cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Pessoas que compram afetos

Este artigo defende que o que existe de mais valioso no mundo são as pessoas e as relações que estabelecemos com elas. Infelizmente, muitas pessoas acreditam que um presente material pode substituir gestos sinceros de afeto e empatia e valoram tudo pela questão financeira.


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Para muitas pessoas o mais importante da vida é a boa integração com os outros

Infelizmente, em nossa sociedade, muitas pessoas medeiam suas relações pelo dinheiro. Tentam se desculpar das gafes e grosserias cometidas com presentes; pais sem tempo para ficar com os filhos tentam “compensar” a ausência com brinquedos e eletrônicos; maridos indiferentes às suas esposas dissimulam algum interesse por meio de uma vida material confortável. Se pago todas as contas da casa e ainda dou alguns mimos, estou demonstrando amor. Será mesmo? Não estou aqui desmerecendo a tranquilidade e o conforto material proporcionado por um marido responsável pelo sustento da casa nem estou dizendo que dar presentes seja algo negativo. Quem não gosta de ganhar qualquer coisa fora de hora? Quando alguém nos presenteia, em princípio, nos sentimos lembrados, queridos.

Porém, mais do que o ato em si, conta muito a intenção. Por exemplo, passo por uma vitrine e vejo um livro que é cara de uma grande amiga e resolvo comprá-lo. Ok. Provavelmente ela ficará muito feliz com o meu impulso. Por outro lado, se cometo uma gafe grave com uma amiga, digo ou faço algo realmente ofensivo, o que devo fazer depois? Passar em uma floricultura ou em uma outra loja qualquer e comprar uma lembrancinha ou chegar para a pessoa ofendida por mim e pedir desculpas?

Presentes são gestos de lembrança e carinho sim! Mas presentes não compensam a ausência, a frieza, o desinteresse, a incapacidade de demonstrar afeto com atitudes e palavras. Não devemos comprar o perdão do outro com um arranjo de flores, uma caixa de bombons e até mesmo com um presente mais caro como uma joia ou um carro. E acima de tudo: presentes precisam ser dados com o coração. Muitas vezes, vale mais uma lembrancinha singela do que um presente mais sofisticado que nada nos significa. Sentimos quando alguém nos dá algo de coração. Sentimos quando aquele presente fora de hora não é um paliativo para uma falta cometida, uma maneira desajeitada de se desculpar ou dissimular interesse e amor.

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Presentes precisam ser espontâneos e não paliativos para compensar grosserias e negligência afetiva

Um presente dado com carinho, por amor ou amizade é um beijo na alma; é um abraço demorado e aconchegante; é uma comunhão com o outro. Um presente dado para “compensar” uma falta é praticamente uma segunda ofensa. É uma forma de reforçar a agressão porque o ofensor, sem palavras, está dizendo que pode comprar o perdão do outro com um objeto. Não digo que tal processo seja consciente, com clara intenção de ofender. Muito pelo contrário. Muita gente pensa sim que um presente ou favor material pode compensar tudo. Vamos a alguns exemplos?

1. Não cobra um objeto emprestado por medo de parecer “pobre”. Quando a pessoa devolve, em vez de agradecer, diz algo do gênero: “Nossa! Eu já tinha me esquecido deste casaco!”. Detalhe: o casaco foi emprestado dois dias antes. Enfim, a pessoa quer mostrar que um casaco não lhe faz falta porque ela tem muitos outros.

2. Uma pessoa sempre paga a conta do restaurante sozinha, mas em compensação, ela escolhe onde almoçar, em qual mesa sentar, qual vinho pedir. Entendem o que quero dizer? Ela é a dona da bola. Ela compra o direito de tomar as decisões. Como ela paga, tudo acontece na hora e do jeito que ela quer. Por outro lado, não podemos confundir uma pessoa materialmente possessiva com uma pessoa generosa. Em muitos casos, um amigo, parente, colega, namorado/namorada paga a conta sozinho porque realmente sabe que não temos condições para ajudar. Mas nem por isso impõe a sua vontade o tempo todo.

3. Um amigo, parente, colega, namorado/namorada não diz nada construtivo durante um passeio ou uma jornada de trabalho. Enfim, só te enche o saco com comentários bobos e de repente aparece com um copo de café ou um bombom para te dar.

4. Pessoas que ostentam o que compraram, transformando em assunto principal de um almoço ou jantar um eletrodoméstico que comprou ou uma joia que ganhou.

5. Pessoas que desmerecem as conquistas materiais alheias. Se um amigo comprou um sofá novo, ela precisa comprar um sofá e uma poltrona. Se um parente diz que vai mudar para um apartamento 50 metros maior, a pessoa diz que tem planos de comprar um com 100 metros a mais, mesmo que não tenha interesse real ou condições para tal.

6. Pessoas que desmerecem os objetos que um amigo, parente ou colega tem, ressaltando pontos negativos para depreciar o gosto e as escolhas alheias.

Enfim, uma pessoa que medeia as relações pelo dinheiro e valora as pessoas e a si mesmo pelas conquistas materiais desconhece o valor das pequenas delicadezas cotidianas, o poder da boa educação e da gentileza. Vale ressaltar que educação não é o mesmo que etiqueta social. Alguém pode apoiar os cotovelos na mesma e ser uma pessoa extremamente gentil, pois faz as pessoas ao redor se sentirem bem, sabendo ouvi-las com respeito, considerando o seu valor . Alguém que valora o mundo pelo dinheiro, desconhece a importância do simbólico, do imaterial, como o brilho de um olhar, a beleza de um sorriso espontâneo, o prazer de um abraço carinhoso, a alegria de caminhar pelo mundo como uma criança que acumula experiências, memórias e afetos que não podem ser comprados.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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