cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O lado deliciosamente canalha do artista em Desconstruindo Harry

O artista recria a sua dor, a sua decepção, o seu lado mais obscuro de tal modo a transformar o horrendo em belo. Este é o grande truque dos que moldam palavras, argila, acordes ou imagens em movimento. O grande truque é nos fazer ver com os seus olhos, escutar com os seus ouvidos, retirar o ar dos seus pulmões e pulsar com o seu coração.


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Harry diante da mulher amada com o seu grande amigo

Almodóvar é o cineasta que mostra a tragicomédia da vida. Lars Von Trier revela o esgoto da alma. Tarantino transforma a violência em estética. Cronenberg e Fincher rasgam a realidade com críticas cáusticas. Lynch mergulha no surrealismo para desvendar ou obscurecer ainda mais o pesadelo da vida. Woody Allen ressalta o ridículo nosso de cada dia.

Sim, para Woody Allen a vida é ridícula. A sociedade é ridícula. O romantismo é ridículo. Respirar é ridículo e num misto de pesar e louca euforia concordo com este cineasta que vai muito além de fazer filmes. Faz a mais fina filosofia por meio dos tipos e situações mais banais do cotidiano.

Niilista, extremamente crítico e sedutoramente cáustico, Allen brinca com o comezinho para expor as nossas feridas. Em Vick, Cristina e Barcelona, ele mostra que medroso uma vez, medroso sempre. Em Para Roma com amor, entre outros temas, mostra o absurdo de “emprestar” o parceiro para fazer companhia às amigas sem rumo. Convenhamos. Amigas das companheiras já são objetos do desejo para os homens. Imaginem uma sem rumo, então? Em Meia-noite em Paris disseca um tipo padrão de noiva esnobe que podemos encontrar em inúmeras pessoas que conhecemos.

Em Você vai encontrar o homem da sua vida, ele joga a pá de cal nas esperanças femininas de ser feliz no amor. Em Poderosa Afrodite, joga luz no automatismo pedante dos casamentos modernos e descolados.

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Naomi Watts deixa o bonde passar em Você vai encontrar o homem da sua vida. Allen é implacável com personagens que hesitam. A eles só resta uma vida medíocre

Mas neste post quero me centrar no filme Desconstruindo Harry e na irresistível canalhice do escritor. Harry, um escritor, expõe a todos da sua vida por meio dos seus livros. Não poupa ninguém: ex-mulher , ex-cunhada com quem teve um caso, outra ex-mulher, a própria irmã. Não é a toa que ele conquista inimigos por onde passa.

Harry conta os fatos da sua vida sob a sua perspectiva bem parcial e descreve as pessoas que o cercam por meio da sua subjetividade desenfreada. Faz uma mescla entre a irmã altamente religiosa com sua primeira ex-mulher, que antes de ser sua esposa, foi sua terapeuta. Ele pega o que mais lhe desagrada em cada uma, joga uma lente de aumento e cria uma personagem grotesca.

Ele pisa na bola sem parar, mas fala com o espectador como quem fala com um analista com carinha de vítima, com carinha de um atropelado pelo destino. E neste misto de piedade e raiva que o personagem desperta, só nos resta esboçar aquele risinho de canto de boca que obras inteligentes despertam em nós. E não tem como não ficar com dó do personagem porque ele apronta, mas se dá muito mal também. Perde a mulher amada para o descolado melhor amigo. Chega a um evento importante em uma universidade acompanhado pelo cadáver de um amigo e uma prostituta paga para lhe fazer companhia.

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O "pobre Harry" sempre incompreendido e vítima das circunstâncias

Mesclando cenas reais com cenas de seus livros , todas as cenas parecem realmente ficcionais pois a vida tem muito de surreal e insólito.

Durante um diálogo com sua irmã, ela cogita a possibilidade dele ter um câncer e morrer em pecado. Com a maior tranquilidade do mundo ele afirma que não terá câncer porque comeu brócolis. Em resumo: uma tiração de sarro a respeito das fórmulas fechadas que a sociedade prega fervorosamente sobre bem estar e boa saúde.

Com esta brincadeira falsamente ingênua, o cineasta descortina o ridículo das nossas crenças em qualquer coisa que transmita segurança. Estamos à deriva e nem nossa fé, nem uma alimentação equilibrada, nem a solidez de um casamento antigo, nada, absolutamente nada nos salvará. Dolorido? Muito. Mas profundamente filosófico e essencial para uma vida mais verdadeira, com menos ilusão de autocontrole.

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Woody Allen questiona comicamente o absurdo das convenções e põe em xeque certos moralismos

O artista recria a sua dor, a sua decepção, o seu lado mais obscuro de tal modo a transformar o horrendo em belo. Este é o grande truque dos que moldam palavras, argila, acordes ou imagens em movimento. O grande truque é nos fazer ver com os seus olhos, escutar com os seus ouvidos, retirar o ar dos seus pulmões e pulsar com o seu coração.

Sim, artistas são um pouco canalhas. Aquele tipo de canalhice essencial para suportarmos a vida tão cheia de mesmices tediosas.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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