cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A vida como ela é: dialógo entre teatro e cinema

Sim, somos limitados, sofridos, atropelados pelos acontecimentos. Mas a nossa condição não pode servir de pretexto para cruzarmos os braços e nos acomodarmos.


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Cena do filme Quem tem medo de Virginia Woolf?

Suicídio. Fracassos. Jogos perversos. Prostituição. Esquizofrenia. Estes são alguns dos temas tratados por peças teatrais que se tornaram filmes e pouco importa se os diretores mantiveram o estilo verborrágico típico do teatro. O que conta mesmo nestes filmes é colocar o dedo na ferida o mais fundo possível.

Que a existência humana é uma miséria parece fato razoavelmente aceito por muitas pessoas. E quanto mais negamos esta precária condição, mais afundamos no lamaçal das ilusões perdidas. Me parece que apenas a verdade , o reconhecimento do grotesco e a busca do belo no horror pode trazer à tona algo que valha a pena.

Sim, somos limitados, sofridos, atropelados pelos acontecimentos. Mas a nossa condição não pode servir de pretexto para cruzarmos os braços e nos acomodarmos. No atual artigo comentarei 5 peças teatrais que foram adaptadas para o cinema e que mostraram sem tabus temas tabu.

Noite de desamor Peça teatral: Marsha Norman Direção do filme: Tom Moore Estados Unidos, 1986 Elenco: Sissy Spacek e Anne Brancoft

Um filme de linguagem simples e conteúdo indigesto. Em uma noite aparentemente comum, a filha de meia-idade comunica à mãe que vai se suicidar. Vai além. Diz que planejou sua morte durante meses. Vai mais longe ainda. Diz que seu suicídio será a única coisa que dará certo em sua vida. Enquanto a mãe tenta convencê-la do contrário, num estilo bem dialético, descobrimos pouco a pouco a vida infeliz e desafortunada das duas personagens. O suicídio é tratado neste filme de forma pouco usual. A decisão de cometê-lo não nasce de um momento de desespero seguido de um gesto impensado. A personagem vivida por Sissy Spacek o planeja detalhadamente , com extrema racionalidade e consciência de que é o melhor a se fazer. Um grand finale para uma vida medíocre e frustrante. Heroína ou covarde? Esta resposta fica a critério de cada espectador e é aí que reside o maior charme do filme. Ele não nos induz a uma resposta fechada, moralizante e padronizada.

Quem tem medo de Virginia Woolf? Peça teatral: Edward Albee Direção do filme: Mike Nichols Estados Unidos, 1966 Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segal e Sandy Dennis.

Filme cruel sobre a complexa e histérica dinâmica de um casal intelectual de meia-idade. George e Martha interpretados pelo casal da vida real Richard Burton e Elizabeth Taylor enredam um jovem casal num jogo complicado e perverso onde custa a entender o que é verdade e mentira. Provavelmente , o aspecto mais interessante do filme além da ironia e amor destrutivo do casal protagonista é perceber o quanto algumas mentiras e ilusões são necessárias para sobrevivermos à vida. Mais um filme politicamente incorreto, denso e visceral.

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Elizabeth Taylor recebeu merecidamente o Oscar por melhor atriz como a insanamente lúcida Martha

Esta mulher é proibida Peça teatral: Tennessee Williams Direção do filme: Sydney Pollack Estados Unidos, 1966 Elenco principal: Natalie Wood e Robert Redford.

Dos cinco filmes listados no atual artigo este é o que apresenta linguagem mais cinematográfica. O nome original da peça teatral é Esta propriedade está condenada, fazendo um paralelo entre uma casa e uma jovem predestinada a uma vida de prostituição e humilhação pela própria mãe. Tenneesse Williams se centrou nos Estados Unidos decadente do pós Segunda Guerra Mundial em que personagens doces , sensíveis e iludidos eram massacrados pelas circunstâncias. Um filme profundamente romântico, levemente erótico e essencialmente trágico.

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A bela Natalie Wood vive a iludida Alva, mais uma personagem de Tenneesse Williams esmagada pela realidade

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A sordidez do mundo conspira contra o amor

À margem da vida Peça teatral: Tenneesse Williams Direção do filme: Paul Newman Estados Unidos, 1987 Elenco: Joanne Woodwarde, Karen Allen, John Malkovich, James Naughton

Também ambientado no pós Segunda Guerra Mundial os três personagens principais da trama que constituem uma mãe com seus dois filhos vivem à margem da vida pois cada um à sua maneira se defende da realidade nua , crua e brutal por meio de sonhos. Tom vai ao cinema todas as noites em busca de aventura para compensar um emprego rotineiro que odeia. A tímida Laura suporta a sua solidão e inaptidão para a vida cuidando de um delicadíssimo zoológico de cristal, poética referência à sua frágil psique. Qualquer movimento mais brusco pode destruir tudo. Amanda, a mãe alegra-se lembrando do glorioso passado cheio de pretendentes amorosos e uma vida materialmente confortável. O Sul escravagista é recordado com nostalgia por personagens que não aceitam a mudança dos tempos e não se readéquam a realidade. Filme extremamente profundo, melancólico e revelador da condição humana.

Uma rua chamada pecado Peça teatral: Tenneesse Williams Direção do filme: Elia Kazan Estados Unidos 1951 Elenco principal : Vivien Leigh, Marlo Brando, Kim Hunter, Karl Malden

Uma rua chamada pecado é uma das adaptações da célebre peça de Tenneesse Williams com nome original Um bonde chamado desejo. As personagens Blanche e Stanley vividos por Vivien Leigh e Marlo Brando representam respectivamente o velho e o novo mundo. Blanche vive do seu passado próspero e usa peles e pérolas falsas para ignorar uma realidade arruinada. Stanley e Stella, irmã mais jovem de Blanche representam o novo mundo, o pós Segunda Guerra, em que apenas os fortes e obstinados podem sobreviver e reconstruir um mundo destroçado.

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A realidade se impõe de forma intolerável

O final do filme é diferente do desfecho da peça para não escandalizar o público da época. Quem desejar ver uma adaptação coerente com o texto teatral, pode assistir ao filme de 1995, dirigido por Glenn Jordan e protagonizado por Jessica Lange e Alec Baldwin.

O diálogo entre teatro e cinema tem sido bem profícuo. O cinema ajuda a democratizar textos conhecidos por poucas pessoas e simultaneamente se beneficia com textos altamente complexos, com grande profundidade intelectual. Mas preparem-se. Não são filmes apaziguadores num sentido convencional. Podem contribuir sim e muito para quem estiver realmente aberto para mergulhar na complexidade da vida, extraindo dos escombros da realidade o que há de mais vital na existência humana.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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