cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Meu tio e a espontaneidade como ideal de vida

Talvez a felicidade verdadeira seja alcançada na simplicidade e na espontaneidade. Talvez precisemos de muito pouco materialmente falando para encontrar a beleza da vida. Talvez devêssemos ser como dóceis cães de rua que vivem um dia de cada vez.


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Tio Hulot apresenta ao sobrinho o lado mágico da infância

Filme extremamente poético sobre a mecanização da vida e das relações na sociedade industrial. O personagem protagonista de Meu tio é um homem simples, que vive com pouco e extrai alegria dos detalhes cotidianos, fazendo contraponto com sua irmã e cunhado, um típico casal de classe média, no pior sentido da expressão.

O cunhado é um responsável e próspero chefe de família , porém, é sisudo e nunca tem tempo para seu filho. A mulher é uma deslumbrada com as "comodidades" da alta tecnologia e importa-se muito mais em exibir sua casa às visitas do que se relacionar verdadeiramente com quem quer que seja. Ela afirma que todos os cômodos da casa se comunicam, porém, a incomunicabilidade é um dos temas principais desta obra extremamente sofisticada nos sentidos temático e da linguagem.

Jacques Tati fez poucos filmes, mas levava muito tempo para produzi-los porque suas obras eram praticamente artesanais, riquíssimas em detalhes de interpretação, cenografia, trilha sonora, entre outros elementos. A cenografia deste filme merece destaque porque cada detalhe da casa da irmã do tio Hulot nos remete a um mundo artificial e frio, onde as relações estão cada vez mais distantes e superficiais, onde a formalidade e consequentemente o tédio imperam em detrimento de uma vida mais espontânea.

As cadeiras são desconfortáveis, o ambiente é visualmente gelado, a comida servida é asséptica, o ritual de acender uma fonte no formato de um peixe quando a campainha é tocada é um verdadeiro brinde ao risível mise-en-scène social. É a vitória do capital sobre qualquer coisa lúdica ou idílica. Porém, como Tati não era um pessimista, encontram-se muitas luzes no final do túnel de Meu tio, filme rodado em 1959.

Merece destaque também a trilha sonora, que reproduz bem a personalidade e estilo de vida deste solteirão atrapalhado, que não consegue se encaixar bem na linha de montagem da sociedade industrial. Outro elemento belíssimo é o grupo de cães de rua que acompanham o personagem de Tati. Além de um fator afetivo, os cachorros , dóceis e livres, são uma metáfora do próprio Hulot. Um filme de humor sutil e inteligente, muito sensível e edificante.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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