cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Não, estes filmes não são de sacanagem: o cinema político italiano

Em sociedades marcadas pelo consumismo e individualismo, o hedonismo, o prazer pelo prazer parece ser a resposta para tudo e realmente é até certo ponto. Passada a empolgação pelo objeto do desejo ou a sua perda repentina faz com que o tédio volte com força total. Um retrato desolador de uma sociedade sem senso de coletividade.


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Silvana Mangano em Teorema: vazio de viver preenchido temporariamente pelo hedonismo

O cinemas italiano e espanhol se utilizaram muito do sexo e de situações extremas de violência e perversão para falar sobre dramas políticos, regimes e estruturas opressoras na sociedade. Muitas cineastas e filmes passaram por pervertidos, mas na verdade estavam simplesmente denunciando realidades hipócritas, injustas e cruéis.

1. Salò ou 120 dias em Sodoma, de Píer Paolo Pasolini

Dirigido em 1975, Pasolini transferiu a obra do Marquês de Sade para o contexto da Itália fascista, em que jovens eram aprisionadas de forma aleatória por quatro dirigentes fascistas, cada um simbolizando um dos poderes sociais. Um deles é presidente de um banco, portanto representa o poder econômico. O outro é juiz. Há também um bispo e um duque, representando respectivamente o poder da Igreja e da nobreza.

Os jovens aprisionados, tanto os garotos como as garotas, eram usados como escravos sexuais e os que desobedeciam às regras sofriam torturas inimagináveis, que levavam à morte.

Por meio de obsessões, dos fetiches mais bizarros, da escatologia e da maldade no seu estado mais brutal, Pasolini jogou na cara dos espectadores toda a crueldade e arbitrariedade do poder que faz o que bem entende com o povo.

A linguagem é realmente chocante e quem tem estômago fraco pode se sentir mal com as cenas de tortura e escatologia, que incluem pessoas comendo fezes. Quem se sentir preparado para mergulhar num mundo de alegorias, siga em frente e se depare com provavelmente o retrato mais despudorado dos mecanismos asquerosos do poder.

Se formos parar para pensar calmamente, simbolicamente falando, a maioria da população é obrigada a comer fezes. Precisamos engolir a nossa dignidade, o nosso orgulho, as nossas convicções, as nossas vocações em nome da mera sobrevivência.

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Cena de Salò ou 120 dias em Sodoma: o sadismo do poder. O poder é arbitrário, viola e nos faz comer degetos

2. Teorema, de Píer Paolo Pasolini

Dirigido em 1968 por Pasolini, um dos diretores que criticou mais furiosamente a sociedade de consumo, Teorema mergulha no tédio e vazio de uma família burguesa, que sai do estado letárgico com a chegada de um sedutor homem interpretado por Terence Stamp que se relaciona eroticamente com todos os membros da família, incluindo a empregada da casa. Todos se apaixonam pelo desconhecido que de repente desaparece, deixando todos abandonados à própria sorte. Em sociedades marcadas pelo consumismo e individualismo, o hedonismo, o prazer pelo prazer parece ser a resposta para tudo e realmente é até certo ponto. Passada a empolgação pelo objeto do desejo ou a sua perda repentina faz com que o tédio volte com força total. Um retrato desolador de uma sociedade sem senso de coletividade.

3. Diabo no corpo, de Marco Bellochio

Produzido em 1986, Diabo no corpo vai muito além de um romance ultra sensual entre uma linda e perturbada mulher com um jovem estudante. A protagonista é noiva de um homem que participa de um grupo terrorista e a própria intensidade e desprendimento com que o casal vive sua paixão pode servir de metáfora para a necessidade de revoltar-se contra padrões opressores. Andrea, o jovem estudante, sai de sua sala de aula pulando pela janela com extrema naturalidade e desenvoltura, mostrando um poderosíssimo senso de liberdade.

4. A comilança de Marco Ferreri

De 1973, A comilança é aparentemente um filme bizarro e grotesco em que quatro amigos bem sucedidos se reúnem numa mansão para um final de semana de orgia sexual e principalmente alimentar. Por meio da ingestão incessante de alimentos, desejam alcançar a morte. Como em Salò , os amigos representam importantes arquétipos sociais: o juiz doce e diabético que apresenta uma relação incestuosa com sua babá, o piloto de avião garanhão que na realidade não passa de um impotente quando se depara com uma mulher que deseja, o gentil produtor de televisão com problemas digestivos e o empático chefe de cozinha , responsável por dar prazer a todos. Os amigos são orientados pela meiga professora primária Andrea, que se mostra muito mais quente do que as prostitutas contratadas para compor o quadro dionisíaco.

Por meio dos 5 personagens centrais, podemos ver nitidamente o retrato de uma sociedade saturada pelo hedonismo, individualismo e consumismo, em que viver não faz muito sentido.

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Cena de A comilança: em uma sociedade regida pelo consumismo, tudo vira produto e o sexo se mecaniza

5. Último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci

Muito mais que um filme fetiche, a obra-prima de Bertolucci, produzida em 1972, mostra que quem dança fora dos padrões sociais é convidado a se retirar. Por meio do erotismo exacerbado, um casal pouco viável socialmente falando, vive o mais intenso de suas existências. Um grito desesperado em prol da liberdade e do amour fou.

Em resumo, o cinema nem sempre mostra claramente o quer mostrar. Filmes de grandes cineastas exigem do seu público uma boa dose de imaginação e perspicácia. Mas como quase tudo na vida, entender os signos do cinema é mera questão de prática.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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