cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Personas e personalidades: a difícil arte de revelar-se

Quem revela a personalidade e não a persona pode chocar, pois estamos acostumados ao simulacro e muitas vezes as pérolas falsas nos parecem mais vistosas do que as verdadeiras. Existe algo de muito cruel na verdade, se é que podemos definir a verdade integralmente.


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Parece contraditório, mas em uma época de tamanha exposição por meio das redes sociais, ainda percebo que a maioria se esconde por trás de máscaras. Exibir-se e transformar pequenas conquistas ou até mesmo eventos cotidianos como tomar um sorvete em algo especial já foi tema tratado por Guy Debord no livro A sociedade do espetáculo.

Debord foi um escritor e pensador francês do século XX. A sociedade do espetáculo foi publicada no final dos anos 1960 e Debord pertenceu a um importante movimento que nasceu na Itália chamado Internacional Situacionista. O movimento mesclava arte com política e os pensadores deste grupo acreditavam que a arte deveria tentar mudar o mundo. Outros pensadores defendem a ideia de que a arte e o artista não tem nenhum compromisso com a realidade, ponto de vista que entendo e respeito profundamente, mas que não é o meu.

As redes sociais apenas ampliaram um fenômeno que já existe há muitos séculos. Basta pensarmos nas festas e vestuários da nobreza na Idade Média. Os meios massivos de comunicação ampliaram o fenômeno e as redes sociais mais ainda.

Expor-se por meio de máscaras faz parte da natureza humana. Inclusive, os adeptos da Astrologia dizem que depois dos trinta anos revelamos mais traços do ascendente ( como o mundo nos enxerga) do que do signo solar ( eu mais profundo). Fazemos uma pseudo revelação, pois mostramos apenas o que achamos que pode ser visto. Considero incrível o abismo existente entre algumas pessoas e seus perfis sociais. Muitos pensam que tal abismo é legítimo pois usar máscaras virou algo tão orgânico que a maioria das pessoas já não se incomoda com simulações.

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Existem aqueles que preferem não opinar, não dizer, não revelar. Se tais pessoas se eximem de mentiras descaradas, elas não conseguem escapar de uma outra máscara falaciosa: a neutralidade. Sabemos que não existe neutralidade. Existe respeito aos variados pontos de vista e a defesa honesta do nosso pensamento. Apenas isso. Quem não se expõe, não mente, mas omite, o que pode ser considerada uma modalidade covarde de mentira.

Quem revela a personalidade e não a persona pode chocar, pois estamos acostumados ao simulacro e muitas vezes as pérolas falsas nos parecem mais vistosas do que as verdadeiras. Existe algo de muito cruel na verdade, se é que podemos definir a verdade integralmente.

Para o filósofo alemão Nietzsche “não existem fatos e sim interpretações”. Algumas coisas são facilmente comprováveis. Verdades relativas existem sim e podem ser provadas. Mas outras verdades jamais serão descobertas. Não é porque não a conhecemos que ela não existe. Por exemplo: um assassinato onde o criminoso nunca é descoberto. Não sabemos a verdade , mas ela existe. Podemos falar de verdade sob um prisma mais subjetivo e para mim o mais instigante: a verdade parcial e sentimental de cada um.

Alguém pode negar que esteve no bar X na data Y e ser desmentido por uma câmera de segurança. Por outro lado, quem pode desmentir a minha verdade sentimental? O que senti e como me senti diante de um filme, de uma notícia, de um fato? Como alguém pode tentar me provar que não fui manipulada se me senti manipulada? Como negar a veracidade dos próprios sentimentos e crenças? Como deixar de acreditar em algo porque um grande número de pessoas disse que tal coisa não existe? Como acreditar em algo porque um grande número de pessoas disse que existe? Se alguém não se sente querido, não adianta o outro dizer o contrário. Por isso, me parece, que amor e amizade não expressas são inexistentes. Uma verdade parcial minha.

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Acreditamos na alegria ou na dor quando ela é exposta, jogada em nossa cara sem pudores. Não consideramos a gama de sensações e possibilidades que existe no silêncio.

Mas voltando à questão do senso de crueldade da verdade, ela me parece dura pois não escamoteia o que nos provoca dor , o que aponta para os nossos vazios. A verdade é a própria vida na sua face mais visceral. A verdade não é cool, não é light e na maioria das vezes tem autoestima baixa, lembranças amargas, desejos mórbidos. A verdade pode ser bem histérica e irritante.

Mas ela pode ser doce e generosa também. Ela pode ter braços ternos e um sorriso gentil. Quantas vezes não ocultamos os nossos melhores sentimentos por medo de parecermos ridículos , piegas , frágeis? Muitos não enxergam beleza na fragilidade. Vejo a fragilidade como a nossa maior força , pois é o que revela melhor a nossa humanidade. Se não buscarmos e encontramos as nossas verdades, em que se reverterá a nossa vida? O que seremos além de meros personagens?


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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