cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A sociedade está enferma

Ser independente não significa ser indiferente à dor do outro. Não significa viver a parte do outro. Somos responsáveis sim pelo que fazemos, pelo que dizemos. Amadurecer vai muito além de pagar as próprias contas , construir uma carreira e dirigir um carro. Amadurecer num sentido mais profundo é se perceber como parte integrante de uma sociedade, em que cada um deveria se importar com os outros, em um movimento de mútuas interações. Como defendi em outros textos meus, em minha opinião, não existe inteligência sem bondade e a empatia é essencial para nos relacionarmos com mais sensibilidade. Até quando insistiremos em nos defender da dor, do medo, da ansiedade por detrás do lema “Eu sou mais eu e o mundo que se dane”?


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A sociedade está enferma e a pior doença é esta couraça que vestimos para nos preservarmos da dor

Uma leitora do obvious deixou um sábio comentário sobre o meu texto “Vamos falar de suicídio?” Ela afirmou que a sociedade está enferma e diante sua objetividade incisiva, me enchi de inspiração para escrever o atual post: a sociedade está enferma pelo individualismo, pelo hedonismo, pela insensibilidade, pela superficialidade e pela falta de cortesia.

Não sou saudosista e não defendo que antigamente o mundo era melhor. Não, não era melhor. Era ainda mais injusto e violento. Os pobres eram mais discriminados. Uma moça era expulsa de casa por engravidar. As mulheres não podiam escolher o seu caminho. Os negros eram escravos.

Hoje pune-se homofóbicos e racistas. Hoje uma mulher pode decidir o que acha melhor para a sua vida. Ninguém é expulso de casa por fazer sexo. O mundo melhorou muito. Mas pode melhorar muito mais ainda.

Estamos confundindo alguns conceitos importantes, como por exemplo, alta autoestima com insensibilidade. Ter uma autoestima legal, gostar de si, se admirar, é ótimo. O problema é menosprezar e tratar mal quem é mais sensível e quem tem menos blindagens para suportar os trancos da vida, que incluem romances relâmpago, empregos instáveis, amizades frágeis. Nem todo mundo se adapta bem à era líquida e adoece. E muita gente não entende isso e julga e critica e condena impiedosamente. Outra sábia leitora afirmou corajosamente que a sociedade tem mãos sujas quando o tema é depressão. Sim, concordei com ela e deixei um comentário. Sim, os mesmos que criticam e condenam os deprimidos, muitas vezes, são os que detonam as crises dos depressivos com sua falta de tato e compreensão.

Tem autoestima alta? Muito bem! Entra e sai dos relacionamentos sem se machucar? Tudo bem! Curte sexo sem compromisso? Sem problemas! É um direito seu! Mas ninguém tem o direito de impor ao outro que sexo sem compromisso é o melhor sexo que existe. Ninguém tem o direito de rotular como tolo quem deseja um amor sólido e companheiro.

Outro conceito que muita gente confunde bem: depressão não é frescura. Depressão é doença e quem a tem precisa procurar um psiquiatra. Dizer que um deprimido é fresco é o mesmo que dizer que alguém com gastrite, câncer ou catarata está fazendo fita e precisa criar vergonha na cara para melhorar.

Terceiro ponto complexo: liberdade de expressão com ataques histéricos. Expressar-se é bom e saudável. Ninguém está amordaçado em nossa sociedade. Porém, tem gente que com o perdão da palavra não tem noção e se acha no direito de dizer tudo o que pensa sem nenhum tipo de filtro como se fosse uma criança de 3 ou 4 anos de idade. Muitas pessoas se consideram muitas maduras e tentam impor suas verdades como absolutas, sem nenhum tipo de relativização e educação, mas nem sempre percebem o quanto é infantil a sua necessidade de agredir. Ás vezes me questiono se quem escreve comentários cheios de ódio e ironia entendem realmente que quem está do outro lado da tela é um ser humano que poderia ser sua mãe ou pai, seu filho ou filha, seu melhor amigo ou amiga. Sem falar que a língua portuguesa é tão rica e algumas pessoas se limitam a utilizar apenas palavras chulas, o que empobrece ainda mais os debates, tornando-os até indignos de serem chamados de debates.

Quarto ponto: muita gente está confundindo as etiquetas das roupas com lemas de vida. Vestir-se bem é uma delícia. Mas jamais deveríamos definir os outros e a nós mesmos pelas marcas que usamos. O que deveria nos definir são nossas ideias, nossos valores, como agimos e o que fazemos para tornar o mundo um pouco melhor.

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Ser independente não significa ser indiferente à dor do outro. Não significa viver a parte do outro. Somos responsáveis sim pelo que fazemos, pelo que dizemos. Amadurecer vai muito além de pagar as próprias contas , construir uma carreira e dirigir um carro. Amadurecer num sentido mais profundo é se perceber como parte integrante de uma sociedade, em que cada um deveria se importar com os outros, em um movimento de mútuas interações. Como defendi em outros textos meus, em minha opinião, não existe inteligência sem bondade e a empatia é essencial para nos relacionarmos com mais sensibilidade. Até quando insistiremos em nos defender da dor, do medo, da ansiedade por detrás do lema “Eu sou mais eu e o mundo que se dane”?

Em resumo: se queremos uma sociedade mais saudável, mais equilibrada, se queremos uma vida melhor, precisamos começar a estabelecer mudanças dentro de nós mesmos. Pequenos exames de consciência, a tentativa de atitudes mais corteses, um olhar menos impiedoso sobre o outro, uma linguagem mais polida e culta, mais respeito a alteridade e menos palpites preconceituosos podem ser um excelente início para revolucionarmos o nosso mundo interno. O mundo não muda. Quem muda são as pessoas.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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