cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A filha de Ryan: a busca do amor romântico e do feminino

Realizado em 1970, por David Lean, o célebre diretor inglês de Doutor Jivago, Lawrence da Arábia entre tantos outros importantes filmes, A filha de Ryan não conquistou sucesso de público nem de crítica. Por outro lado, foi o filme favorito de David Lean. Eu o considero também o melhor filme de Lean. Vou mais além. A filha de Ryan é o meu filme favorito.


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Sarah Miles como Rose Ryan, personagem livremente inspirada em Emma Bovary

Realizado em 1970, por David Lean, o célebre diretor inglês de Doutor Jivago, Lawrence da Arábia entre tantos outros importantes filmes, A filha de Ryan não conquistou sucesso de público nem de crítica. Por outro lado, foi o filme favorito de David Lean. Eu o considero também o melhor filme de Lean. Vou mais além. A filha de Ryan é o meu filme favorito.

Baseado livremente no romance francês Madame Bovary, de Gustave Flaubert, A filha de Ryan trabalha questões temáticas muito relevantes e apresenta uma linguagem que mescla magistralmente elementos do cinema comercial com o de arte.

Diferentemente de Emma Bovary, Rose Ryan, filha de um taberneiro de uma aldeia da República da Irlanda, no ano de 1916, não tem sede de dinheiro como a personagem que a inspirou. Emma queria amor e luxo. Rose quer apenas o amor mesmo, embora o pai a mime com presentes caros como uma sombrinha rendada que ela deixa cair acidentalmente no mar.

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Além de mesclar elementos do cinema comercial com o de arte, A filha de Ryan tem a grandiosidade de um épico e ao mesmo tempo o intimismo profundo de um filme romântico, em que são trabalhadas questões do privado.

Com três horas e 15 minutos de duração, A filha de Ryan mostra a trajetória de uma moça romântica, que sonha ardentemente com o amor e com todas as transformações que ele trará ao seu ser e à sua vida. Como pano de fundo, o conflito entre irlandeses e ingleses que invadiram a República da Irlanda.

Rose Ryan parece sempre dirigir na contramão dos acontecimentos como todo sonhador idealista que vive em seu mundo particular.

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Vemos constantemente cenas que envolvem o coletivo, pessoas aglomeradas e ociosas, retratadas com uma boa dose de realismo e vulgaridade em contraste a idílica figura de Rose passeando pela praia, se embriagando com literatura erótica e sonhos de eufórica felicidade.

E como toda pessoa que já conheceu o lado avesso dos sonhos, sabemos que ela irá realizá-los à custa de muitos estragos e consequências irremediáveis.

Rose Ryan é mais uma anti-heroína pois acredita piamente em suas ilusões e atira-se nelas sem ressalvas. Como toda anti-heroína que se preze é tola, iludida, pretensiosa e fascinante.

Rose casa-se apaixonada com o professor da aldeia, interpretado por Robert Mitchum. Ele a alerta que ele não corresponderá às suas fantasias românticas pois não é como Lord Byron ou Beethoven, apenas a ensinou sobre eles. Com a obstinação típica dos apaixonados por suas próprias ilusões, ela não lhe dá ouvidos e ambos se casam.

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Rose declara-se ao seu ex-professor na escola onde estudou, simbolizando que na verdade ela ainda era uma criança emocionalmente

Apesar de ser uma pessoa maravilhosa, o professor Charles realmente não corresponde às expectativas da esposa e é aí que a história realmente começa. E é aqui que eu paro de contá-la.

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O professor Charles mesmo sabendo que ambos estão fadados ao fracasso, não resiste à Rose Ryan

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Cena do casamento entre Charles e Rose

A fotografia é primorosa, vencendo o Oscar. Algumas imagens se assemelham a verdadeiras pinturas. O outro Oscar que o filme recebeu foi para John Mills, como ator coadjuvante, na pele do infeliz Michael, rapaz mudo, manco e de inteligência limitada que serve de motivo de chacota para a aldeia miserável. É protegido pelo padre, autoridade moral da aldeia. Na verdade, o padre protege simultaneamente Michael e Rose: os extremos da aldeia. O rapaz doente e a moça mais invejada. Por outro lado, a distância entre ambos não é tão grande porque os dois são frágeis, desprotegidos, ingênuos e estão à mercê da maledicência dos outros.

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A fotografia abusa dos closes de Sarah Miles, mergulhando assim na subjetividade da personagem e criando uma relação empática com o seu drama

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Rose Ryan representa qualquer mulher que acreditou que o amor mudaria a sua vida e paga as terríveis consequências do seu sonho

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Trevor Howard como o padre da aldeia: autoridade moral de uma sociedade marcada pelo ócio, vandalismo e falta de perspectiva.

Sarah Miles também concorreu ao Oscar e outros prêmios por sua atuação. A trilha foi composta por Maurice Jarre que produziu muitas outras trilhas para os filmes de David Lean. A música tema é um show à parte, parte indissociável do filme como um todo.

Carregado de pequenas e singelas simbologias, A filha de Ryan, é uma obra delicada e bem cuidada esteticamente sem perder de vista um fio condutor narrativo bastante simples de acompanhar.

Uma linda simbologia refere-se à flores. O marido de Rose adora colecionar flores desidratadas. Ele se ressente levemente por ela não admirar suas flores. Delicadamente, Rose lhe responde que ela as prefere vivas, nos campos. As flores desidratadas são o próprio professor: Gentil, generoso, porém sem vida, sem paixão. As flores nos campos, selvagens, crescendo naturalmente, são a própria Rose faminta por romance e emoções.

A presença constante do mar nos remete às forças implacáveis da natureza. Rose é arrastada por seus desejos furiosos da mesma forma que o mar leva com ele tudo o que tiver que levar.

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Numa sociedade extremamente religiosa, moralista e patriarcal, Rose busca o seu feminino desesperadamente. A jovem protagonista está cercada por quatro fontes de poder, cada uma delas representada por um personagem masculino. O seu marido é o professor da aldeia, portanto representa o poder do conhecimento. Seu pai é o homem com mais dinheiro na aldeia, portanto simboliza o poder econômico. O padre que a ampara e a aconselha representa o poder da Igreja. Encontramos também no filme a figura do militar e consequentemente o poder das armas. Num mundo masculino, Rose desafia as regras para viver o que ela considerava o seu ideal.

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A busca do eu verdadeiro e da realização das aspirações mais profundas é provavelmente o caminho mais longo que trilhamos durante a vida. Rose anda, anda, anda sem nunca realmente chegar.

Um filme esteticamente belo e intenso, com temáticas poderosas, incompreendido e injustiçado, o que talvez o torne ainda mais fascinante.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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