cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O lado B do Bullying

Este artigo tem como objetivo analisar o bullying sob o viés do agressor, defendendo a ideia de que quem o pratica assiduamente necessita de tratamentos médicos urgentes.


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Cena do filme Carrie, a estranha, de 1976

Em meu tempo de menina não conhecíamos o termo bullying da mesma forma que ninguém falava de gordura trans e comia de tudo sem medo de ter um infarto. Quando estava no colégio, as crianças e adolescentes que praticavam bullying eram considerados os descolados da turma. Era um caminho para atingir a popularidade.

A gente via aqueles apelidos maldosos como uma brincadeira de mau gosto como arrotar à mesa ou falar um palavrão bem feio na frente de pessoas que não conhecemos. Bullying não chegava a ser uma transgressão. Era aceito no universo estudantil e quem se incomodasse com as “brincadeiras” era acusado de sensível demais. Era acusado de não ter senso de humor.

Hoje sabemos que o bullying é uma prática altamente nociva e criminosa. Porém, não devemos confundir brincadeiras entre amigos que fogem um pouco do controle com a ação intimidadora de alguns estudantes que tornam a vida escolar de seus colegas em algo similar ao filme Carrie , a estranha.

Existem basicamente três tipos de vítima de bullying:

1. Aqueles que nem perceberam que foram abusados psicologicamente. 2. Aqueles que entenderam, sofreram e transformaram as más experiências em algo positivo. 3. Aqueles que ficam com sequelas emocionais graves

Em casos extremos, alguns jovens recorrem ao suícidio quando se sentem muito machucados emocionalmente/fisicamente.

Mas, talvez, quando se fala em bullying o personagem mais importante não seja a vítima e sim o agressor. Quase sempre , quando leio algo sobre o tema vejo que a análise se volta para a vítima e para as consequências dos abusos. Considero esta perspectiva muito natural porque tendemos a nos importar com a parte que sofre, com a parte prejudicada.

Porém, neste post, quero jogar o foco no agressor para tentar entender melhor o que motiva uma criança ou adolescente a praticar o bullying. O que motiva alguém a torturar emocionalmente/fisicamente uma pessoa que o agressor mal conhece e que nunca lhe fez nada de mau? Tudo vira motivo para bulliyng: desde leves deficiências físicas até qualidades positivas que a maioria da classe não possui. Sim, um aluno pode sim sofrer bullying por ser muito estudioso ou muito educado ou muito talentoso para uma determinada tarefa. E quando não se tem nada para apontar no outro, inventa-se.

Se a vítima pode adquirir algum trauma a partir do bullying sofrido, quem o pratica provavelmente já padece de algum dano sério e que muitas vezes não é identificado nem pelos próprios pais.

Quem pratica bullying demonstra uma completa indiferença aos sentimentos alheios . Uma total falta de empatia em relação ao outro. Falta de empatia é um indício de transtornos antissociais como a psicopatia. Não quero dizer que todo praticante de bullying seja necessariamente um psicopata, mas algum transtorno ele apresenta em alguma medida.

Divertir-se com a humilhação alheia vai além da falta de empatia. Caímos no campo do sadismo, uma perversão que enxerga o sofrimento alheio como fonte de prazer. Isto é, sou feliz quando vejo o outro sofrer.

Crianças e adolescentes, praticantes assíduos de bullying, deveriam ser encaminhados a profissionais da área da saúde e não serem tratados e vistos como meros marginais ou garotos brincalhões como se pensava em minha época de estudante. A escola e a família deveriam unir forças e trabalhar em conjunto para que estes jovens adoecidos tenham a esperança de se tornarem pessoas melhores e mais bem inseridas socialmente.

Não se sabe ao certo o que gera o comportamento antissocial. Alguns adeptos da prática do bullying vem de famílias caóticas, desestruturadas. Muitos sofreram agressões e abusos dentro de casa e repetem na escola o que viveram e sofreram em casa.

Outros pertencem a famílias pseudo estruturadas, aparentemente tranquilas, mas que provavelmente fomentam preconceitos e não lidam bem com as diferenças. Se em casa os pais fazem piadas racistas, por exemplo, provavelmente o filho vai ironizar na escola crianças que pertençam às etnias ironizadas e criticadas pelos pais. Ninguém nasce preconceituoso. Nós nos tornamos preconceituosos de acordo com as experiências, ensinamentos e exemplos que recebemos. Sim, muitas vezes, de forma inconsciente, é a elegante mãe e o bem sucedido pai que ensinam por meio de exemplos seus filhos a odiar quem tem outra religião ou outra cor de pele.

Independente da parcela de culpa dos pais no comportamento antissocial do filho, é dever dos mesmos buscar um tratamento médico que possa ajudar a criança ou o adolescente em questão a se conhecer melhor e a entender o porquê destes impulsos destrutivos. Pode soar estranho, mas quando falamos de bullying a maior vítima é o valentão mesmo. Vítima dele mesmo. O agredido tem a chance de se afastar do ambiente nocivo e reorganizar a sua vida, com a ajuda da família, dos amigos e em casos mais graves , de uma boa terapia. O praticante de bullying levará com ele para onde ele for a falta de empatia e o desejo de destruir quem quer que seja.

A criança maldosa de hoje pode ser o criminoso de amanhã. A criança maldosa de hoje pode ser o pai ou mãe negligente e abusivo de amanhã. A criança maldosa de hoje pode ser o adulto de amanhã incapaz de estabelecer vínculos verdadeiros de amor e de amizade com outras pessoas, levando-o a casamentos traumáticos, relações pessoais marcadas pela dominação e em casos mais extremos, falta de interesse real pelos próprios filhos. E alguém incapaz de amar verdadeiramente e se relacionar harmoniosamente com as outras pessoas, além de fazer inúmeras vítimas no decorrer da vida, não me parece alguém realmente feliz.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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