cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

O lado B do Bullying

Este artigo tem como objetivo analisar o bullying sob o viés do agressor, defendendo a ideia de que quem o pratica assiduamente necessita de tratamentos médicos urgentes.


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Cena do filme Carrie, a estranha, de 1976

Em meu tempo de menina não conhecíamos o termo bullying da mesma forma que ninguém falava de gordura trans e comia de tudo sem medo de ter um infarto. Quando estava no colégio, as crianças e adolescentes que praticavam bullying eram considerados os descolados da turma. Era um caminho para atingir a popularidade.

A gente via aqueles apelidos maldosos como uma brincadeira de mau gosto como arrotar à mesa ou falar um palavrão bem feio na frente de pessoas que não conhecemos. Bullying não chegava a ser uma transgressão. Era aceito no universo estudantil e quem se incomodasse com as “brincadeiras” era acusado de sensível demais. Era acusado de não ter senso de humor.

Hoje sabemos que o bullying é uma prática altamente nociva e criminosa. Porém, não devemos confundir brincadeiras entre amigos que fogem um pouco do controle com a ação intimidadora de alguns estudantes que tornam a vida escolar de seus colegas em algo similar ao filme Carrie , a estranha.

Existem basicamente três tipos de vítima de bullying:

1. Aqueles que nem perceberam que foram abusados psicologicamente. 2. Aqueles que entenderam, sofreram e transformaram as más experiências em algo positivo. 3. Aqueles que ficam com sequelas emocionais graves

Em casos extremos, alguns jovens recorrem ao suícidio quando se sentem muito machucados emocionalmente/fisicamente.

Mas, talvez, quando se fala em bullying o personagem mais importante não seja a vítima e sim o agressor. Quase sempre , quando leio algo sobre o tema vejo que a análise se volta para a vítima e para as consequências dos abusos. Considero esta perspectiva muito natural porque tendemos a nos importar com a parte que sofre, com a parte prejudicada.

Porém, neste post, quero jogar o foco no agressor para tentar entender melhor o que motiva uma criança ou adolescente a praticar o bullying. O que motiva alguém a torturar emocionalmente/fisicamente uma pessoa que o agressor mal conhece e que nunca lhe fez nada de mau? Tudo vira motivo para bulliyng: desde leves deficiências físicas até qualidades positivas que a maioria da classe não possui. Sim, um aluno pode sim sofrer bullying por ser muito estudioso ou muito educado ou muito talentoso para uma determinada tarefa. E quando não se tem nada para apontar no outro, inventa-se.

Se a vítima pode adquirir algum trauma a partir do bullying sofrido, quem o pratica provavelmente já padece de algum dano sério e que muitas vezes não é identificado nem pelos próprios pais.

Quem pratica bullying demonstra uma completa indiferença aos sentimentos alheios . Uma total falta de empatia em relação ao outro. Falta de empatia é um indício de transtornos antissociais como a psicopatia. Não quero dizer que todo praticante de bullying seja necessariamente um psicopata, mas algum transtorno ele apresenta em alguma medida.

Divertir-se com a humilhação alheia vai além da falta de empatia. Caímos no campo do sadismo, uma perversão que enxerga o sofrimento alheio como fonte de prazer. Isto é, sou feliz quando vejo o outro sofrer.

Crianças e adolescentes, praticantes assíduos de bullying, deveriam ser encaminhados a profissionais da área da saúde e não serem tratados e vistos como meros marginais ou garotos brincalhões como se pensava em minha época de estudante. A escola e a família deveriam unir forças e trabalhar em conjunto para que estes jovens adoecidos tenham a esperança de se tornarem pessoas melhores e mais bem inseridas socialmente.

Não se sabe ao certo o que gera o comportamento antissocial. Alguns adeptos da prática do bullying vem de famílias caóticas, desestruturadas. Muitos sofreram agressões e abusos dentro de casa e repetem na escola o que viveram e sofreram em casa.

Outros pertencem a famílias pseudo estruturadas, aparentemente tranquilas, mas que provavelmente fomentam preconceitos e não lidam bem com as diferenças. Se em casa os pais fazem piadas racistas, por exemplo, provavelmente o filho vai ironizar na escola crianças que pertençam às etnias ironizadas e criticadas pelos pais. Ninguém nasce preconceituoso. Nós nos tornamos preconceituosos de acordo com as experiências, ensinamentos e exemplos que recebemos. Sim, muitas vezes, de forma inconsciente, é a elegante mãe e o bem sucedido pai que ensinam por meio de exemplos seus filhos a odiar quem tem outra religião ou outra cor de pele.

Independente da parcela de culpa dos pais no comportamento antissocial do filho, é dever dos mesmos buscar um tratamento médico que possa ajudar a criança ou o adolescente em questão a se conhecer melhor e a entender o porquê destes impulsos destrutivos. Pode soar estranho, mas quando falamos de bullying a maior vítima é o valentão mesmo. Vítima dele mesmo. O agredido tem a chance de se afastar do ambiente nocivo e reorganizar a sua vida, com a ajuda da família, dos amigos e em casos mais graves , de uma boa terapia. O praticante de bullying levará com ele para onde ele for a falta de empatia e o desejo de destruir quem quer que seja.

A criança maldosa de hoje pode ser o criminoso de amanhã. A criança maldosa de hoje pode ser o pai ou mãe negligente e abusivo de amanhã. A criança maldosa de hoje pode ser o adulto de amanhã incapaz de estabelecer vínculos verdadeiros de amor e de amizade com outras pessoas, levando-o a casamentos traumáticos, relações pessoais marcadas pela dominação e em casos mais extremos, falta de interesse real pelos próprios filhos. E alguém incapaz de amar verdadeiramente e se relacionar harmoniosamente com as outras pessoas, além de fazer inúmeras vítimas no decorrer da vida, não me parece alguém realmente feliz.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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