cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Veludo azul e a perversão como poesia

Será que a poesia reside apenas no belo, no virtuoso? Você já pensou em como a decadência e a perversão são como argila fresca em mãos habilidosas? David Lynch transformou o grotesco na mais fina poesia no filme Veludo azul.


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Adentrar no universo de Lynch é mergulhar em um mundo de possibilidades inusitadas e oníricas. Em geral, quando vemos um filme de Lynch sentimos que estamos sonhando, ou melhor dizendo, que somos o protagonista de um pesadelo. É praticamente impossível ficar indiferente diante de uma obra de Lynch pois seu estilo é completamente pessoal e marcante.

É possível estabelecer alguns paralelos entre sua obra e a do célebre espanhol Luis Buñuel, de "A bela da tarde" e "Esse obscuro objeto do desejo", no que diz respeito ao surrealismo. Por meio do bizarro, do grotesco, do surreal, Lynch nos fazer mergulhar no mais real da vida cotidiana: brutal, inflexível, violenta, sem concessões. Talvez, a grande diferença entre Buñuel e Lynch seja o fato dos filmes de Buñuel apresentarem uma aura racional, mesmo lidando com o inexplicável, o inusitado, o irracional. Já os filmes de Lynch nos entorpecem, são sinestésicos. Basta relembrarmos o romance turbulento de Coração selvagem ou o extremamente complexo Cidade dos sonhos.

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A sensualidade, o mundo noturno e a violência são os personagens principais de Lynch

O cinema comercial tenta nos fazer acreditar que as mulheres acordam belas e que de um minuto para o outro encontra-se a felicidade embalada em um pepel cor-de rosa. No cinema comercial as pessoas não transpiram; não cheiram mal; são sempre sensuais, mesmo com uma perna baleada e no meio de uma perseguição policial. Na verdade os filmes comerciais deveriam ser considerados surreais, pois são eles que realmente maquiam a realidade e fazem as pessoas e as coisas parecerem mais bonitas, glamorosas e simples do que são.

Veludo azul mostra o submundo, que infelizmente faz parte da realidade. Muitas pessoas, infelizmente, vivem no submundo, se drogando, agredindo fisicamente e emocionalmente, sendo agredidas, cometendo crimes para sobreviver ou simplesmente por sadismo. Porém, o que encanta em Veludo azul não são as cenas de violência. Pelo contrário. É extremamente comovente perceber que mesmo nos ambientes mais hostis e brutais, o amor floresce, a solidariedade existe e o desejo e a piedade brotam com sinceridade.

Merece destaque a cena em que a personagem de Isabella Rossellini canta Blue Velvet em uma boate e é observada pelo personagem de Kyle MacLachlan , que a olha simplesmente fascinado. Talvez, o desejo seja simples assim, sem discursos, sem beijos aplaudidos por plateias de desconhecidos em aeroportos ou qualquer outro ambiente público. Talvez o mais verdadeiro desejo só possa ser sentido e expressado na intimidade e no silêncio.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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