cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O turista acidental ou o medo da vida

Somos turistas acidentais no mundo. O que realmente nos diferencia é como encaramos esta viagem imposta a nós. Resta a cada um escolher entre a arte do improviso ou defender-se inutilmente contra tudo e contra todos.


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O turista acidental apresenta uma bela metáfora sobre a capacidade ou a incapacidade de nos atirarmos de cabeça na vida. O próprio título já se refere a um tipo de pessoa que prefere não viajar, isto é, um turista acidental, obrigado a se deslocar, a conhecer lugares novos, conviver com desconhecidos quando na verdade quer ficar em casa, sozinho, no seu canto, intocado pela vida e pelas pessoas.

Após passar por uma tragédia, Macon, o personagem protagonista interpretado por William Hurt, um autor de guias de viagem, aplica em sua vida as mesmas regras apresentadas em seus livros: como viajar de avião sem ser abordado pelo passageiro ao lado? Tenha sempre um livro em mãos. Como não ser abordado no dia a dia? Sendo monossilábico. Como viajar com simplicidade? O que levar? O que é essencial para a própria vida? Outra dica valiosa! Nunca leve nada que seja realmente valioso, pois perder o que é importante para nós causa muito sofrimento.

O contraponto ao personagem protagonista é uma bela , excêntrica e extremamente afetuosa adestradora de cães, interpretada por Geena Davis. Sua vida não foi livre de tragédias, porém, ela a encara com leveza e a sabedoria típica de quem compreende que viver é se relacionar e correr riscos. Muriel não recebe nenhum tipo de convite para entrar na vida de Macon. Ela se impõe, vai entrando sem pedir licença e aos poucos começa a operar uma transformação na realidade de um homem que não consegue expressar suas emoções de tão dolorosas que elas são.

Uma das mais belas cenas do filme é quando Muriel e Macon estão em uma lanchonete em Paris. Macon a alerta para o sabor diferente do sanduíche em relação aos americanos. Ele sugere que ela o coma com cuidado como ele vive a sua vida. Ela, por sua vez, come o sanduíche sem medo de estranhar o recheio desconhecido, completamente desarmada e aberta ao novo. Uma espécie de síntese do filme: somos turistas no mundo. Enquanto uns se esquivam das experiências novas com medo da dor, outros aceitam a missão que nos é entregue.

O turista acidental apresenta uma linguagem extremamente simples e ao mesmo tempo se encaixa naquela categoria de filmes filosóficos, em que qualquer coisa muda dentro de nós depois de assisti-lo. Poético, sensível, revelador.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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