cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O poder do cinema como ferramenta antropológica

Se sentimos dor de dente, vamos ao dentista, né? Se temos uma irritação na pele, vamos ao dermatologista. Quando queremos conhecer um pouco mais sobre a China, a Índia ou qualquer outro país deveríamos buscar filmes destas nacionalidades, não é?


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Julie Delphi em A igualdade é branca, segundo filme da trilogia das cores do polonês Kieslowski. Por meio dos lemas da Revolução Francesa, o cineasta defendeu a ideia de que a liberdade e a igualdade são utopias. Para ele, apenas a fraternidade era possível.

No artigo O poder do cinema como ferramenta de autoconhecimento defendi a ideia de que a sétima arte pode nos ajudar a nos entender melhor e a nos reinventar, quebrando preconceitos e tabus, revendo valores. No atual artigo, defendo a ideia de que por meio do cinema podemos conhecer um pouco mais sobre culturas diversas.

Se sentimos dor de dente, vamos ao dentista, né? Se temos uma irritação na pele, vamos ao dermatologista. Quando queremos conhecer um pouco mais sobre a China, a Índia ou qualquer outro país deveríamos buscar filmes destas nacionalidades, não é?

Meu objetivo aqui não é criticar o cinema comercial, mas defender o pensamento de que devemos assistir filmes do mundo inteiro se desejamos entender melhor outras culturas.

Sabe-se que que em cada cultura as pessoas expressam os sentimentos de uma forma e se relacionam de maneiras diferentes com a morte, a honra , o dinheiro, a família, o sexo, entre tantas outras questões de suma importância. O que pode ser positivo para uma cultura, pode ser nefasto para outra. Por tal razão, quando não conhecemos os códigos de determinada cultura, corremos o risco de dizer ou fazer algo ofensivo sem saber. Basta lembrarmos de um banal gesto cotidiano no Brasil que nos remete a uma expressão chula e que nos Estados Unidos significa simplesmente Ok.

Se no Ocidente a cor preta é a do luto e agora a que emagrece também ( piadas à parte) na China o branco é a cor do luto. Se em algumas culturas arrotar à mesa é sinal de boa educação, de que a comida foi apreciada, no Brasil, tal gesto é muito deselegante.

Em um mesmo país é possível encontramos muitos códigos diferentes. Cada estado brasileiro, por exemplo, representa uma subcultura que faz parte da cultura brasileira. Cada uma com suas especificidades. Em uma mesma cidade, dependendo da classe social, podemos encontrar códigos diferentes também. Por exemplo: a relação que temos com a comida. Em restaurantes muito elegantes, onde são servidos menus conceito, as porções são reduzidas enquanto que em restaurantes mais populares as porções são mais generosas.

No Brasil, encontramos scargots em restaurantes muito sofisticados enquanto que é possível comer esta iguaria num restaurante comum em Paris. Isto é, scargots fazem parte da cultura erudita no Brasil, mas na França fazem parte da cultura popular como o arroz e feijão para nós.

O filme japonês A partida , vencedor do Oscar de melhor obra em língua estrangeira em 2009 mostra como os japoneses enxergam o ritual de sepultamento e as pessoas que exercem esta função na sociedade.

O filme argentino O segredo dos seus olhos , vencedor de melhor obra em língua estrangeira em 2010, apresenta um contexto político complexo, em que crimes graves ficam impunes. O filme apresenta como solução paliativa para a impunidade a justiça pelas próprias mãos com a fascinante e visceral aura politicamente incorreta típica do cinema argentino.

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Em Segredos dos seus olhos, as soluções extremamente passionais soam como naturais no contexto cultural apresentado

A coprodução franco chinesa Balzac e a costureirinha chinesa apresenta o período de reeducação dos jovens burgueses na China dos anos 1970, comandada por Mao Tsé-Tung.

Quem deseja conhecer mais sobre a Itália do pós Segunda Guerra Mundial, deve assistir Roma, cidade aberta, de Roberto Rossellini, Ladrões de bicicleta e Os girassóis da Rússia, de Vitorio de Sica e Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti. Para quem deseja entender melhor o contexto dos Estados Unidos do pós Segunda Guerra, deve assistir ao filme Uma rua chamada pecado, de Elia Kazan ou à versão mais recente da peça teatral de Tennessee Williams, Um bonde chamado desejo, protagonizado por Jessica Lange e Alec Baldwin.

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Em Ladrões de bicicleta, uma criança presencia todo o sofrimento de uma realidade miserável

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Em Os girassóis da Rússia, vemos vidas sendo destruídas pela guerra e pessoas comuns lutando sem entender o porquê.

Quem quer conhecer mais sobre a literatura de cordel nordestina, deveria assistir O auto da compadecida e para quem não acredita que houve tortura no Brasil na época do regime militar, sugiro ver Pra frente Brasil, de Roberto Farias.

Para quem deseja entender melhor a mescla entre elementos sagrados e profanos na cultura espanhola , indico os filmes de Buñuel e Almodóvar. E para quem se interessa pelo franquismo, os de Saura, entre eles Ana e os lobos e Mamãe faz cem anos.

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Cena de Ana e os lobos. Ana brinca com o poder e sofre punições nefastas

Para quem tiver interesse em aprender mais sobre as raízes do nazismo, A fita branca, do austríaco Michael Haneke ou O ovo da serpente , do sueco Ingmar Bergman.

Para quem pretende mergulhar na melancolia do povo eslavo, o tcheco Algo como a felicidade ou os filmes do polonês Kieslowski, entre eles a trilogia das cores e a série de médias metragens intitulada Decálogo, com um olhar bem subjetivo sobre os dez mandamentos.

Para quem deseja ver o lado B do American way of life , deveria assistir Beleza americana, Pequena Miss Sunshine, Um dia de fúria e Nação Fast food.

A lista de filmes significativos de diversos países é muito extensa. Em futuros posts, pretendo trazer mais referências a quem se interessa pela sétima arte como fonte de conhecimento.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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