cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O luto após o amor

Dedico este artigo aos familiares e amigos das pessoas que estão sofrendo por amor.


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Há muito tempo assistindo ao programa Café Filosófico, vi uma entrevista concedida por um psiquiatra. Ele falou sobre a importância de viver o luto. E entende-se por luto não apenas a morte física de um ente querido. O luto acontece depois de cada perda significativa. Pode ser o fim de um casamento, de um namoro ou a perda de um emprego. Vou mais além: quando vemos um sonho alimentado e acalentado com carinho desmanchar-se diante dos nossos olhos, vivemos sim um luto terrível.

Socialmente falando, as pessoas consideram menos importante o luto amoroso. Ok. Dói. Machuca. Mas nada que um dia cheio de trabalho e uma cervejinha depois do expediente não resolvam. Nada que uma boa tarde no salão de beleza não recomponha. Nada que umas comprinhas ou um final de semana divertido na praia não consertem. Não. Não é bem assim. Obviamente que fazer atividades relaxantes e prazerosas ajuda. Porém, acreditar que coisas banais superarão a crise do dia para a noite pode ser um pensamento bem equivocado.

Como li num outro texto recentemente, quando há afeto, há dor. Não há como perder alguém que se ama e ficar normal pois se tomou uma cerveja e se ouviu uma piada engraçada. Uma blusa nova também não resolverá a questão. Nem um novo corte de cabelo. O apoio dos familiares e amigos é essencial para que a pessoa em luto se reconstrua. Saber que um ente querido vive , anda , trabalha , conversa e se relaciona com outras pessoas , mas você já não tem mais acesso a ele pode ser uma das dores mais lancinantes.

Durante o processo de reconstrução a pessoa terá que aprender a lidar com os altos e baixos num mesmo dia, numa mesma tarde, no período de duas horas. Em duas horas, é possível se sentir mais ou menos, depois péssimo, depois novamente mais ou menos inúmeras vezes. Dependendo do tempo da relação e da profundidade dos vínculos, a pessoa em luto extrapola os níveis normais e aceitáveis de tristeza e entra num quadro depressivo. E depressão se resolve com terapia e medicamentos. Sofrer por amor não é frescura . Não é coisa de adolescente.

Dependendo do nível da depressão a pessoa fica com a capacidade cognitiva prejudicada e precisa se afastar do trabalho, mesmo que a profissão seja prazerosa e realizadora. A pessoa em luto precisa se redescobrir, se reconstruir , jogar valores fora, adotar outros e principalmente se acostumar com a perda. Conseguir viver e sorrir e ser produtivo mesmo com a perda. Na teoria é tudo muito bonito e razoavelmente linear. Na prática, pode ser a mais dolorosa viagem dentro de nós mesmos.

Este texto eu dedico muito mais aos familiares e amigos das pessoas em luto do que às pessoas em luto pois tudo que aqui escrevi não é novidade para elas. Mas muitas vezes pessoas próximas podem encontrar dificuldade para entender e lidar com a situação. Cada caso é um caso. Mas algumas condutas são benéficas para quase todo mundo. Seja paciente, evite fazer cobranças e ofereça palavras positivas. Na falta de boas e convincentes palavras, não diga nada. Não desmereça a dor do seu ente. Não diga que existe gente no mundo sofrendo muito mais. Cada dor é única e deve ser tratada com o devido respeito. Não tem o que dizer, dê um abraço. Muitas vezes um abraço carinhoso e energético pode ser muito mais valioso do que palavras vazias. Se a pessoa simplesmente quiser falar e desabafar, escute-a sem se importar com as milhares de bobagens que ela irá falar. Escute-a sem julgá-la. Escute-a com afeto. Não tente mudar seus valores durante um momento de crise. Passada a crise, a pessoa estará pronta para rever seus valores, reavaliar as suas escolhas, procurar uma terapia.

Quando um ente querido adoece, a família adoece junto. Independente de ser uma doença física ou psicológica, as pessoas que amam e convivem com alguém adoecido são drasticamente afetadas, muitas vezes precisando recorrer a ajuda médica também ou buscando estratégias de relaxamento, autoconhecimento e aprofundamento emocional/espiritual.

Ontem, li um texto indicado por uma amiga que muito me impressionou. Para os orientais, doenças psicológicas são oportunidades de cura, são oportunidades para seus portadores se tornarem curadores. Acho realmente complicado as pessoas sensíveis não deprimirem em um mundo onde tudo se torna descartável, incluindo as pessoas e as relações.

Precisamos aprender a nos fortalecer para a epidemia de insensibilidade que assola o mundo. Se não podemos exterminar os vírus e as bactérias, precisamos fortalecer o nosso organismo contra elas. O mesmo devemos fazer em relação ao nosso emocional. Se não podemos evitar pessoas que desrespeitam a sensibilidade alheia, podemos ao menos nos preparar psicologicamente para os seus efeitos nefastos, minimizando seus estragos.

Em uma Era onde o individualismo é palavra de ordem e os casais abandonam seus relacionamentos quando eles deixam de ser cool , mantendo tudo no nível da epiderme, pessoas sensíveis que acreditam no nós, devem se fortalecer para enfrentar as inúmeras batalhas que necessitarão travar no decorrer da vida.

Alguns nunca chegarão a se casar, mesmo desejando. Outros se casam, mas vivem como solteiros, no esquema cada um por si e Deus por todos, em relações desprovidas de diálogo, companheirismo, onde problemas são jogados para debaixo do tapete porque encará-los é doloroso demais. Sim, precisamos encarar nossos cadáveres, velar e sepultar nossas perdas, chorar e se indignar. Sinto-me como o bom selvagem de "Admirável mundo novo". Para quem não leu o livro profético de Aldous Huxley fica a dica.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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