cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Amores loucos, conversas insanas e o desespero de viver: o cinema nos reconectando com o nosso mais visceral

O cinema vem a mais de um século nos dando "aulas" de que nem tudo precisa fazer sentido para ter significado. O cinema vem nos sussurrando ao pé do ouvido de que existe beleza no horror, lucidez na loucura e que muitas vezes os gestos insanos podem ser simplesmente uma maneira desesperada de buscar as nossas verdades.


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Os personagens do filme Os sonhadores, de Bernardo Bertolucci imitando os personagens do filme Banda à parte , de Godard. Metalinguagem, incesto e fuga da realidade.

O cinema é espaço e tempo de contradição, de insanidade, de loucura. O cinema não é politicamente correto nem apaziguador. Por isso mesmo, talvez, seja uma arte tão visceral que nos reconecta com as nossas entranhas, com tudo de mais profundo, verdadeiro e denso que existe dentro de nós.

O cinema mais elaborado e que não pretende vender sonhos padronizados de felicidade com laçarotes cor-de-rosa, nos esbofeteia e nos leva a nocaute sem dó nem piedade, jogando em nossa cara a precariedade da condição humana. Nos machuca? Provavelmente não. É no embate, é no diálogo nu e cru, sem concessões, que temos a chance de perceber que a vida é o que é, que ela não se adapta a nós e só nos resta nos adaptarmos a ela, jogando o seu jogo, transformando suas armadilhas em oportunidades, ironizando quando ela bate forte demais e nos faz rodopiar , nos roubando o eixo, o senso de direção, do ridículo, o caminho de casa, a crença em nós mesmos.

A vida é como é, não foi feita para nos dar alegrias mil nem realizar o que queremos. Mas se entendermos que a felicidade não é o destino natural, poderemos extrair o que há de melhor dela, o que há de mais belo e poético, nos comprazendo com as próprias limitações e sorvendo lágrimas como um doce vinho.

Se não é possível crer na felicidade idílica, é possível acreditar na bondade, no encontro, na solidariedade, na ternura , na arte visceral , na poesia louca, no prazer de uma conversa insana.

Citarei alguns filmes que extrapolam as barreiras da normalidade ( se é que existe alguém realmente normal) nos fazendo encontrar nossas verdades por meio de suas trajetórias tortuosas e apaixonadas.

1. Mapas paras as estrelas, de David Cronenberg 2. Um método perigoso, de David Cronenberg 3. O açougueiro, de Claude Chabrol 4. Em suas mãos, de Anne Fontaine 5. Veludo azul, de David Lynch 6. Coração selvagem, de David Lynch 7. Os sonhadores, de Bernardo Bertolucci 8. Último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci

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Último tango em Paris: Melancolia, erotismo profundo e desespero de viver. O sexo vivido intensamente como saída para a solidão e uma vida que parece não ter sentido.

9. Meu amor de verão, de Pavel Powlikowski 10. Paixão de amor, de Ettore Scola 11. O morro dos ventos uivantes, de Peter Kosminsky 12. Atame, de Pedro Almodóvar 13. A pele que habito, de Pedro Almodóvar 14. Matador, de Pedro Almodóvar 15. A mulher do lado, de François Truffaut 16. Menina bonita, de Louis Malle ( qualquer filme de Louis Malle é loucura na veia)

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Menina bonita: pedofilia, amor verdadeiro e a impossibilidade de resgatar o tempo perdido. Malle transformava os mais escabrosos temas na mais fina poesia

17.Os amantes da Pont-Neuf, de Leos Carax

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Os amantes da Pont-Neuf: o amor acontece até mesmo nos ambientes mais hostis e nas condições mais adversas. Loucura, paixão à flor da pele e imprevisibilidade.

18. A bela da tarde, de Luis Buñuel

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A bela da tarde: as obscuridades do desejo. Uma verdadeira poesia sobre o inexplicável.

19. Em um pátio de Paris, de Pierre Salvadori 20. Gritos e sussurros, de Ingmar Bergman 21. O silêncio, de Ingmar Bergman 22. Persona, de Ingmar Bergman 23. A comilança, de Marco Ferreri

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A comilança: Escatologia, pornografia e bizarrices compõe uma verdadeiro quadro de arte

24. Estomâgo, de Marcos Jorge

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Estômago: a comilança brasileira. O ato de cozinhar como fonte de poder e o amor contrariado vivido intensamente

25. Gata velha ainda mia, de Rafael Primot

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Gata velha ainda mia: As múltiplas possibilidades da vida se misturando às possibilidades narrativas em um clima profundamente soturno e visceral

26. O cheiro do ralo, de Heitor Dahlia 27. Nina, de Heitor Dahlia 28. Clube da luta, de David Fincher 29. Garota exemplar, de David Fincher

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Garota exemplar: a pior violência que pode ser cometida a uma mulher é deixar de amá-la.

30. Um dia de fúria, de Joel Schumacher 31. Beautiful and twisted, de Christopher Zalla 32. Táxi driver, de Martin Scorsese 33. A menina do fim da rua, de Nicolas Gessner 34. Cisne negro, de Darren Aronofsky 35. O estranho que nós amamos, de Don Siegel

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O estranho que nós amamos: como diria o escritor espanhol Federico García Lorca, um homem tem muito poder entre mulheres sozinhas. O personagem de Clint Eastwood descobrirá que um grupo de mulheres intensas e apaixonadas pode ser mais perigoso do que a Guerra Civil Norte-Americana.

36. Uma rua chamada pecado, de Elia Kazan 37. Clamor do sexo, de Elia Kazan

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Clamor do sexo: desejo reprimido, depressão e vidas desperdiçadas por uma sociedade hipócrita e tacanha.

38. Diabo no corpo, de Marco Bellochio 39. Lanternas vermelhas, de Zhang Yimou 40. Estrelas da Ursa, de Luchino Visconti

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Claudia Cardinale em Estrelas da ursa: Erotismo melancólico e o passado que insiste em se fazer presente com consequências nefastas

41. O deserto vermelho, de Antonionni.

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O deserto vermelho: solidão, loucura e incomunicabilidade. A vida é um deserto aterrorizante.

42. Secretária, de Steven Shaiberg 43. O inquilino, de Roman Polanski 44. Lua de fel, de Roman Polanski

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Lua de fel: perversão e a incapacidade de reciclar a paixão em amor

Personagens depressivos, esquizofrênicos, desajustados socialmente, consumidos por obsessões, paixões avassaladoras, contradições homéricas, iludidas por elas mesmas ou por terceiros, inconsequentes, viscerais , pérfidos, poéticos, irônicos, irreverentes, incestuosos, melancólicos, desesperados e acima de tudo profundamente humanos e reais.

O cinema vem a mais de um século nos dando "aulas" de que nem tudo precisa fazer sentido para ter significado. O cinema vem nos sussurrando ao pé do ouvido de que existe beleza no horror, lucidez na loucura e que muitas vezes os gestos insanos podem ser simplesmente uma maneira desesperada de buscar as nossas verdades.

O cinema tem nos confidenciado sem o menor pudor que a alegria nem sempre é bonitinha e que a arte é o grito do libertário. O cinema tem nos mostrado que apesar das nossas loucuras e da vida estar bem longe de qualquer ideal juvenil, ainda assim existe muito o que aprender , conhecer e sentir. Existe muito para usufruir nos escombros de nossos sonhos. O cinema tem nos mostrado uma felicidade manca, desajustada e democrática. Como diria Caetano Veloso, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é e atire a primeira pedra quem for normal.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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