cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Os tênues limites entre sanidade e loucura no cinema

Até que ponto a sociedade considerada normal não é tão ou até mais doente do que os internos de uma instituição psiquiátrica. Infelizmente, socialmente falando, ser normal muitas vezes é considerado ser prático ao extremo, indiferente à dor alheia, incapaz de amar algo ou alguém com verdadeira devoção. As sociedades matam inocentes em nome de Deus e quando digo matar vou além do homicídio físico. As pessoas em nome das regras matam a esperança e a alegria dos outros.


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Como afirmam muitos teóricos da área de cinema , a sétima arte não é espaço para conformismos e normalidade. O cinema faz uma compilação de todas as outras artes ( se cinema fosse cor seria o branco) para jogar em nossa cara o quanto nossas crenças são frágeis, nossa sanidade questionável e todo um mundo que poderia existir , mas que em grande parte não existe pois somos fracos, covardes e normais demais para mudá-lo.

Preferimos nos empanturrar com comédias românticas açucaradas ou dramas light ou filmes fantasiosos para fugirmos da realidade e compensarmos as frustrações da vida por meio dos filmes, como se estes fossem remédios para dormir ou ansiolíticos. Deveríamos entender o cinema como terapia, psicanálise, utilizando-o para mergulhar no âmago do nosso eu mais profundo, combatendo as causas e não disfarçando sintomas.

Por meio do desespero de personagens, podemos entender melhor tudo o que nos aflige. No atual artigo, comentarei um filme que questiona os limites tênues entre sanidade e loucura: Refúgio do medo, baseado em um conto de Edgar Allan Poe e dirigido por Brad Anderson.

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A relação médico/paciente é muito mais complexa do que possamos imaginar

Basicamente, o filme mostra um hospício que foi dominado pelos doentes mentais enquanto que os verdadeiros profissionais ficam presos. À primeira vista pode soar como um filme grotesco em que loucos babando comem as próprias fezes e mutilam dedinho por dedinho de cada médico e enfermeira da instituição. Não. Não se trata disso. O filme trata dos métodos insensíveis utilizados em doentes mentais no finalzinho do século XIX. Vale ressaltar que o filme Um estranho no ninho, de Milos Forman, realizado em 1975 e baseado no romance homônimo dos anos 1960 descreve uma realidade bem semelhante à apresentada em Refúgio do medo.

Refúgio do medo não é um filme grotesco nem de terror. Refúgio do medo mostra o lado sensível e lúcido dos pacientes ou de pelo menos boa parte deles. Mostra que muitas vezes o excesso de sensibilidade pode adoecer seriamente uma pessoa. Mostra o quanto os doentes mentais são incompreendidos, mas que apesar do seu desajuste, também desejam o amor, a felicidade e podem praticar generosamente a compaixão. Mostra que a cura só pode vir através do amor, da compreensão.

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Não há nada mais curativo do que o amor e a compaixão

Refúgio do medo questiona conceitos que nos são muito caros: em alguma medida somos todos doentes mentais pois não existe cura para a condição humana. Até que ponto a sociedade considerada normal não é tão ou até mais doente do que os internos de uma instituição psiquiátrica. Infelizmente, socialmente falando, ser normal muitas vezes é considerado ser prático ao extremo, indiferente à dor alheia, incapaz de amar algo ou alguém com verdadeira devoção. As sociedades matam inocentes em nome de Deus e quando digo matar vou além do homicídio físico. As pessoas em nome das regras matam a esperança e a alegria dos outros. Em nome do lucro, o prazer, o tempo livre, a convivência familiar. Em nome da etiqueta, matamos o nosso eu. Em nome da prudência patológica, deixamos de nos comprometer pelos outros e por nossos valores. Em nome das convenções, matamos o nosso senso de prazer. Em nome do medo, deixamos de viver o amor.

Um filme intenso, magnético, existencialista, onde nada é o que aparenta ser.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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