cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O abismo entre classes e a incomunicabilidade em Miss Julie, de Liv Ullmann

Durante o dia mais longo do ano, os protagonistas mergulham na mais profunda escuridão. Muitas vezes são os dias festivos os mais trágicos de nossas vidas porque quando quebramos o automatismo da rotina, abrimos brechas para o inusitado.


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Jessica Chastain e Colin Farell como Miss Julie e John

A comunicação humana é um processo complexo e delicado, passível de inúmeros ruídos que prejudicam o entendimento de uma mensagem, principalmente as verbais. Quando a comunicação se concentra no campo amoroso, entre duas pessoas que se desejam, mas que por alguma razão, medem forças, chegar a qualquer resultado construtivo é praticamente impossível.

Além do abismo entre classes, a incomunicabilidade me parece o tema principal de Miss Julie, da sueca Liv Ullmann, protagonista de grandes filmes de Ingmar Bergman, como Persona, Gritos e sussurros, Sonata de outono, entre outros. O filme é uma versão da famosa peça homônima de August Strindberg.

De Bergman, Liv Ullmann captou o visual das cenas, o jogo de cores, o vermelho estridente do quarto materno, a empregada de olhos bondosos, modos humildes e alma profunda; a protagonista ruiva, instável, loucamente fascinante como as personagens que a própria Liv Ullmann interpretou um dia. Inclusive a atriz Jessica Chastain tem um tipo de beleza bem semelhante ao de Liv Ullmann. Pele clara, olhos sedutoramente melancólicos, lábios carnudos, uma expressão tensa, típica de alguém prestes a explodir.

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Jessica Chastain como Miss Julie

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Liv Ullmann em Gritos e sussurros, de Bergman.

Com a estrutura teatral mantida, os personagens protagonistas andam em círculos e quanto mais falam, menos se entendem e não conseguem identificar onde termina o amor e começa o ódio de cada um.

Miss Julie aprendeu a desconfiar e a odiar os homens. Herança deixada por sua mãe friamente carinhosa, que morreu quando ela tinha apenas dez anos. Sua mãe é vista apenas por meio de uma pequena foto mostrada de longe, mais uma singela metáfora da fragilidade dos laços familiares que encontramos em Bergman.

John amava mais do que Julie. Amava o mundo a qual ela pertencia, mas ao mesmo tempo a invejava. E neste misto contraditório de emoções pulsantes, numa única noite, eles fazem jogos, eles se encontram sexualmente, se desesperam, se reencontram, se desesperam novamente até as consequências do desfecho.

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O lado "aristocrático" de John finge se submeter

Em determinado momento, Julie e John contam seus sonhos. Julie deseja descer de um monte e John subir em uma árvore. Julie se mistura com os empregados, imagina-se gostada por eles. John tem gosto refinado, sabe apreciar um bom vinho, sabe apreciar as particularidades de uma mulher culta e aristocrática.

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Julie prova de seu próprio veneno, transformando sua vantagem social na sua desgraça

Depois da entrega sexual, o indefinido sentimento entre ambos começa a ganhar nuances histéricas com a negação do amor por parte dele e com a necessidade de afirmar um amor inventado por parte dela. Ele provavelmente a ama muito mais do que ela a ele, mas é Julie que reivindica o amor para dar uma aura de dignidade a seu mau passo. Por outro lado, ele a humilha, a compara a uma mulher vulgar para castigá-la por sua incapacidade de amá-lo ferozmente. Mostrando sentimentos opostos, encontramos nesta inversão de intenções mais um elemento teatral, pois não sabemos ao certo quando eles atuam ou realmente se confessam.

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Julie completamente humilhada simula um amor

O filme apresenta duas metáforas muito poderosas: a da cachorrinha prenhe e do dia do solstício.

Durante o dia mais longo do ano, os protagonistas mergulham na mais profunda escuridão. Muitas vezes são os dias festivos os mais trágicos de nossas vidas porque quando quebramos o automatismo da rotina, abrimos brechas para o inusitado.

A trama acontece praticamente toda na cozinha, ressaltando a derrocada de Julie ao mundo de John e a colocando no patamar da cozinheira Kathleen, interpretada por Samantha Morton. A cozinha também traz a ideia da intimidade, do ato de comer e beber sem máscaras e protocolos. A cozinha nos remete ao nosso essencial, ao nosso primitivo.

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A cachorrinha de Miss Julie cruzou com um vira-lata e sua dona lhe serviu um abortivo pois não admitia o fato de uma cachorra com pedigree dar cria de um vira-lata. Tal cena ocorre no início do filme, nos dando uma importantíssima pista de tudo que virá.Outra importante referência ao mundo animal é a comparação da sanidade de Julie com a vida do seu passarinho. Julie é tão frágil quanto o único serzinho que ela genuinamente amava.

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Um filme simples e profundo ao mesmo tempo. Visceral, cruel e verdadeiro, em que cores berrantes e almas desesperadas se esfolam até deixarem o espectador em carne viva.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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