cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Geração Prozac e o desespero do deprimido

Sim, a depressão abre um abismo entre o deprimido e toda a realidade que está ao redor. As pessoas que mais amam e que mais são amadas pelo deprimido não sabem exatamente o que dizer ou fazer.


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Às vezes tenho a sensação de que o deprimido é como alguém que quer falar mas a voz não sai; quer andar, mas as pernas não se movem; quer respirar, mas está se afogando.

Sim, a depressão abre um abismo entre o deprimido e toda a realidade que está ao redor. As pessoas que mais amam e que mais são amadas pelo deprimido não sabem exatamente o que dizer ou fazer.

Muitos tentando ajudar e consolar simplificam demais o drama do deprimido como se esta incapacitante doença fosse uma mera má fase. Realmente, algumas pessoas passam por um momento depressivo complicado e depois superam e tocam a vida numa boa. O problema é quando a vida da pessoa se torna uma eterna má fase em que fazer as coisas mais banais é um peso homérico.

Existem muitos mitos e preconceitos rondando o imaginário coletivo a respeito dos deprimidos. O filme Geração Prozac, de Erik Skjoldbjaerg , produzido em 2001 , baseado no romance de Elizabeth Wurtzel, que por sua vez relatou a sua vida, mostra de forma veemente e dura o abismo no qual o deprimido se encontra, tornando-o uma presa fácil das suas próprias emoções e contagiando a todos ao seu redor.

Sentindo-se rejeitada pelo pai que se separou da mãe quando ela tinha menos de 2 anos, a jovem protagonista, uma inteligente e complicada bolsista de Harvard, desconta na literatura, nas drogas e no sexo descompromissado a sua angústia desmedida e seu paralisante medo da rejeição.

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Lizzy quer ser amada, mas faz tudo para ser criticada e rejeitada pois magoa quem mais a ama. Estressa-se facilmente com a mãe que apesar das suas limitações faz de tudo para ajudá-la. Relaciona-se sexualmente com o namorado da melhor amiga , uma jovem doce e otimista que se cansa de tentar entendê-la. Vampiriza o namorado até o rapaz romper a relação com ela.

Uma das cenas visualmente e sonoramente mais interessantes é quando Ruby, melhor amiga de Lizzy, grita com a protagonista na rua, totalmente enfurecida e Lizzy não consegue ouvi-la, imersa em sua caótica subjetividade.

Jessica Lange me pareceu uma ótima opção para viver a torturada mãe de Lizzy, que vive no limite das suas emoções, entre uma gentileza tensa e uma histeria despudorada.

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Lizzy é uma escritora compulsiva e talentosíssima que não faz nem sente nada pela metade. A menor contrariedade pode servir como um detonador para bagunçar o seu simulacro de equilíbrio. Lizzy começa a reorganizar a sua vida apenas depois de algumas semanas que inicia o tratamento com Prozac.

No final do filme, informa-se que apenas nos Estados Unidos, cerca de 300 milhões de receitas de antidepressivos são emitidas anualmente. Este filme foi realizado há quase 15 anos. Não é mais possível fecharmos os olhos para os deprimidos ou simplificar o problema. Depressão é coisa séria e deveria ser repensada com mais cuidado, carinho e generosidade.

Porém, possivelmente , o problema da personagem ultrapassava a depressão. Possivelmente , Lizzy sofria de bipolaridade. Em muitos artigos , encontramos Lizzy como uma depressiva simplesmente. Mas me parece que ela apresenta algo a mais , pois além da depressão profunda e paralisante em muitos momentos, ela apresenta grandes dificuldades para manter laços sociais e machuca quem mais a ama. Um exemplo disso é o fato de Lizzy ter mantido uma relação sexual com o namorado da sua melhor amiga.

Bipolares , muitas vezes, são confundidos com portadores de transtorno Borderline porque ambos são impulsivos e instáveis emocionalmente , propensos à depressão e a excessos, como por exemplo, abuso de drogas. Porém, o transtorno bipolar é mais um desequilíbrio cerebral enquanto que o transtorno de personalidade Borderline , como o próprio nome diz, é a personalidade da pessoa. Ambos necessitam de terapia e medicação, mas no caso dos bipolares a medicação fala mais alto enquanto que entre os Border , a terapia é primordial para ajudar a desenvolver a personalidade frágil. Lizzy melhora muito depois de começar a ser medicada.

Embora Lizzy tenha muito medo de ser rejeitada , traço fundamental dos Borderline , o seu comportamento se aproxima mais dos bipolares porque ela não demonstra a subserviência que é típica dos Bordeline. Normalmente , os Bordeline fazem qualquer sacrifício para manterem uma relação afetiva. Lizzy faz o contrário. Ela agride e hostiliza quem ela não quer perder.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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