cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Revolutionary Road: o caminho sem volta daqueles que ousam sonhar

Este artigo objetiva analisar o livro "Revolutionary Road" ( traduzido para o Brasil como "Foi Apenas um Sonho") de Richard Yates.


4148movie1.jpg

Sonhar todos sonham. Acreditar que sonhos podem se tornar realidade é outra bem diferente. Revolutionary road , livro de Richard Yates, adaptado para o cinema por Sam Mendes em 2008, traduzido para o português como Foi apenas um sonho, título mais meloso e menos instigante, discorda do dito popular que afirma “Sonhar não custa nada”. Sim, custa sim. Custa muito quando quem sonha acredita que pode realizar seu sonho e fracassa por causa de terceiros.

A obra de Yates foi lançada em 1961 e retrata um casal estadunidense dos anos 1950, aparentemente feliz. Jovens, atraentes, moradores de uma confortável casa no subúrbio, pais de duas crianças saudáveis. Aparentemente tudo certo. Eles transmitem a ideia de serem especiais. Sim. São mais charmosos e espirituosos do que seus vizinhos tediosos e conformistas. Mas o que lhes confere brilho e a aura de superioridade é justamente o que os frustrará, é justamente o que os fará fugir para a estrada revolucionária. E fugir da estrada tradicional, do caminho trilhado anteriormente por todos os outros pode ser extremamente perigoso. A ousadia normalmente é paga com uma dose cavalar de sofrimento, pois vivemos em um mundo em que as coisas não acontecem por um simples fato: elas não acontecem porque nós impedimos que elas aconteçam.

Kate-Winsletet-DiCaprio-kiserte-az-oltarhoz_4fdb797b2690aa3e4f02a7c1da94413e.jpg

O medo do novo e do fracasso nos paralisa a ponto de optarmos por uma vida medíocre e sem sentido, mas que nos é familiar. Revolutionary road é uma obra visceral, extremamente crítica e perturbadora, que mergulha no lado B da vida em sociedade e da instituição familiar, destrinchando obscuridades e problemáticas que preferimos ocultar por serem muito dolorosas e complexas.

Quando Frank e April se conhecem, eles se apaixonam quase que imediatamente pois um reconhece no outro o potencial de mudança, o gosto por uma vida espontânea e pulsante, livre de determinadas regrinhas bobas e receitas prontas de felicidade. Ela é uma estudante de teatro. Ele ainda não sabe o que quer, mas deseja regressar a Paris. Frank debocha dos empregos humildes que consegue e tal lucidez faz com que April o considere a pessoa mais interessante do mundo.

Revolutionary-Road-kate-winslet-22041801-921-557.jpg

Eles se casam, tem dois filhos e o rapaz cheio de sonhos se conforma em trabalhar na empresa onde o pai trabalhou a vida toda. Enfim, tudo aquilo que ele mais ironizou e desprezou acontece a ele. Por outro lado, April não consegue fazer uma carreira como atriz e viver como dona de casa não lhe basta. Ambos estão frustrados com as próprias vidas, mas April se revolta mais. Ela se insere com mais dificuldade no contexto social.

gal_dicaprio1.jpg

Até que surge a grande sacada de April: largar tudo para recomeçar a vida em Paris. A vida volta a fazer sentido para ambos embora todas as pessoas ao redor considerem a ideia pouco viável. Viver na mesmice parece o normal. Quando tudo parece decolar e ganhar um sentido mais amplo, April se descobre grávida, o que muda os planos do casal. Talvez, este seja o aspecto do romance que menos me agrade. Frank tem um motivo real para desistir do sonho e continuar na empresa onde trabalha. Seria, talvez, mais interessante se Frank desistisse pelo simples medo de começar algo novo. Talvez, ele devesse ter desistido pela simples vaidade de ter conquistado uma promoção na empresa onde trabalhava.

Todos os dias as pessoas atiram pela janela a possibilidade de viver algo novo por medo do fracasso e vivem vidas que nem deveriam ser denominadas como tal.

Revolutionary-Road-revolutionary-road-31305455-1680-945.jpg

Provavelmente, a personagem mais interessante do livro seja John Givings , o professor de Matemática considerado louco pela sociedade e submetido a tratamentos de choque. Ele é o único que consegue ver o que April enxerga. Ele é quase um alter ego da protagonista que gradativamente vai perdendo cada uma de suas máscaras sociais como uma cebola que vai perdendo cada uma de suas camadas até atingirmos o seu cerne.

7326049e68117fcfcc1fe7edf0816da0fbb99986716e894dd8e6cabee7455f84_large.jpg

A obra de Yates analisa profundamente diversos temas vitais, que deveriam ser debatidos constantemente e com mais clareza e menos hipocrisia: o papel do homem diante dos novos papeis da mulher, suas fragilidades, seu desejo de autoafirmação, seu medo diante de certezas questionadas. A obra fala também sobre a incomunicabilidade, a enorme dificuldade de fugirmos àquilo que foi reservado a nós e os tênues limites entre loucura e lucidez.

Em uma visão mais moralista e direta, diríamos sem sombras de dúvida que April é louca. Mas no fundo de nossos corações e apartados de qualquer julgamento ético e desconectados de qualquer sentimento imposto à nós, talvez sejamos capazes de perceber que April tinha o seu quinhão de verdade. Suportamos o insuportável: uma vida sem significado, em que somos impedidos de sermos nós mesmos, onde nossos sonhos mais essenciais são considerados utopias, onde nossas vocações precisam ser sufocadas. Somos obrigados a viver um personagem patético por toda a vida.

Revolutionary Road_01.jpg

Minhas palavras podem soar como dramáticas demais, mas para quem nasceu com as marcas com que nasci, tudo o que escrevo faz sentido: nasci vocacionada para a arte mas sem acesso aos meios de divulgação da mesma pois não tenho amigos ou familiares influentes. Nasci empática em um mundo indiferente. Nasci faminta de amor em um mundo em que os lemas são a fila anda e a catraca gira. Não concordo com a atitude de April. Mas, eu a entendo. Sim, eu realmente entendo April. Ela se recusou a uma vida de mentira.

revolutionary-road.jpg


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Sílvia Marques
Site Meter