cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Viva e deixe viver: pelo direito de sermos nós mesmos

Uma criança vivendo num orfanato sem referências afetivas é mais feliz do que outra cuidada por dois pais ou duas mães? Quem condena a adoção por casais homoaefetivos preferiria ter crescido num lar para crianças abandonadas? Deveríamos exercitar a generosidade e aprender a amar mais e melhor. Deveríamos nos esforçar para entender que o mundo, as pessoas e a sexualidade são muito mais complexas do que aquilo que nos ensinaram na infância. Deveríamos abrir a cabeça e principalmente o coração para compreender que não estamos no mundo para julgar , rotular e excluir. Estamos no mundo para entender, apoiar e respeitar as pessoas.



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Amor hetero. Amor gay. Amor à distância. Amor entre desiguais. Amor é amor. A única coisa que deveria ser realmente considerada importante quando falamos de relações amorosas é a capacidade de criar e manter vínculos a longo prazo.

Criamos rótulos e hierarquias para tudo. Separamos as pessoas por castas simbólicas, de acordo com o poder aquisitivo, o grau de instrução, os contatos sociais, o bairro onde mora, a faculdade onde estuda etc

Para a sociedade, quem estuda na universidade pública é mais inteligente do que o aluno da particular. Quem tem melhor status social é uma amizade que merece ser mantida, quem ganhou mais dinheiro, se dedicou mais. Quem ama alguém do sexo oposto, mesma idade, nível social, ama melhor.

Não nego que se relacionar com pessoas que tenham a mesma faixa etária, religião e nível social facilita em muito a nossa vida. Por outro lado, nem sempre as coisas acontecem de forma bonitinha e organizada e nos envolvemos com pessoas que apresentam diferenças significativas conosco. Aqui, não analiso as probabilidades deste tipo de relação funcionar. Quero apenas salientar que amor é amor e se houver sinceridade, comprometimento e real empenho em tentar fazer funcionar, vale a pena e é digno de respeito.

Não defendo aqui comportamentos promíscuos, descompromissados nem atitudes desleais. Traição, falta de respeito e comprometimento com o sentimento alheio é um horror tanto entre hetero como entre homossexuais. Defendo aqui o direito de amar, ser amado e acima de tudo, ser o que se é, respeitando a liberdade e espaço do outro.

Acredito que nunca entenderei realmente por que uma relação homoafetiva incomoda tanto. Em que um casal homoafetivo atrapalha a rotina de um casal hetero? Por que o amor entre dois homens ou entre duas mulheres fere tanto alguns heterossexuais?

Entendo a indignação e revolta que a sociedade sente por pedófilos, estupradores e criminosos de todas as naturezas que se dedicam a ferir , desrespeitar e destruir a vida alheia. Mas considero autoritária a postura de quem se julga no direito de criticar, ironizar , humilhar e às vezes até agredir fisicamente quem possui outra sexualidade. Orientação sexual não é escolha. A pessoa escolhe assumir ou não. Mas ela não decide gostar disso ou daquilo. Sou hetero e me apaixono por homens não porque escolhi gostar de homens. Porque sou assim. Acredito que algumas pessoas heterossexuais podem experimentar relações homo por curiosidade ou por se sentirem frustradas com o sexo oposto. Mas de modo geral percebemos que o caminho entre a descoberta da homossexualidade até o ato de assumi-la publicamente é lento, complexo e turbulento. São trajetórias carregadas de rejeição, humilhação e julgamentos cruéis.

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Toda relação pautada no amor verdadeiro deveria ser respeitada

Deveríamos exercitar a generosidade e aprender a amar mais e melhor. Deveríamos nos esforçar para entender que o mundo, as pessoas e a sexualidade são muito mais complexas do que aquilo que nos ensinaram na infância. Deveríamos abrir a cabeça e principalmente o coração para compreender que não estamos no mundo para julgar , rotular e excluir. Estamos no mundo para entender, apoiar e respeitar as pessoas.

Um amor não é menor porque não gera filhos biológicos. Não podemos reduzir as relações afetivas à procriação. E também, deveríamos entender que não são apenas casais heterossexuais que tem amor para dar a uma criança. Se considerarmos que uma relação deve necessariamente gerar filhos, uma mulher na menopausa ou uma pessoa jovem estéril não poderia se casar.

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Uma criança vivendo num orfanato sem referências afetivas é mais feliz do que outra cuidada por dois pais ou duas mães? Quem condena a adoção por casais homoaefetivos preferiria ter crescido num lar para crianças abandonadas?

O mundo tem lugar para todos. Aqueles que são deixados por seus pais biológicos podem encontrar um lar amoroso entre pessoas solteiras , casais estéreis ou relações homoafetivas. O mundo vai se equilibrando às duras penas e se conseguíssemos amar mais e sermos mais compreensivos, haveria menos exclusão, menos sofrimento, mais compaixão. Estamos no mundo de passagem. Daqui nada levamos. E talvez , a única coisa que realmente importe é o quanto de amor e solidariedade que somos capazes de sentir e dar aos outros e a nós mesmos.

Em minha opinião, não há nada mais essencial que a capacidade de amar e compreender as pessoas. De nada adiantam os rituais religiosos, os jejuns, a devoção por santos, as promessas, as velas acesas, as orações antes de dormir, se nos dedicamos a desrespeitar, magoar e excluir as pessoas. Amamos a Deus quando amamos as pessoas. Amamos a Deus quando somos gentis, generosos e combatemos veementemente nossos preconceitos.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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