cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Judas, o obscuro: o fardo dos condenados à obscuridade


Para quem acredita que Judas, o obscuro retrata um tempo antigo e superado, talvez não tenha parado para pensar que quase tudo é muito semelhante, apenas com uma maquiagem para disfarçar as feridas purulentas de uma sociedade estática e mesquinha.


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Judas, o obscuro, livro do escritor inglês Thomas Hardy, de 1895, pode ser considerado um grande exemplo de romance naturalista.

O Naturalismo foi um movimento literário acoplado ao Realismo, que sucederam o Romantismo. Para os naturalistas, homens e mulheres estavam submetidos às leis biológicas e sociais e pouco importava o quanto lutassem e se dedicassem para uma vida melhor. Cada um está condenado ao seu destino inflexível. Jude era um garoto pobre, que vivia no campo. Mas desejava ardentemente entrar na universidade e se tornar um acadêmico, inspirado por seu bondoso professor, um homem que largou a pequena cidade onde vivia para tentar a sorte em uma cidade maior, cercada por universidades.

Mas as leis biológicas falaram mais alto e entre um estudo e outro, Jude envolve-se sexualmente com Arabella, a filha de um criador de porcos. As afinidades intelectual e afetiva são inexistentes, mas um forte desejo carnal os une, fazendo com que Arabella leve Jude ao altar sob o pretexto de estar grávida.

A incompatibilidade entre o casal é tão grande e devastadora que a própria Arabella decide abandonar Jude e recomeçar a vida em outro lugar.

Jude leu muitos livros e aprendeu latim e grego por conta própria. Era um autodidata de paciência inesgotável. Mas mesmo assim não foi aceito pelo meio acadêmico por se tratar de um humilde restaurador de igrejas.

Quando tudo parece acabado para o nosso herói desafortunado, Jude reencontra a alegria de viver com Sue, sua prima irreverente . Na versão cinematográfica intitulada Jude e traduzida para o português como Paixão proibida, quem interpreta Sue é a fabulosa Kate Winslet. O filme é muito bom. Altamente recomendável. Tem classe , sensibilidade e apresenta o essencial do romance. Porém, o livro é muito mais visceral. E para quem me conhece, sabe muito bem que não sou uma defensora irrestrita dos livros em relação aos filmes. Acredito que existam livros melhores do que filmes e filmes melhores do que livros. Como dizer, por exemplo, que um livro de banca de jornal é superior a um filme de Buñuel, Bergman ou Fellini, pelo simples fato de ser um livro?

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A estonteante Claúdia Cardinale intrepreta em Fellini 8 1/2 o arquétipo de mulher ideal para o cineasta genial que vive uma crise criativa.

Se livros vão mais fundo no perfil psicológico dos personagens, filmes tem o poder de afetar os nossos sentidos além de nosso intelecto. Livros partem de ideias abstratas e conceitos que quando decodificados por nossa mente se tornam imagens. Filmes partem de imagens e sons que quando decodificados por nossa mente, olhos e ouvidos se tornam ideias e conceitos. O caminho é invertido, mas não menos rico ou importante.

Inclusive, o cinema pós Segunda guerra mundial se inspirou muito na literatura, levando aos filmes uma profundidade psicológica maior. Por outro lado, a literatura contemporânea sofre interferência do cinema por meio de narradores em primeira pessoa que apresentam um olhar parcial, fragmentado.

Mas voltando ao romance, Judas, o obscuro trabalha questões de suma importância social: a engrenagem invisível que impede o deslocamento das pessoas na sociedade e o peso das convenções.

Se você imagina que a dificuldade em entrar em outra “casta” social acontece apenas em séculos anteriores ao XX, acredito que esteja enganado. Sim, hoje milhares de jovens pobres tem acesso ao ensino superior e mulheres que são filhas de empregadas domésticas hoje podem trabalhar no comércio ou exercer funções burocráticas em diversas empresas.

Homens, filhos de operários, também podem conquistar o seu diploma e trabalhar de terno e gravata. Mas quase sempre vemos pessoas oriundas das classes mais humildes se profissionalizando e conquistando vagas em setores menos privilegiados da sociedade.

Dificilmente um jovem da classe C ou D vai escolher a carreira artística ou se formará em Medicina, por exemplo. Alguns poucos corajosos se arriscam. Mas a maioria opta pelo setor bancário, funções administrativas, engenharias ou qualquer outra coisa que possibilite um emprego rentável após a saída da faculdade.

Se formos parar para prestar atenção, a nossa televisão, cinema e teatro estão abarrotados pelos mesmos rostos: parentes e amigos de atores, diretores, músicos etc. Algumas poucas exceções conseguem furar o cerco e mostrar a sua arte.

Artistas sem acesso aos meios de divulgação se contentam em animar festas infantis ou partem para carreiras similares como a docência ou a psicologia, trabalhos onde o contato humano é essencial.

Para quem acredita que Judas, o obscuro retrata um tempo antigo e superado, talvez não tenha parado para pensar que quase tudo é muito semelhante, apenas com uma maquiagem para disfarçar as feridas purulentas de uma sociedade estática e mesquinha.

Se em Judas, o obscuro, o protagonista foi punido por viver ilegalmente com sua prima Sue, nos dias de hoje, em que relações mais liberais são aceitas, os muitos obscuros sociais continuam pagando altos preços por fugirem ao esquema estabelecido: se antigamente separar-se era impossível ou passível de punição, hoje é castigado aquele que pretende vínculos fortes e duradouros. Para quem não aceita a liquidez descrita por Bauman, resta apenas uma vida sem significado.

Apesar de possuir 120 anos, o romance de Thomas Hardy continua atual para quem tiver olhos para ver, ouvidos para ouvir, coração para sentir e coragem para admitir.

Abaixo, coloco filme na íntegra. Infelizmente, sem legendas em português.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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