cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Nem tudo o que está na tela é o que aparenta ser: Signos no cinema

Muitas pessoas assistem a um filme e enxergam apenas o que está na tela. Cinema não é uma arte denotativa, que exime o espectador da capacidade imaginativa, como tendemos a pensar.


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Cena de Psicose, De Alfred Hitchcock

Não é porque vemos os atores em cena, que somos impedidos de criar desdobramentos em nossa mente a respeito de tudo que enxergamos e ouvimos. E nem sempre o que vemos, é o que realmente o cineasta quer nos mostrar.

No filme Psicose, de Alfred Hitchcock, por exemplo, vemos a personagem interpretada por Janet Leigh ser esfaqueada no chuveiro. A cada estocada, um barulho cortante e aterrorizante. Mas o que se esconde por detrás das estocadas? O que se esconde por detrás de Norman Bates que assassina brutalmente uma mulher que nenhum mal lhe fez?

Simbolicamente falando, podemos entender as estocadas como um estupro. Norman Bates se sentiu atraído por Marion, mas incapaz de trabalhar o seu desejo de forma saudável, assassina quem lhe atraiu.

Embora os filmes de Hitchcock sejam muito discretos no quesito erotismo, eles apresentam um profundo conteúdo sexual reprimido. Muito mais do que um filme sobre psicose, Psicose é um filme sobre sexo, sobre desejo reprimido, sobre a impossibilidade de se viver a sexualidade de forma saudável.

Já o filme Dispara, de Carlos Saura, em que uma artista circense é violentada por um grupo de jovens sádicos, poderemos perceber um fato muito interessante. Apesar da violência sexual explicitada na obra, Dispara é muito mais um filme político do que sexual. Saura nos mostrou em Dispara que mesmo 18 anos após o fim do franquismo na Espanha, o país ainda precisava se libertar de muitas amarras.

No filme francês, A mulher e o atirador de facas, podemos presenciar uma das mais belas e profundas cenas eróticas sem mostrar nenhum corpo nu ou insinuação sexual. No momento em que o protagonista atira facas ao redor da mulher amada , que fecha os olhos e relaxa o corpo numa postura totalmente confiante a ele, com uma música de fundo, sentimos nitidamente a magia de um ato sexual vivenciado com afeto e real entrega de coração.

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Cena de A mulher e o atirador de facas, de Patrice Leconte.

No filme A filha de Ryan, de David Lean, apesar de já estar casada, a protagonista Rose Ryan se sente virgem pois não conheceu o calor eufórico da paixão nos braços do marido. Ao marcar um encontro amoroso com um belo e atormentado militar recém chegado à sua aldeia, podemos ver um canteiro com lírios. O lírio representa a virgindade.

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Sarah Miles como Rose Ryan, de David Lean. A busca do amor romântico e do feminino.

Em filmes mais elaborados como os de Carlos Saura, diretor de Dispara e os de Luis Buñuel, podemos encontrar muitas imagens que mostram sensorialmente algo, mas que intelectualmente significam outra. No filme Esse obscuro objeto do desejo, de Buñuel, para revelar o caráter ambíguo de Conchita , o cineasta escalou duas atrizes para fazer o papel.

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A espanhola Angela Molina representa a face mais quente de Conchita ao lado de Fernando Rey.

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A francesa Carole Bouquet representa o lado mais enigmático de Conchita.

No mesmo filme, vemos personagens carregando sacos nas costas. Os sacos representam todos os fardos e conteúdos reprimidos que carregamos, que incluem as variadas frustrações da vida. Ainda em Esse obscuro objeto do desejo, ataques terroristas e explosões representam a tumultuada relação entre a jovem e imprevisível Conchita e o maduro Mathieu.

No primeiro filme de Buñuel, Um cão andaluz, vemos um olho sendo cortado por uma navalha. Porém, o corte vai muito além daquilo que vemos. O corte simboliza a penetração sexual violenta.

Ou ainda em Uma rua chamada pecado, de Elia Kazan, baseado na peça teatral Um bonde chamado desejo, de Tennessee Williams, quando a iludida Blanche é violentada por seu cunhado, vemos um espelho rachando. Enfim, o pouco de lucidez que existia na personagem se apaga com o ato violento e ela se desconecta totalmente da realidade.

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Vivien Leigh e Marlo Brando em Uma rua chamada pecado, de Elia Kazan. Brando participava de seu segundo filme lindamente bem e Vivien Leigh já consagradíssima fez uma interpretação brilhante de Blanche, tornando-se referência para atrizes que representaram este célebre papel.

Em A comilança, de Marco Ferreri, o suicídio coletivo por meio da ingestão incessante de alimentos, vai muito além de uma orgia alimentar. O filme pode ser lido de muitas formas, como as quatro fases da libido ou a contestação da sociedade de consumo.

Em Bertolucci, o tema do incesto é recorrente. Porém, no contexto da obra do cineasta italiano que ganhou fama internacional, o incesto revela o medo do mundo. Por tal razão, as relações amorosas se desenrolam no seio familiar.

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La luna, de Bertolucci, mostra o amor entre mãe e filho.

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Os sonhadores, de Bertolucci, mostra o amor entre irmãos.

No poético filme francês Meu tio, de Jacques Tati, vemos dóceis cachorros de rua que acompanham o simples Tio Hulot. Os cachorros vão muito além de meros cãozinhos. Eles simbolizam o próprio Hulot: livre das convenções, com um estilo de vida simples e afetivo.

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O tio Hulot torna-se uma referência afetiva muito importante para o filho de um rico industrial.

Em resumo, o cinema vai muito além daquilo que nossos olhos podem ver ou nossos ouvidos escutar. O cinema é uma arte que exige reflexão, elaboração intelectual para realizar as decodificações necessárias para um melhor entendimento dos filmes.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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