cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Sabores e personalidades

Este artigo objetiva fazer uma homenagem aos amantes da boa mesa.


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Sou apaixonada por gastronomia. Adoro comer bem e cozinhar. Em minha opinião, quando cozinhamos para alguém, oferecemos um pouco do nosso coração, dos nossos sentimentos. Acredito no pensamento de Tita do filme Como água para chocolate. O ingrediente secreto das melhores receitas é fazê-las com amor.

Acredito na cozinha como um laboratório de experimentos malucos. Um ateliê de arte ultra pessoal. Raramente sigo alguma receita à risca. Me arrisco a errar. Quando nos arriscamos ao pior podemos nos deparar com o melhor. Brinco na gangorra desgovernada dos pratos com final feliz e dos outros desastrosos. Para mim não há nada mais desastroso ou trágico do que o lugar comum. Salada de alface e peito de frango sem tempero, sem gosto de nada. Molho lavado, sem tempo suficiente para apurar. Nem ruim. Nem bom. Quero gritar e chorar!

Comer para mim é muito mais do que repor vitaminas, proteínas e mais uma série de nutrientes essenciais à manutenção da vida. Comer para mim é uma fonte de prazer, de aconchego, de alegria. Compartilhar uma refeição é um sinal de comunhão. Dividir um sanduíche ou uma fatia de bolo com quem não levou nada para beliscar durante um passeio é para mim uma das cenas mais tocantes vivenciadas pela raça humana.

Como catequista, uma das coisas que mais me apetece na vida comunitária é o momento de confraternização do lanche. Depois dos encontros catequéticos, nos reunimos para comer bolo, pão de queijo e junto com os alimentos digerimos o mais essencial dos nutrientes: a comunhão. Cada um leva um prato, cada um se dispõe a dar o seu melhor para que todos possam se satisfazer. Para que todos possam se alimentar. Para que todos possam se sentir aconchegados, integrados. Comer é coisa séria. Comer junto é um caso de amor. Fortalece laços, aprofunda a intimidade. Comer em família é sagrado e pode ser o segredo de alguns amores felizes.

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Como toda apaixonada por qualquer tema, amo fazer associações malucas entre sabores e personalidades. Não curto muito os sabores azedos. Ok. Amo sucos cítricos e um molho de tomate bem azedinho. Picles também me parecem ótimos, mas se comidos com moderação. Mas não curto doces feitos com frutas azedas como limão e maracujá. Não gosto da combinação entre doce e azedo. Não gosto de vinagre ou limão na salada. Vinagre no tempero do bife nem pensar! Também não curto pessoas azedas, amores azedos. Prefiro os amargos. Tanto as comidas como as pessoas. Gosto de cerveja, de chocolate meio amargo, uma boa xícara de café. Vejo uma diferença essencial entre uma pessoa azeda e outra amarga.

Acho que as pessoas se tornam amargas. Por outro lado, as pessoas nascem azedas. O excesso de experiências negativas mal processadas pode tornar alguém amargo. O azedo já me parece algo nato. Nasce-se azedo ou não. O azedo pode ter uma vida bem organizada e mesmo assim ser azedo. É o temperamento da pessoa, como ser tímido ou extrovertido. Azedo é naturalmente cáustico. Amargo pode ser bem denso e sedutor. Azedo é simplesmente um chato.

Gosto de doces. Mas nada excessivamente doce. Tanto as comidas como as pessoas. Doce é gostoso. Doce deixa a gente mais feliz. Recupera as nossas energias. Nos consola depois de um dia triste. Doce nos pega em seus braços. Doces propriamente ditos e pessoas com gosto de calda de chocolate quente ou bananada caseira. Mas doce com excesso de açúcar e pessoa com mel demais pode enjoar. Neste sentido, adoro pessoas e doces que tem uma pitada de amargo. O amargo corta um pouco do doce e o doce suaviza o amargo. Pessoas doces, mas que sofreram muito na vida, costumam ser profundas e deliciosas como um bom bolo de chocolate meio amargo ou uma torta gelada de café. Pessoas doces e amargas podem ser inspiradoras como um café fumegante com um pouco de açúcar ao fundo. Pessoas doces e amargas me fazem pensar nos amores da juventude. Abraçá-las é atirar-se de cara numa panela de brigadeiro macio e morno e devorar a guloseima sem culpa.

Quando penso em sal, penso em batatinhas fritas, um bom churrasco e em gente que dá sabor à vida. Penso em gente que se torna indispensável com pouco tempo de convivência. Gente que nos tira da zona de conforto e nos faz lutar na linha de frente da vida. Penso em gente que faz a diferença. Gente estilosa, que nos sacia. Gente que cai bem com uma boa cervejinha. Mas se tiver sal demais nas fritas, na carne ou nas pessoas, o estômago pode se revoltar e a pressão subir.

Quando penso no ardido, penso no sabor irreverente da mostarda de destacando entre os outros temperos da salada, no paradoxo que existe nas asinhas de frango ultra apimentadas e banhadas em mel. O que queima, machuca e incomoda, nos enche de um prazer sensual e inenarrável. As lágrimas escorrem pelo rosto durante o ápice do prazer. Pessoas ardidas são intensas, passionais, batem com uma mão, acarinham com a outra. Não concedem. São insuportáveis e lindas. Nos fazem descobrir o mais belo e horrendo em nós. São reveladoras. E você? Quais sabores e personalidades te apetecem?


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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