cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Um dia de cada vez: o mantra do deprimido

Se satisfaça com um chocolate hoje. Sinta prazer com um banho quente amanhã. Viva o momento sem imaginar o que virá depois. Não há nada mais doloroso para um deprimido do que o futuro. Curta mais o seu lado sensorial, o seu aqui agora. Usufrua de um tipo de liberdade que apenas os deprimidos tem. Nós podemos nos afastar sem dar explicações. Nós podemos recusar convites sem causar mágoas. Lá no fundo, os amigos entendem.


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Para um deprimido, rir de uma piada, saborear um sanduíche e curtir um filme são desafios que devem ser vencidos antes de estabelecer metas a longo prazo.

Um dia de cada vez. Sem planos e planejamentos a longo prazo. Ano que vem não existe. Apenas mês que vem e se você já estiver na segunda quinzena. Enfim, evite se imaginar no futuro.

Evite nostalgia. Evite estimular as emoções muito profundas. Imagine que a sua memória é como uma pele machucada. Você passaria esfoliante nela?

Não se prometa nada. Não prometa nada a ninguém. Deu vontade de sair? Saia. Deu vontade de ficar sozinho? Fique! Deu vontade de rever um filme antigo AGORA? Assista-o AGORA. Deu vontade de dar aquela reorganizada no armário AGORA? Arrume-o AGORA. Deu vontade de ouvir música , falar com um amigo de longa data? Deu vontade de não dizer nada ? Não diga.

Não pense no cardápio de amanhã nem em como você se sentirá ao acordar. Pense no que você quer comer hoje e coma. Quer testar uma receita nova? Teste-a hoje. Talvez amanhã você já tenha perdido a vontade de cozinhar.

Não programe um almoço maravilhoso para a próxima semana. Realize o que você quer fazer hoje, nem que seja comer um dogão vendido na rua ou ler um daqueles livros negligenciados em uma pilha enorme sobre a mesa de cabeceira.

Sem vontade para fazer os exercícios diários? Permita-se um pouco de preguiça hoje e talvez amanhã. Quer fazer uma boa caminhada, se exercitar? Se exercite. Hoje é o dia perfeito para iniciar uma vida mais saudável se assim você o desejar. Prefere dançar sozinho ? Dance. Prefere ficar deitado no sofá vendo TV ? Veja.

Acima de tudo: não se cobre. Agora não é tempo para dietas, para julgamentos, para rotinas exaustivas, para severidade extrema. Agora é tempo de se redescobrir. Redescobrir o prazer, as míseras alegrias cotidianas. Aquelas alegrias que esquecemos de notar quando estamos entretidos com grandes sonhos, mirabolantes projetos.

Não exija que tudo volte ao normal em poucos dias, semanas ou meses. Não finja que a dor não existe. Não subestime os estragos ocorridos. Olhe o desastre de frente. Olhe em seus olhos e o chame para um drink se você tiver vontade. Olhe o desastre sem medo de reconhecê-lo como desastre. Olhe para a sua dor sem receio de admitir o quanto ela é feia e profunda. Não tente se convencer que existem atalhos, caminhos floridos e receitas fechadas para restaurar o que foi estragado.

Dependendo da subjetividade de cada um, certas crises têm efeitos mais devastadores. Não se sinta um lixo se outras pessoas ao seu redor superaram mais rapidamente uma depressão. Cada um vive seus lutos de um jeito, num ritmo, numa intensidade. Cada um se levanta e se reinventa de uma forma e num tempo. O que é tarde para um, pode ser muito cedo para o outro e vice-versa.

Respeite a sua subjetividade, permita-se alguns mimos, coisas pequenas e aparentemente insignificantes que permitam o restabelecimento do seu senso de prazer. Quando deprimimos, perdemos o prazer por tudo, desde as menores coisas até as maiores.

Se satisfaça com um chocolate hoje. Sinta prazer com um banho quente amanhã. Viva o momento sem imaginar o que virá depois. Não há nada mais doloroso para um deprimido do que o futuro. Curta mais o seu lado sensorial, o seu aqui agora. Usufrua de um tipo de liberdade que apenas os deprimidos tem. Nós podemos nos afastar sem dar explicações. Nós podemos recusar convites sem causar mágoas. Lá no fundo, os amigos entendem.

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Desfrute dos pequenos prazeres: um chope gelado, uma pizza fumegante, um programa interessante na TV, uma boa caminhada num dia de sol. Enfim, o que for interessante para você.

Ninguém consegue pôr em prática planos complexos se mal consegue levantar de manhã e se olhar no espelho. Recupere o seu paladar, o seu apetite, o seu senso de humor, a sua capacidade de ver o lado cômico da tragédia, antes de planejar qualquer coisa a longo prazo.

Recupere o prazer em sentir o aroma de um perfume. Recupere o prazer de dormir numa cama macia e quente numa noite fria. Recupere o prazer de colocar uma roupa bonita para trabalhar . Recupere o prazer de parar diante de uma banca de jornal atraído por uma manchete qualquer. Recupere o prazer de folhear um livro, de navegar pela net , de conversar com um amigo, de rir de uma piada. Sim, você voltará a rir de piadas. Talvez, seja capaz até de fazê-las sobre você mesmo.

A solidão em que vivemos é patética. E tudo que é patético não deixa de ter um lado engraçado. Esta frase soa para mim como os filmes do Almodóvar. Acredito que seja o cineasta que tenha captado melhor o caráter tragicômico da vida. Talvez, tenha sido o que jogou cores mais fortes sobre o nosso dia a dia cinzento.

Sim, tudo é muito triste e cômico ao mesmo tempo. A vida é cíclica. O choro de hoje, vira a piada de amanhã. A piada de amanhã, a sabedoria do futuro. Mas por enquanto, basta saber uma coisa: viva o hoje pois o futuro não existe por enquanto.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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