cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Homenagem à menina triste

Este artigo objetiva refletir sobre a arte e a vida por meio do desenho da minha aluna de Jornalismo Maria Helena Gomes Pereira.


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Desenho elaborado por Maria Helena Gomes Pereira , estudante de Jornalismo, em abril de 2014.

Em minha última aula de Linguagens e estruturas do discurso, no curso de Jornalismo, decidi fazer algo diferente. Já estava cansada de falar sobre os tipos de discursos e a importância do raciocínio dialético. Estava cansada de falar sobre as mútuas contribuições entre cinema e literatura e como a fotografia libertou a pintura. Eu quis mostrar como tudo está interligado e que os conceitos apresentados em aula não são puramente teóricos nem estão aprisionados nos livros e artigos científicos.

Quis mostrar que a arte está impregnada em tudo, no dia a dia, em nossas memórias, num odor que nos remete à infância, à emoção de olhar pela janela num dia de chuva, nas lágrimas que vem aos olhos quando nos deparamos com um objeto dado por um ente querido já falecido, no jeito de abraçar e consolar um amigo.

Pedi para que cada aluno levasse algo que fosse significativo. Achei que todos levariam letras de música, poesias, outros gêneros literários e pinturas. Mas vi de tudo. Dos exemplos mais comuns de arte até camisas de time de futebol. Eu mesma levei um livro de sonetos da portuguesa Florbela Espanca.

Mas o que me deixou mais impressionada foi ver dois desenhos elaborados por uma aluna. Ela não levou um xerox de Monet ou de Manet, nem um livro de arte qualquer. Ela levou dois desenhos feitos por ela mesma e um deles ( o favorito da aluna) mexeu profundamente comigo a ponto de ter que escrever sobre ele.

O desenho não tem um nome, mas ele se refere à menina triste que existe dentro da “embalagem” da garota feliz. Ao redor, tudo são cores vibrantes e alegres. Mas ela está de costas, pintada em negro, segurando um guarda-chuva igualmente negro. Ela explicou sua arte depois de eu ter lido os sonetos da poetisa suicida. Tudo se embolou em sua mente e a garota triste rasgou a roupa da feliz e se desnudou em lágrimas. A tristeza oculta explodiu, veio à tona. Cena desesperadamente linda. Fico impressionada como nosso eu mais verdadeiro vem à tona nos momentos de dor. Como a arte traz o que há de mais humano em nós.

Ela se identificou com os sonetos. Eu me identifiquei com ela. Na sala de aula as cores explodem ao meu redor, me jogo no chão, faço piadas a respeito do Rivotril. Na rua, caminhando até o metrô, sinto o guarda-chuva preto sobre minha cabeça e meus 207 anos de solidão tornam minha surrada mas digna bolsa de professora um fardo bem pesado. Ás vezes, ando devagar pois não tenho pressa de chegar. Chegar onde? Ás vezes, acelero o passo pois fico ansiosa e tudo é melhor do que ficar onde estou, na rua caótica e barulhenta, que se mistura aos meus gritos internos.

Só posso dizer que a arte e sua capacidade de trazer o mais profundo de nós é o que faz os meus olhos brilharem, mesmo quando caminho no mundo como a menina triste.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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