cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Toda convenção é boa?

Este artigo pretende analisar convenções sociais que não ajudam a regular a vida em sociedade; apenas servem como ferramentas de opressão e discriminação.


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Ás vezes, precisamos relaxar e aproveitar a vida.

Convencionar. Combinar. Ajustar. Estipular. Toda convenção é uma combinação. É um acerto entre duas partes. Convencionou-se que algumas cores são elegantes, que magreza excessiva é bonito, que ganhar muito dinheiro é sinal de inteligência, que colocar os cotovelos na mesa é mal educado.

A cada estação muda-se o padrão dos tecidos e as listras verticais super na moda cedem lugar para as listras horizontais, fazendo com que abramos mão de roupas ainda novas porque já estão fora de moda. E estar fora de moda é pecado mortal em nossa sociedade. Convencionou-se que quando alguém pergunta “Tudo bem?” é para responder apenas tudo bem. Em resumo: quem pergunta não quer saber a resposta, mas a faz porque convencionou-se ser educado perguntar. Estes temas seriam engraçados se não fossem levados a sério por grande parte da população. O nosso pensamento está impregnado pelo senso comum. Repetimos uma série de clichês e mesmices, sem parar para pensar no porquê de cada uma delas. Sem pensar se elas nos tornam mais felizes. Sem pensar se elas nos tornam pessoas melhores. Consideramos verdades inquestionáveis regrinhas sociais que nem ao menos sabemos por que e por quem foram inventadas. Em um país tropical como o nosso, homens e mulheres usam roupas inadequadas para trabalhar, dependendo do setor onde atuam. Quem convencionou que a idoneidade e a competência de um profissional são medidas pela marca da bolsa, o tamanho do salto do sapato ou o modelo da roupa? Não estou sugerindo que trabalhemos sujos, rasgados, esfarrapados. Mas por que algumas funções e empresas exigem roupa social? Muita gente ganha muito mal, mas precisa gastar boa parte do salário investindo num figurino suficiente para evitar repetições de roupa.

Quem convencionou que um vestido longo tomara que caia é mais “indecente” ( detesto este termo RS) do que uma calça extremamente justa? Mostrar o colo é indecente, mas vestir calças apertadas é aceitável? Quem convencionou que cabelos lisos são mais bonitos do que os crespos? Todo conceito de beleza é cultural, portanto, convencionado e passível de mudanças. Por que precisa existir um tipo mais adequado de cabelo? Para forçar a todos que não possuem este tipo a recorrer a tratamentos e gastar dinheiro com isso? Por que comemos comidas gordurosas no Natal em pleno verão? Não seria melhor um menu mais leve? Importamos um cardápio europeu desconsiderando nossas condições climáticas.

Convencionou-se que colocar os cotovelos sobre a mesa é deselegante. De que modo os cotovelos sobre a mesa atrapalham a boa refeição dos demais? Cotovelos sobre a mesa provocam mau cheiro? Cotovelos sobre a mesa agridem as pessoas? Cotovelos sobre a mesa são anti-higiênicos? Eu entendo que falar de boca cheia, conversar sobre assuntos asquerosos que possam tirar o apetite, soltar gases pode realmente estragar um bom jantar. Mas cotovelos? E quem disse que mulher precisa usar salto para ficar elegante? Nada contra saltos. Eles podem ser bem sexy. Mas, e se a pessoa, precisa ficar o dia inteiro em pé? Usar sapatos de salto por longos períodos é prejudicial à saúde. Muitas pessoas que se negam a comer isso ou aquilo por fazer mal à saúde, mas adquirem hábitos nocivos à saúde em nome da elegância , da etiqueta , do status.

E aí, vcs podem estar se perguntando? E daí, se gosto de seguir as convenções? Concordo que todo ser humano tem livre arbítrio para viver da maneira que mais lhe convém. O problema de determinadas convenções é quando elas começam a prejudicar a vida de terceiros, constrangendo-os, forçando-os a viver em padrões insuportáveis à sanidade física e mental. Se sou uma chefe de sessão e quero usar salto dez todos os dias e uma blusa de gola alta com um calor de 40 graus, ok. Mas que não usemos da nossa posição privilegiada para obrigar os colaboradores abaixo na hierarquia a nos seguir. Nem todas as pessoas podem se dirigir ao trabalho em um carro munido de ar condicionado. Muitas pessoas precisam enfrentar transporte público lotado e andar quarteirões a pé debaixo de um sol escaldante.

Questionar as convenções limitadoras, que retiram a espontaneidade da vida e das relações, que prejudicam a saúde e o conforto, que reduzem o ser humano a manequins de vitrine deveria ser uma atitude constante. Algumas pessoas dizem que o mundo é como é e que revoltar-se contra o estabelecido é pior. Estabelecido por quem? Se alguém ou um grupo estabeleceu um dia, pode ser reestabelecido novamente sob bases mais humanísticas e generosas. A cultura é móvel, adaptável e a única coisa que realmente impede o surgimento de mudanças é o comodismo e a tendência de achar que nada vai mudar.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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