cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

A solidão do amor em dois livros memoráveis

Amamos e pronto. Às vezes uma vida inteira sem nenhum tipo de correspondência, nexo ou porquê. Simplesmente amamos. Nos basta? Não importa. Não é uma questão de escolha. É amor, apenas isso.


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Lilian Lemertez como a protagonista do filme Lição de amor, baseado em Amar, verbo intransitivo

Já disse Mario de Andrada em 1927 que amar era verbo intransitivo. Na verdade , o verbo é transitivo pois quem ama , ama algo ou alguém. O que é intransitivo é o ato de amar pois não necessita de complementos. Não necessita de porquês, muito menos de reciprocidade.

Amamos e pronto. Às vezes uma vida inteira sem nenhum tipo de correspondência, nexo ou porquê. Simplesmente amamos. Nos basta? Não importa. Não é uma questão de escolha. É amor, apenas isso.

Em o deserto do amor, do escritor existencialista francês François Mauriac, a solidão do amor é comparada a um deserto, pois amar é uma caminhada que fazemos sozinhos. Tendemos a confundir amor sentimento com relacionamento amoroso.

O personagem protagonista é um homem que realizou muitas conquistas amorosas, mas que nunca se esqueceu do seu primeiro amor e da sua primeira rejeição. Passou anos e anos reconstruindo uma imagem partida para posteriormente admitir que seu primeiro amor definiu tudo em sua vida. Não importava quantas mulheres o desejassem e quantas ele abandonasse, ele seria para sempre um rejeitado caminhando solitariamente no seu deserto particular. Todos nós temos um. A diferença é que apenas poucos corajosos admitem ter.

Indico os dois livros para quem gosta de literatura pungente, que não doura a pílula nem apazigua. O primeiro é uma feroz crítica à burguesia paulistana dos anos 1920. O livro foi considerado imoral. Imoral é a realidade, não o livro. Um pai de família contrata uma professora alemã para ensinar piano e seu idioma aos filhos. Mas na verdade , sua principal incumbência é iniciar sexualmente o jovem Carlos. Mas como amor não se planeja nem se controla, as lições da Fraulen incluem muito mais de afetividade e paixão do que o pai de Carlos pretendia.

O segundo é um dilacerante retrato das marcas que o primeiro amor deixa na pele da alma. Somos definidos por nosso primeiro amor. E não importa o que aconteça depois. Estamos condenados a revivê-lo na cama de outras pessoas ou até mesmo solitariamente em nosso coração.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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