cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Superando a depressão: cada um tem a sua energia vital

Este artigo objetiva ajudar as pessoas depressivas utilizando a minha experiência de vida como exemplo.


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Lançamento do livro Hispanismo e erotismo: O cinema de Luis Buñuel em 2010.

Quando estamos deprimidos ( com ou sem motivo aparente) e demonstramos claramente o nosso sofrimento e falta de interesse pela vida, ouvimos e vemos as mais variadas reações e conselhos.

Alguns ficam constrangidos e preferem se afastar como se a tristeza profunda alheia fosse algo contagioso ou tão vergonhoso como um crime. Estilo: “Ela está deprimida”, com tom de quem diz “Ela desviou uma verba da empresa onde trabalha”.

Outros simplificam a questão, minimizando a dor alheia e narrando desastres muito maiores. Crianças que nascem sem pernas ou com três olhos. Gente que come um grão de arroz por semana. Não desmereço a dor de ninguém nem digo que a minha é maior. A minha dor é a porcaria de uma gota de urina num oceano inundado de dejetos. A dor do outro me importa sim até mesmo porque me considero uma empata. Mas ser compreensivo, não significa não ter o direito de sofrer. Pessoas que dão estes exemplos são gente bem intencionada, mas ineficaz para animar um deprimido.

Outros aproveitam para tripudiar. Sobre este tipo de gente prefiro poupar comentários. Não deveriam nem ser classificados como seres humanos.

Outros dizem coisas realmente valiosas. Outros com um simples abraço e um olhar terno dizem tudo o que precisamos ouvir. Vou me centrar na categoria que consegue ajudar.

Venho agradecendo sinceramente a todo tipo de apoio moral que tenho recebido. Muita gente mesmo tem se manifestado e isso é muito doce para mim. É quase tão bom quanto o Rivotril e o brigadeiro de colher que não falta mais aqui em casa ( brincadeiras à parte para descontrair).

Obviamente, cada um se consola com um tipo de conselho e se anima com algum tipo de atividade. Cada um tem a sua energia vital, mesmo que você ainda ainda não a conheça. Não darei um guia passo a passo como sair do buraco em duas semanas. Não tenho uma receita pronta, nem acredito nelas. Se a tivesse, já estaria rica e iria curtir a minha nova fase na Toscana ou em Provence. Acredito em diretrizes.

Acredito em primeiro lugar que pessoas superficiais devem ser mantidas à distância como escondemos água sanitária de bebezinhos. Gente superficial tende a simplificar tudo de um jeito irritante e acaba te jogando em um poço mais fundo ainda. Estou me centrando em gente densa, profunda, que sabe respeitar a minha dor e o meu ritmo de recuperação. Gente que não força a barra, que se coloca à disposição para ouvir, mas sem se impor. Nem sempre queremos falar.

Como sou comilona, me permito saborear o que gosto. Ontem, à noite, no intervalo da aula fui comer milho vendido por um ambulante e dei boas risadas com alunos. Estava feliz? Não exatamente. Mas me senti bem. O milho estava uma delícia. Meus alunos me transmitiram uma energia boa. Voltei super bem para a segunda metade da aula. Abraçar gente que nos quer bem é terapia das boas!

Cada um gosta de ocupar o seu tempo livre de uma forma: caminhando, cozinhando, lendo, praticando um esporte, fazendo uma arte ( nos dois sentidos RS) estudando, etc etc etc

Tente se centrar naquilo que te faz bem. Pode ser uma coisa bem pequena. Não importa. Pode ser comer pipoca. Pode ser ver um filme trash. Pode ser tomar um banho quente. Pode ser ler uma revista de fofocas. Pode ser fazer brigadeiro para comer com colher. Faça! Nos primeiros dias da crise, quando o antidepressivo ainda não estava surtindo efeito, eu só pensava em ideias mórbidas, eu só queria ficar deitada no quarto escuro, eu ligava a TV e nada me interessava. Não conseguia ler, conversar, nem ligar para o médico para dizer que eu estava uma merda eu conseguia.

Dias depois, dei meu primeiro pequenino passo: Assisti ao filme O massacre da serra elétrica: a lenda continua. Vi o filme até o final. Nojento. Não vejo este tipo de filme . Gosto de terror psicológico, estilo criança morta que volta para matar a família. Odeio gente sangrando, gente sádica. Mas enfim, foi o que eu consegui fazer. Acho que precisava ver algo mais horroroso do que a dor que comia meu coração.

Pode parecer uma bobagem, mas foi uma conquista. Passei alguns dias vendo apenas filmes trash. Prazer mórbido, mas o único possível, além do brigadeiro de colher e da certeza de morrer um dia. Ah, gostava de ler sobre doenças mentais também...mas textos curtos. A concentração estava baixa.

Terminada a licença do trabalho e com o Rivotril acoplado à minha medicação, consegui ir à faculdade. Fui temerosa. Admito. Na minha cabeça a aula seria a coisa mais sacal do mundo. Mataria meus alunos de tédio em plena segunda de manhã. A chuva fina me animou um pouquinho. Cumprimentei a primeira aluna que encontrei na escada com cara de nada ( a cara de nada era minha) mas depois de entrar na sala e começar a trabalhar , me senti realmente melhor. Bastou alcançar a rua novamente para dar uma canseira. Depois em casa, melhorei um pouco novamente e piorei levemente ao rever Paris, Texas. Filme excelente, mas pouco indicado para deprimidos. Enfim, a gente fica numa gangorra emocional, mas a tendência geral é ir estabilizando.

No meu caso o meu trabalho me anima. Tem gente que odeia o emprego que tem e aí a coisa fica ferrada de vez. Mas todo mundo gosta de algo. Como disse, todo mundo tem a sua energia vital, o que te move. No meu caso, além da minha família amigos verdadeiros e alunos queridos, o que realmente me faz continuar viva é a arte. A arte em qualquer tipo de manifestação. Para mim, podemos fazer arte ao organizar a comida no prato, combinando as cores e dando um toque de amor onde deveria ter apenas temperos. A arte para mim está no menor dos gestos. No jeito de sorrir, de subir a escada , atravessar a rua e dizer oi. A arte sai pelos poros.

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Mulher adúltera na peça Chuta que é macumba, escrita e dirigida por mim.

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Mulher traída na peça Chuta que é macumba, escrita e dirigida por mim.

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Prostituta na peça O balcão, de Jean Genet, dirigida por Augusto Rocha.

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Josefa de A casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, adaptada e dirigida por mim.

Gosta de dançar? Dance! Gosta de cozinhar? Cozinhe! Sempre quis fazer teatro? Se matricule num curso! Quer aprender um novo idioma? Aprenda! Sabe aquele curso ou projeto que sempre ficou em segundo plano por falta de tempo ou por acharem ridículo? Faça-o agora! A depressão pode ser uma ótima oportunidade para nos descobrirmos, para fazermos aquilo que não faríamos quando estamos "bem". É hora de mandar certas atitudes , pensamentos e pessoas para PQP.

Seja um pouco mimado. Estou aprendendo esta lição às duras penas. Mesmo mal, gosto de ajudar, ouvir , amparar: efeitos colaterais de uma formação católica somada ao mito familiar de que eu sou boazinha. Escuto isso desde menina. Parece legal, mas pode ser uma grande merda. Gente boazinha é normalmente deixada em segundo plano. Sim, sou boazinha. Mas estou doente e preciso ser cuidada, amparada. Minha mãe cortou as minhas unhas, lixou meus pés e eu fiquei quase largada àquele mimo como se o meu sofrimento me desse todo o direito de ser protegida.

Seja um pouco egoísta mesmo que você seja naturalmente generoso. Não estou sugerindo que vire um facínora, mas aprenda a se respeitar, a lamber as suas feridas, a olhar para dentro de seu coração, ouvir seus desejos, seus apelos mais urgentes e histéricos. Deixe de ser a boazinha, a bonitinha, use aumentativos.

Pode soar estranho, mas fazemos descobertas deliciosas a respeito de nós mesmos. Escrevo este texto ouvindo Valsa brasileira na voz de Luiz Melodia e minha capacidade de transformar em palavras os meus vazios , me preenche. Cada um tem as suas estratégias. Você só precisa descobrir qual é a sua ou simplesmente colocá-la em prática. Se for preciso, conte com a ajuda de um profissional para auxiliá-lo em seu processo de autoconhecimento. Infelizmente, a nossa sociedade nos impele ao desconhecimento total de nós. Gente que se conhece irrita os outros. É menos manipulável. É menos carente.

Amo as pessoas, mas odeio a sociedade, com seus jogos e regras tolas. Com o seu nojo e desprezo por quem sofre. Por seus tudo bem de praxe, com suas idiotas frases prontas e com sua necessidade de parecer feliz sempre, com seu medo de reconhecer em quem sofre seu próprio reflexo.

Odeio esta mania de achar que tudo precisa ser leve e os consolos impregnados de senso comum. Aprendi com um professor mais do que querido e especial que precisamos encarar a merda. Talvez, seja o único meio de nos mantermos sãos num mundo louco e doentio, num mundo obsessivo pelas aparências, pelo verniz dos sentimentos. Não! Não estou bem! Mas estou comigo mesma. Sei onde estou e sei que posso me guiar. Estou lúcida. Pior que a tristeza é a ilusão de uma felicidade inventada.

Sei que algo grandioso sairá do meu processo de reconstrução. Não porque recebi um sinal divino ou existe um plano maior para mim. Sei que algo acontecerá porque diante da minha ferida aberta, eu decidi fazê-lo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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