentemente se submete a um mundo marcado pelo patriarcado. Só que Ada não é como todas as mulheres. Apesar de aparentemente frágil e indefesa, possui uma obstinação feroz, que beira a teimosia; é altiva, misteriosa e luta com todas as forças para recuperar a sua voz, que é o seu piano. Ada fala por meio do piano, que é abandonado na praia por seu marido, devido à dificuldade de transportá-lo. Ele lhe nega sua voz e ela lhe nega qualquer tipo de afeto físico ou emocional.

Além das belas imagens, da trilha sonora vigorosa e coerente com o filme ; além das grandes interpretações , “O piano” tem outro mérito que deve ser destacado: a aura de mistério; o que não podemos compreender totalmente, mesmo depois de assisti-lo muitas vezes. Existe algo de impenetrável em “O piano” por meio da personagem de Ada .

Para o cineasta espanhol Luis Buñuel, o que falta há maioria dos filmes é o mistério, ingrediente essencial a qualquer obra de arte. Em “O piano” não falta mistério, sondagem psicológica, personagens paradoxais e um profundo intimismo sensual transmitido não apenas pelo enredo em si; também pelos movimentos de câmera, que valorizam os rostos, os gestos e parecem acompanhar os estados de espírito dos personagens, proporcionando ao filme uma grande fluidez das imagens, muito plásticas, subjetivas; quase um raio-X do mundo interior dos personagens, principalmente o da protagonista.

Em uma cena, a câmera aproxima-se gradativamente até mergulhar no coque de Ada, como se o olhar do espectador pudesse penetrar em sua subjetividade, em seu feminino. É o ápice do voyeurismo. Não podemos nos esquecer de que as formas circulares dizem respeito às mulheres. As cores escuras dos trajes somadas ao excesso de lama do local onde a trama decorre proporciona um clima hostil ao filme, que nos remete a um mundo externo que pouco concede e a outro interior : misterioso e insondável.

Merece destaque a cena em que Ada joga-se no mar com o seu piano, por ser talvez o momento mais misterioso do filme; em que a protagonista mergulha literalmente nas possibilidades infinitas da liberdade. Uma obra densa, intimista, visualmente vigorosa e eroticamente visceral.

“Em carne viva", Jane Campion aposta num estilo mais brutal; estilo thriller , mas não um thriller qualquer. “Em carne viva” apresenta uma Meg Ryan fazendo um papel adulto, pelo menos no que diz respeito aos quesitos sensualidade e complexidade emocional.

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Meg Ryan e Mark Ruffalo, atores que atuaram em muitas comédias românticas, brilham neste filme realista sobre a paixão e o desejo.

A princípio é apenas mais um filme de suspense, que trabalha com alguns fetiches bem conhecidos, a começar pelas profissões dos protagonistas. Ela é uma professora universitária e escritora; uma intelectual; ele é um policial tatuado. O homem durão seduzirá a mulher cerebral e fria, pelo menos aparentemente, mas que se mostrará uma amante ardente entre quatro paredes. Enxergar intelectuais como amantes surpreendentes e policiais como devoradores de mulheres faz parte do imaginário de muitas pessoas. Porém, "Em carne viva" tudo não se resume a fetiche, sexo e muita violência; mergulhamos de fato no obscuro mundo das fantasias sensuais; do amor erótico; da capacidade que determinadas pessoas tem de despertar o que há de mais íntimo em nós .

Mais do que um filme sobre um psicopata que mata mulheres à procura do amor; mais do que um filme fetiche; "Em carne viva" é um poema cinematográfico sobre o próprio desejo; sobre seus detonadores; sobre sua profundidade e complexidade; sobre a misteriosa afinidade que algumas pessoas compartilham mesmo sendo praticamente desconhecidas.

Tipos solitários e estranhos circulam nesta obra de clima profundamente melancólico e assustadoramente erótico. A iluminação escura de algumas cenas, a postura blasé da protagonista, a presença de locações ligadas ao "mundo noturno" nos remetem a uma sensação de pesadelo; de invasão de qualquer coisa onírica e terrível na monótona vida cotidiana. Violento, visceral e estranhamente romântico.

Esteticamente os dois filmes têm pouco em comum. Tematicamente também. Porém, após uma leitura mais atenta , poderemos perceber que as duas obras falam sobre os mesmos temas: o insondável e os mecanismos pouco ortodoxos e brutais do desejo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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