cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Passione D’amore: quando precisamos do amor para respirar

Este artigo objetiva comentar um filme pouco conhecido de Ettore Scola: Paixão de amor.


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Foto extraída do site http://movieontheroad.com/place/palazzo-chiablese-passione-damore/

Passione D’amore foi traduzido para o português como Paixão de amor ( a tradução me parece equivocada. Creio que deveria ser Amor apaixonado) é uma coprodução ítalo-francesa, de 1981, dirigida por Ettore Scola. O filme é pouco conhecido e foge ao estilo do cineasta de Feios, sujos e malvados. O filme é baseado no livro Fosca, escrito por Iginio Ugo Tarchetti em 1869. Amor apaixonado mostra o quanto pode ser dura para uma mulher a ausência de atratividade física em uma sociedade patriarcal, onde tudo o que resta ao sexo feminino é ser admirado e amado por sua beleza e delicadeza.

Mas as críticas do filme não param por aí. Fala-se sobre o casamento arranjado e a obra defende o adultério feminino como estratégia de sobrevivência em um mundo regido pelos homens. Ao sexo masculino cabe o direito de desejar e escolher. Ao feminino, resta apenas o dever de aceitar.

O personagem protagonista, o belo e sensível capitão Giorgio, minimiza a culpa de sua linda e tristonha amante com o argumento de que o adultério feminino é um direito de reivindicar a felicidade e o amor que lhes são negados. Quando tudo parece bem dentro dos limites do possível, Giorgio é transferido de cidade, ficando muito distante da sua amada, uma mulher casada. E como se não bastasse a dor da ausência , Giorgio precisa enfrentar um desafio que deixará seus nervos à flor da pele: Fosca.

Fosca é a prima do coronel que o acolherá em sua casa com outros militares, incluindo o médico interpretado pelo célebre ator francês Jean- Louis Trintignant. Fosca tem 29 anos de idade e é extremamente culta e inteligente. Foi acolhida pelo primo depois de ter sido vítima de um golpista que lhe roubou a pequena fortuna.

Sozinha no mundo e sem dinheiro, lhe restou apenas viver da caridade do familiar. Mas não foi apenas o dote que o falso noivo lhe roubou. Ele lhe destruiu a saúde mental e consequentemente a física. Fosca tornou-se uma histérica, entrando em crise por causa da menor das contrariedades, tornando-se um fardo para o primo e motivo de constrangimento e ironia velada a todos que a cercam. Somada à sua histeria e saúde debilíssima, Fosca tem a pior das anomalias: Fosca é extremamente feia.

Ao conhecer Giorgio, Fosca reencontra um motivo para viver. Diferente dos outros militares com quem ela convive ( mais jovem, mais belo, mais sensível) ela se apaixona perdidamente por Giorgio que no início lhe oferece uma carinhosa amizade. Mas Fosca não deseja um amigo e a situação foge completamente ao controle.

Um filme sombrio, amargo e devastador. A fotografia tipicamente europeia, com a imagem escurecida e o abuso de planos fechados, nos conduzem ao intimismo do mundo interior dos personagens. Em alguns momentos a trama poderá soar como claustrofóbica, estabelecendo uma espécie de relação metafórica com o cárcere privado que os apaixonados vivem quando não são minimamente correspondidos. O final é surpreendente, mas não menos sombrio, amargo e devastador.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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